quinta-feira, 16 de junho de 2011

TIME NENHUM TREINA MAIS FUNDAMENTOS

Alguns treinadores que acompanhei, rotulados de “os melhores nos seus tempos”, como Elba de Pádua Lima, o Tim; Martim Francisco, Iustrich, Zezé Moreira, Fleitas Solich, Osvaldo Brandão, Didi, Telê Santana, entre outros menos famosos, não abriam mão do treinamento com bola e da repetição de fundamentos. Contam que Didi, o famoso Folha Seca, dono de técnica inigualável como jogador, insistia com determinado atleta, na sua curta passagem pelo Cruzeiro, pra acertar o cruzamento do escanteio. Didi servia de referência, base. Queria a bola atrás dele, na cabeça no zagueiro alto que vinha à área adversária. O cara não acertava nenhuma, mas Didi não desistia. Aí o batedor, dono de forte chute, bateu na direção do treinador, com raiva. Didi matou a bola no peito, ela mansamente caiu no seu pé direito e foi devolvida ao atrevido.
Aos 50 anos, o Príncipe Etíope – apelido que lhe dera o escritor Nelson Rodrigues, ao vê-lo jogar com elegância e a cabeça em pé – não havia perdido a classe e a educação. Andou até o rapaz e lhe disse ao ouvido: “Você não pode esquecer-se que sou bicampeão mundial, eleito o melhor jogador da Copa de 58. Tenho muito que lhe ensinar”. Retornou à antiga posição e repetiu ao atleta: “vamos tentar de novo, meu filho”.
Falem com Eder Aleixo, o bomba, e perguntem quantas vezes ele ficou após o coletivo treinando cobranças de falta e de escanteio com Telê Santana, na Seleção de 82, do seu lado, exigindo perfeição. Tostão tinha invejável perna esquerda ao chegar ao Barro Preto, por volta de 64, vindo do juvenil do América. Felício Brandi acreditava naquele baixinho bundudo, canhoto, meia atacante, e comprou seu passe por um milhão de cruzeiros. Dinheiro pra encardir!
Paulo Benigno, preparador físico do Cruzeiro, notou duas deficiências do craque. Perfeito com a perna esquerda, mas zero na direita. Não tinha impulsão, no cabeceio. Após os treinos normais, o falecido Paulo Benigno levava Tostão do lado do paredão do Estádio JK, no Barro Preto, e determinava que ele ficasse rebatendo bola só com a perna direita. “Chuta forte, Tusta”, não parava de gritar.
Em seguida, outra sessão de treino de fundamento. Alguém cruzava e Tostão subia para cabecear. No princípio, passava-se mal uma gilete debaixo de suas chuteiras. Lembro-me de um jogo contra o Formiga – a zebra do Campeonato Mineiro naquele ano. O Cruzeiro levava de 2 a 0 e Tostão empatou com dois gols de cabeça. Foi ao túnel agradecer Paulo Benigno.
Iustrich tornou o goleiro Adão, do Vila Nova, de medíocre a titular do Flamengo para onde o folclórico treinador foi parar após passar pelo Corinthians, Cruzeiro, Atlético, América e outros vários clubes. Não conseguiu, no entanto, fazer o mesmo programa de treinamento com Raul Plasmann. O goleiro da camisa amarela, titularíssimo e ídolo da torcida celeste, não aceitava rolar no gramado encharcado, cheio de lama, que Iustrich mandava molhar de propósito. Kafunga, que foi goleiro de Iustrich, contava – se verdade ou não – que o técnico levava seus atletas para o sítio que possuía em Vespaziano para treinar velocidade de raciocínio e agilidade tentando pegar as galinhas num amplo terreiro.
Na verdade, hoje os atacantes chutam mal. Matam a bola, desajeitados. Não levantam a cabeça para o arremesso final. Enfim, pouco treinam os fundamentos. Os treinadores alegam que os rapazes deviam vir preparados das divisões de base. Depois entre os profissionais seria como andar de bicicleta; não podem esquecer mais.
No basquete, no vôlei, no tênis, em qualquer esporte, coletivo ou individual, os fundamentos são treinados exaustivamente. No futebol, o negócio atual é treinar tática. Decorar números: 4-3-3, 4-4-2, 3-5-2, 3-5-l-l, enfim uma quantidade louca de esquemas que os atletas bons ou remediados são obrigados a engolir. A bola, figura mais importante do jogo, fica no esquecimento, encostada lá no canto. Na partida, não haverá intimidade entre ela e os atletas. Não se conhecem.
As torcidas não querem outra coisa senão jogador que saiba fazer gol, boas assistências, certeiros cabeceios, que defendam com autoridade e tratem a bola com carinho. Como, se não são mais treinados para tanto? Os exemplos são apresentados diariamente nos jogos de nossos times, na Seleção Brasileira. Atacantes tidos como goleadores, nada comparados na frieza com Romário, Reinaldo, Ronaldo Fenômeno e, por que não com o maior de todos, Pelé. Como dizem alguns analistas: “chutam no estilo rapa-bosta, ou seja, não batem no meio da bola, com o peito do pé. Três dedos então, nem pensar. Coisa de craques realmente.
Qual é o grande batedor de falta no futebol brasileiro fora do estilo “bico na bola, no meio da barreira que ela se abaixa?” As cobranças tinhosas, colocadas, ali onde a coruja dorme, na gaveta expressões criadas pelos narradores esportivos das emissoras de rádio, de chutadores tipo Petkovic, Didi, Gerson, Pelé, Pepe, e até do patada atômica Rivelino, Eder Aleixo, Nelinho, etc, etc. foram colocadas no fundo dos baús da história.
Não me tome por saudosista. Por favor. Nada disso. Cobro maior desempenho e compromisso dos treinadores e atletas, em vez de chorarem sobre o leite derramado, depois das partidas, justificando que seus times mereciam vencer. Dominaram a partida, criaram várias oportunidades e as bolas cismaram de não entrar. Vejam aí: criaram várias oportunidades! Por quê? Porque treinam exaustivamente jogadas táticas em movimentos laterais e bolas paradas. Mas se esquecem de treinar os finalizadores ou as finalizações. As jogadas saem conforme treinadas e os finalizadores chutam o balde cheio de leite arrematando-as por cima, de lado, onde o goleiro está, enfim, não fazem o elementar, ensinado por folclórico Neném Prancha aos artilheiros: “chutem no canto onde o goleiro não está”. Para esse pequeno detalhe têm que – permitam-me reportar aos velhos companheiros de narração esportiva pelo rádio - “colocar o pé na forma”, ou seja, treinar mais o fundamento de chute a gol.
Exatamente isso não fizeram Peñarol e Santos, no Estádio Centenário, na primeira partida decisiva da Libertadores. Não colocaram o pé na forma, chutaram mal e o empate de 0 a 0 teve cheiro leve de bom resultado para os brasileiros e de péssimo para os uruguaios. Nada disso, novo empate leva a decisão à prorrogação e aos pênaltis. Quem vencer leva o caneco. Portanto, o resultado foi péssimo para os dois lados, pois deixou a decisão em aberto. Não existe aquele quesito de gol fora. Se houver empate aqui por 5 a 5, nada favorecerá ao Peñarol.
Um fundamento negativo que Neymar treinou bem foi o cai-cai. Esbarravam nele e o craque se jogava. Até o árbitro Carlos Amarilla, paraguaio bravo, dar-lhe cartão amarelo. Neymar não se assustou e manteve a postura anti-futebol da simulação. Simulou tanto que sumiu em campo. Em vez de puxar a orelha de seu pupilo no intervalo, sob o risco de vê-lo expulso, Murici Ramalho preferiu pressionar o impressionável juiz paraguaio.
O técnico reclamou e relatou o que ouviu de Neymar no vestiário: Amarilla cerceava o atleta com ameaças constantes de expulsão. Se foi isso, de verdade, ficou apenas nas ameaças pra amedrontar Neymar e fazê-lo jogar futebol, sem a pretensão de botar o juiz contra a pequena torcida santista no estádio. Melhor assim: Neymar mereceu o segundo cartão por simulação seguido do vermelho. Estaria fora da última partida, no Pacaembu.

Um comentário:

  1. Flávio, estou reparando, que tudo que o Emanuel Carneiro comenta você escreve... Ou é o contrário?

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