domingo, 12 de junho de 2011

VELHOS E BONS TEMPOS

Não sou do tempo em que se amarrava cachorro com linguiça. Passei perto.
Mas peguei bons respaldos desses tempos na educação de dona Geralda e Sodico. Este topava qualquer negócio no fio de bigode.
Nasci em 1943, perto do final da Segunda Guerra. Por isso não sofri as conseqüências funestas dela, apesar do avô descendente de italiano, Molinari. Minha mãe era Assis. Segundo ela, lá da terra de São Francisco. Não chorei a Copa de 50 a não ser nas leituras posteriores. Tinha 7 anos e o futebol não era minha prioridade, nem por brincadeira.
Em 1954, torcia pelo Flamengo e nem me lembro do bicampeonato carioca daquele ano. Só comecei a tomar gosto pelo esporte em 55, no tricampeonato, por causa de um ataque Joel, Moacir, Evaristo, Dida e Zagalo. O treinador, El Brujo Fleitas Solich, paraguaio.
Em 1958 eu não apenas acompanhava o futebol como o jogava nos colégios internos nos quais estudei e deles fui expulso.
Em 1960, escrevi pra Rádio Caratinga o comentário “Um Rei sem Coroa”, publicado em seguida no jornal semanal da cidade “O Caratinga”, escola orientada por Ziraldo, frequentada por Zélio, Ruy Castro, Ari Franco, Etieninho Filho, João Penna, sob a coordenação do saudoso professor Augusto Ferreira Neto.
Joguei no juvenil, no aspirante do EC Caratinga e no profissional do América FC, segundo clube – hoje o melhor – da santa terrinha. Um dia, o treinador americano me questionou “ ô Flávio, você tem que optar pelo Gim com soda limonada, ou pelo futebol”. Respondi: “prefiro gim”. Tinha 20 anos. Na verdade, optei pela bebida dos jornalistas de então, os famosos os quais eu acompanhava as crônicas na Papelaria Anselmo.
Ano seguinte, vim para BH onde fiz minha vida profissional.
Sou advogado aposentado pelo Estado; jornalista aposentado no INSS; escritor, por róbi, com seis livros publicados, preparando o sétimo para lançamento este mês. Plantei árvores, fiz quatro copas do mundo, tive três filhos – dois homens e uma mulher – maravilhosos. Não gostava de discutir política e religião. Agora incluo o futebol também pelo exagero das demonstrações de amor clubístico.
Curto minhas netas, meus filhos e minhas obras. Mas não me perguntem se curto, ainda, futebol e Belo Horizonte e Caratinga. A resposta será não. Curto o futebol como excelente programa de tevê; como bom material pra exercitar a mente com as minhas colunas virtuais diárias, exigência médica após melindrosa cirurgia cardíaca, acompanhada de infecção hospital que me destramelou todo.
Não curto mais Belo Horizonte e nem Caratinga por motivos iguais. Não são mais as cidades que trago na imaginação. A violenta Beagá não tem nada da pacata capital de 40 anos atrás. A pequena e bucólica Caratinga não existe mais. Vieram as universidades, a cidade sem espaço se arrebenta verticalmente, num trânsito maluco e comandada por pessoas incapazes de vê-la de outra forma, carinhosa como antes.
Só vêem os seus cofres para ser esvaziados.
Ah, o futebol! Crescemos em alta velocidade de 1965 até uns dois anos atrás.
Revelador de craques, o futebol mineiro tornou-se importador de coisas velhas, papel antes exercido pelo estado do Paraná. Os medalhões cansados da Europa tinham Beagá no roteiro e eram agasalhados pelos torcedores. Os meninos que surgiam aqui, ao contrário, não tinham o mesmo apoio. Para os medalhões, aplausos. Aos meninos, vaias e desconfiança.
A política envolveu-se no futebol e jogaram nossos dois estádios no chão em nome de uma sub-sede da Copa do Mundo de 2014.
As disputas regionais que se danem! Atlético, Cruzeiro e América prepararam-se, contrataram, mas os políticos mandaram que fossem jogar no maquiado Estádio Arena do Jacaré. De bom, só o carinho e atenção do excelente povo de Sete Lagoas. Porém, o estádio só tem capacidade para 18 mil pessoas. As receitas dos dois maiores clubes de Minas caíram assustadoramente. Acumularam prejuízos e agora vão apresentar as contas aos governos municipal e estadual. Com certeza receberão, mas quem pagará somos nós, contribuintes.
Não há mais o respeito ao profissional de imprensa. Cerceam o seu trabalho, codificam as suas matérias, repetem as torturas das censuras fascistas da ditadura militar. Atletas, cartolas e torcedores acusam-nos de todos os males de seus próprios pecados. São agressivos contra meras opiniões que jamais mudarão o histórico de uma partida.
Não se trata de maioria. São pequenos grupos de falsas estrelas, medalhões importados. Na torcida, com o advento de outros veículos de comunicação, as torcidas organizada não souberam, mais uma vez, explorar sua força em favor do Bem. Marcam encontro de gangues violentas para brigas nos becos escuros, que, normalmente, terminam com vítimas fatais. Outros, mal-educados atacam pelo twitter, blog e emails.
No meu caso, não deixo de responder nenhum deles. Mas isso não me faz feliz. Só fico feliz ao preparar um dos meus livros, ao fazer seu lançamento aqui, em Caratinga, Brasília, Goiânia, Montes Claros, como aconteceu várias vezes.
As agressões chulas, discriminatórias, algumas vezes passando de pai pra filho, demonstram que o futebol, lamentavelmente, cresceu apenas no gramado e em seu entorno. Profissionalizou-se. Criou novos corruptos, desonestos, que somem com o dinheiro do clube que dirigem, ficam mais ricos ou se enriquecem. Os que tiveram berço são exceções. Infelizmente, os saudosos Felício Brandi, Furletti, Benito Masci não deixaram como sucessor alguém de sua linhagem, como fez o não menos saudoso e meu amigo Elias Kalil.
Sempre gostei de parábolas.
Sigam essa de minha autoria: “o que engorda o boi é o olho do dono, dizem. Também é verdade que o que engorda o dono é o olho do boi. Senão vejamos: não fosse o olho bom e atento do boi, às vezes chamado de sonso, nas rotundas mamas e no caminhar elegante da Senhora Vaca, quando ela está naqueles dias, seria possível engordar o rebanho do dono com reses premiadas em exposição? Embaixo do olho seletivo do boi está aquele narigão frio que o permite uma cheirada fatal antes da cobertura. Nunca sem antes o boi botar o olho, repito na Senhora Vaca (Vaca, porém honesta, como diria o saudoso Stanislaw Ponte Preta/Sérgio Porto).
Por isso já tentei jogar a toalha e ir plantar pinho no Paraná ou vender banana prata no Mercado Modelo da Bahia. Não deixaram. Sabem que tenho olho gordo. De boi bravo. Alegam que não sou comerciante, sei mesmo é escrever contos de ficção e falar de futebol. Azucrinar a vida alheia, posto que sou o último dos polêmicos vivos, sem rabo prezo com o sistema. Bobagem. Acusam-me de atleticano e de estar na folha de Alexandre Kalil porque sou amigo dele. E aqueles que bem me conhecem sabem que torço pelo Cruzeiro, desde quando aqui cheguei; que viajei o mundo afora com o time campeão brasileiro em 1976. Fui até o Japão.
Se a chama diminuiu é porque o desaforo, a arrogância e a prepotência nunca são blindadas para aqueles que saíram do nada, atropelaram meio mundo e passaram a julgar-se donos até do ar que respiramos.
Eu fiz aí rápido histórico de meus 50 anos de jornalismo. Não sou melhor do que ninguém, todavia não me considero inferior a ninguém. Cheguei ao alto da carreira por um único motivo: SOU BOM PACAS NO QUE FAÇO.

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