quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

A BOLA TÁ MAIS TRISTE: OUTRO GÊNIO SE VAI

O mundo dos geniais não é coisa para mortal comum entender. A história registra que quase todos os gênios nas diversas artes têm desvios de conduta,, são impacientes, irascíveis ou castigados pelo destino com imprevistas doenças. Como se recebessem avisos periódicos dos deuses: a genialidade de vocês não lhes dá a imunidade de super-homens. Cito dois para não me estender muito: Castro Alves, morto aos 24 e Noel Rosa, aos 26 anos.
No mundo do futebol, apesar de sua extraordinária genialidade, o Rei Pelé vestido de Edson Arantes do Nascimento tem grandes percalços de personalidade. Seus casamentos com louras são frustrantes, seu filho tornou-se traficante de droga, foi preso e condenado; não reconheceu a paternidade de uma jovem já falecida, nem durante o câncer que a vitimou.
Só na Justiça, confirmado pelo DNA, a moça conseguiu usar o sobrenome Arantes do Nascimento e morrer sem que o pai famoso ao menos fosse ao seu sepultamento.
Maradona e Reinaldo envolveram-se com drogas pesadas. O “deus” argentino foi até flagrado no exame antidoping de uma Copa, após ganhar a de 1986, sozinho, para os hermanos.
Zico seria a exceção da regra caso não tivesse sofrido aquela entrada criminosa do beque Ananias, do Olaria e tivesse conseguido um título mundial com a Seleção.
Casos das frustrações de Falcão, em 82, e de Zizinho, em 1950. Este pior, foi escorraçado do Flamengo, teve sua camisa queimada e morreu alcoólatra, como simples fiscal de renda da prefeitura de Niterói. Esquecido.
Tostão antecipou o final de sua brilhante carreira por causa do descolamento da retina e tornou-se intragável socialmente até descobrir que queimava dinheiro. Voltou a explorar o mito Tostão. Deixando a medicina e tornou-se, de novo, um ermitão.
Garrincha morreu alcoólatra, pobre. Julinho Botelho, exemplar jogador, pessoa humana simples, morreu como viveu, gênio longe dos holofotes Canhoteiro imitou Garrincha até na morte: alcoólatra e pobre. E por aí vai.
No entanto, ninguém teve tanta força de vontade e de superação, além da incompreensão pública, como o gênio Ronaldo Nazário.
Sou um privilegiado: vi jogar, em muitos casos nascer, e convivi com a maioria desses gênios da bola. Como apaixonado pelo futebol, sofri junto
Gostava de chegar cedo ao Mineirão para acompanhar as preliminares entre juniores. Vi o menino que o Cruzeiro trouxera do São Cristovão. Arrebentou num clássico contra o Atlético na categoria.

Pinheiro, então treinador celeste, também viu e gostou. Integrou-o ao grupo profissional aos 16 anos. Pinheiro caiu e assumiu Carlos Alberto Silva. Então o Cruzeiro foi excursionar em Portugal para disputar amistosos e um torneio. Eu fui atrás.
Aqui em Beagá, tive duas oportunidades de falar com Ronaldo: na primeira, após um jogo no Mineirão, o repórter Wilson José fez a ponte e da cabine bati um papo com o jovem tímido que acabara de ser o melhor em campo.
Naquela mania de pai atento, julguei importante que usasse das mesmas prerrogativas pra dar alguns conselhos a Ronaldo e sua mãe, dona Sônia, com quem falei depois.
Sabem como, né? Aquela de não se meter em confusão, não deixar a fama subir-lhe à cabeça e sobretudo não perder aquela docilidade de alma. Ronaldo foi além.
Tornou-se o maior jogador do mundo. Só não conseguiu ficar fora das confusões depois de famoso.
A segunda vez foi na Federação Mineira de Futebol num evento que marcava a entrega de um prêmio de mil dólares a Ronaldo como artilheiro do campeonato mineiro.
Eu conseguira, como assessor de marketing da FMF, que o empresário Antônio Ragazzi instituísse a premiação. Ao receber o cheque, Ronaldo, menino pobre do bairro carioca de São Cristovão, me olhou, já com aquela visão futurista.
Discretamente indagou: “Não dá pra aumentar este prêmio”. Respondi: “Calma, menino, outros dólares virão”. E como vieram!
Esta intuição serviu pra apagar uma anterior que tive de total fracasso. Num amistoso entre Cruzeiro e Corinthians, no Independência, eu,como repórter de campo na Rádio Inconfidência, anunciei uma alteração no time celeste.
Ia entrar, sob enorme expectativa, a contratação louca de Felício Brandi, que roubara a promessa juvenil do América e pagara um milhão e meio de sei-lá-oquê. Uma fortuna.
Falei com o colega de lado: esse cara bundudo, desengonçado, gordo, isso não vai jogar bola nem aqui, nem na China. E como jogou! Era Tostão.
O Portal Uai escreve sobre a estréia internacional, como titular do Cruzeiro, de Ronaldo na visão do goleiro Figueiredo, então titular do Clube Belenenses, hoje com 50 anos e treinador de goleiros.
O titular, na visão de Carlos Alberto Silva, seria Toto, um atacante comprido, que fora artilheiro do campeonato mineiro, atuando no mistão celeste, enquanto os titulares disputavam a Libertadores.

Mas afirma o Portal: “Amistoso de pré-temporada do Belenenses, público pequeno e poucas - ou nenhuma? - câmeras de televisão no estádio Restelo, em Lisboa”.
Havia sim, o repórter José Roberto Cavalo, meu ex-colega de Rede Band, morando em Lisboa, estava do meu lado, com sua equipe de uma tevê local, cujo nome me falha. Dei uma entrevista pra ele sobre Ronaldo.
Segundo o portal isso aconteceu no dia 5 de agosto de 1993 e está marcado na vida do ex-goleiro; o simpático Clube Belenenses fica no bairro nobre de Belém, em Lisboa. Era treinado por Abel Braga.
Este dia entrou pra história porque Ronaldo marcou, de cabeça, o seu primeiro gol internacional e como profissional na vitória por 2 a 0. No time português estreava Cleisson, revelação cruzeirense negociado aqueles dias.
Lembra o Portal Uai que “Ronaldo estreou pelo Cruzeiro em 25 de maio de 1993 contra a Caldense (vitória de 1 a 0), pelo Campeonato Mineiro. Depois, só voltou a campo em 29 de julho no 2 a 1 sobre o Atlético-MG, também no Estadual”
Em agosto, o Cruzeiro viajou para amistosos em Portugal onde receberia, também, os valores referentes à venda de Cleisson. No dia 3, enfrentou o Benfica no belo estádio da Luz e Ronaldo fez efetivamente sua estréia internacional.
O jogo terminou em l a l e Ronaldo entrou com a camisa 15 durante a partida no lugar de Toto. Fez misérias em cima do beque Mozer, ex-Flamengo e Seleção Brasileira, ídolo em Lisboa, a ponto de ele dar-lhe uma entrada criminosa por trás.
No dia seguinte, os jornais não falavam de outra coisa a não ser do garoto de 16 anos do Cruzeiro. Benfica e Sporting fizeram cerco pra contratá-lo, mas César Masci, presidente azul, não quis nem conversa. Tinha um diamante bruto nas mãos.
Na época, Carlos Alberto Silva vinha de uma passagem vitoriosa pelo FC Clube do Porto, mas seu temperamento intragável nessas ocasiões provocara rompimento de relações dele com a Imprensa portuguesa.
Na porta do hotel, em Lisboa, Ronaldo, Luiz Fernando Flores e Paulo César Borges conversavam. Entrei no papo e disse a Ronaldo: “olhai, aqueles dólares começam a entrar”.
Com esse sorriso maroto que ainda permanece e este jeito dócil e tímido de falar, Ronaldinho balançou a cabeça num sinal positivo e admitiu.
Foi então que apareceu a figura do treinador, que não se dava comigo e ordenou que todos fossem para o refeitório.
No saguão principal estava um repórter do importante jornal português, A Bola, querente entrevista Ronaldo e Carlos Alberto Silva.
Quando se apresentou ao técnico foi repelido aos gritos: “não falo com a Imprensa portuguesa. Vocês não gostam de mim e nem eu de vocês. Vocês me criticaram demais”.
O rapaz pediu então pra falar com Ronaldo e, igualmente, não teve êxito. De longe, não suportei aquele ataque de estrelismo do treinador. Aproximei-me do repórter e me apresentei como jornalista, prontificando-me a ajudá-lo
Passei todas as informações sobre Ronaldo e levei ao jovem craque as perguntas que o repórter queria fazer.
No dia seguinte, A Bola abriu duas páginas internas e manchete de primeira página saudando Ronaldo, nas palavras do jornalista brasileiro Flávio Anselmo.
Amanhã eu escrevo sobre o Torneio da Cidade do Porto, envolvendo Cruzeiro, Peñarol e FC do Porto. O gol espetacular de Ronaldo sobre os uruguaios e o novo vexame do treinador.

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