quarta-feira, 24 de agosto de 2011

DESABAFO DE UM ATLETICANO PRA LÁ DE DOENTE

VOU FUGIR À REGRA QUE estabeleci para o meu blog de publicar mensagens longas demais. Porém, por tratar-se de meu primo, jornalista Iraq Rodrigues, que multiplica a Trincheira no seu blog particular e no site da familia Pontes de Assis, abro exceção. Escreva então Iraq Rodrigues "do Menino Jésus:

"A coisa tá feia demais da conta. Não é "apenas a ausência de títulos importantes", o que estamos presenciando é a morte lenta e silenciosa de um dos últimos bastiões da paixão incondicional por um clube de futebol. É uma pena, mas o que era pra ser o nosso ideal - vencer, vencer, vencer - passou a ser o sentido mesmo de tudo, a qualquer preço. A qualquer preço! Desta forma, ganhar um brasileiro ou uma libertadores virou a única saída, a única forma de recuperar esse sentimento de pertencimento, de amor incondicional e de orgulho. Houve uma época em que se tinha valores mais elevados como referência, mas esse tempo passou. Acabou. Misericórdia...
Ao invés de preservarmos, valorizarmos e usarmos a Força que tem o Clube Atlético Mineiro pra ganhar os títulos, agora temos que ganhar um título pra fortalecermos o Clube Atlético Mineiro? Então é isso?
Se sim, então... inverteu-se a lógica, o sentido, os valores. Viramos um clube qualquer.
Porque qualquer clube vive de títulos. Esta é a regra. A exceção são os clubes que vivem de coisas maiores, de coisas raras e só produzidas de dentro pra fora - como paixão incondicional, auto-estima, identidade, a importância medida em amizade... Entretanto, é óbvio que as vitórias do time-que-representa-em-campo-um-clube tem que vir, os troféus tem que vir. É essa busca, esse tesão pela vitória, que move o esporte. Mas é só isso: o troféu é um alimento, um combustível, aquilo que tira da inércia esse gigante de listras alvinegras que tem em sua história o que de mais honroso pode ter uma instituição esportiva: é filha da amizade. Nascido num espaço público, o Clube Atlético Mineiro é a maior contribuição que os mineiros já deram pro mundo do esporte. Diante disso, ser atleticano vai além de ser ou não o primeiro numa dada competição - e eu já disse isso aqui, não quero ser redundante, de ficar repetindo metáforas já gastas, obsoletas, em desuso. O momento não é propício para ficar circulando em utopias.
Mas também não esperem que eu fale com o conhecimento de causa que vocês tem. Eu não sei analisar um esquema tático, não sei dizer se o treinador mexeu certo ou errado. Até mesmo porque eu não vejo treinamento do time do Galo, aliás, com exceção dos 3 anos em que participei dos campeonatos de futsal do bairro Floresta, eu nunca tive treinamento pra prática do futebol. Não estudei o esporte, não cursei Educação Física, enfim, não tenho conhecimento pra tanto. Fui peladeiro apaixonado. E encerrei precocemente minha carreira de peladeiro por acertar uma cabeçada numa trave e chegar à conclusão que não sei mesmo jogar bola.
Enfim... voltando ao Galo...
Quando assisto a um jogo como o de ontem, fico fulo da vida. Não porque o time do Galo perdeu mais uma, ou porque fomos mais uma vez desclassificados dessa merda de Sulamericana. Que se danem as sulamericanas, panamericanas e demais competições americanas, mundiais ou intergaláticas. Independentemente se for campeonato ou copa, a única coisa pra que servem é colocar o meu Galo pra jogar - e ponto final. Pra mim, é simples assim. Mesmo.
Entretanto, por outro lado, porém...
Se é pra jogar, então é pra vencer. Eu fico possesso quando vejo essa indiferença com que estão tratando essa instituição tradicional e ímpar, esse orgulho do esporte nacional. Não entendo essa falta de sangue nos olhos que caracteriza essa turma que está vestindo o santo sudário alvinegro... o juiz comete um erro crucial daqueles e ninguém, nem que seja pra botar uma pressão, põe o dedo no nariz dele? É só um tal de conversa pra cá, pose pras câmeras de TV, reclamações contidas... Nenhum quebra-pau, nenhum cartão por reclamação exagerada, nenhuma expulsão por indisciplina! Que merda é essa? Perder, a derrota faz parte. Mas aceitá-la não! E não é pra ficar dizendo que falta um "algo mais", que "nós merecíamos melhor sorte" ou que o juiz do jogo influenciou no resultado. E muito menos pra ficar trocando camisas e amabilidades depois do jogo, numa anemia desgraçada. Foda-se o fair play, foda-se o espírito de competição, eu quero ver é sangue! Pro inferno com esse profissionalismo-azul-calcinha que tomou conta do futebol profissional (do profissional, que fique bem claro) do meu clube.
O Clube Atlético Mineiro é uma teocracia presidencialista. Não tem vocação pra monarquia plutocrática nem pra clube-empresa. A não ser que eu seja um delirão, um imbecil completo, estamos perdidos e sem-pai-nem-mãe nesse mundo do futebol-fetiche justamente porque internalizamos esses modelos da bem-aventurança alheia. Pra mim, isso é de uma clareza solar. Fizemos tudo certinho, igualzinho, idêntico, tal e qual determinado na Cartilha do Sucesso Calabrês, mas não funcionou - e estava escrito na tábua de Moisés que não funcionaria. Eu só não vi porque, reconheço, fraquejei na minha fé. Acreditei no Bezerro de Ouro.
E não funcionou também porque futebol não é receita de bolo. O melhor "projeto" que existe tende a fracassar se for implantado a fórceps, como se fosse uma prótese de silicone em forma de troféu. O Clube Atlético Mineiro tem suas particularidades, suas especificidades, sua tradição e identidade própria. Não serve pra nós o modelo carioca, por exemplo. Lá, os clubes devem mais que nós, não tem a estrutura e nem dão as condições de trabalho que damos, nem estão num patamar de qualidade técnica acima do nosso. Alguns, como Botafogo e Vasco, a meu ver, estão num patamar abaixo. Mas o Fluzão é campeão brasileiro, o Bonde do Mengão é o anterior, o Vascão é o atual campeão da Copa do Brasil. Por que? Porque lutam com as armas deles, aproveitam ao máximo o fato de estarem no Rio, de pertencerem ao Eixo. Os clubes paulistas, mesmo os do interior, tiram proveito do fato de pertencerem ao estado mais populoso e mais rico da federação, com os maiores mercados publicitários da América do Sul. O que é aquele uniforme do Corinthians, minha gente? Parece abadá de micareta, parece uniforme de time do interior do Mato Grosso, financiado por alguma irmandade de empresários e políticos da cidade, de tão poluído! Mas, o que importa isso? Nada. O que importa é que eles estão na liderança do campeonato, só isso.
Existem bons exemplos pra nós, dentro e fora do Brasil, como Barcelona e Internacional de Porto Alegre. Exemplos que passam pela valorização do clube, de sua gente, de sua memória. É plantar nossa própria colheita. Os jogadores formados nesses clubes tem algo que nenhum outro possui, mesmo que tecnicamente inferiores aos "importados": orgulho. Tem a raça, a genética. Mais ainda: eles acreditam, tem fé. Porque sem fé é impossível acreditar na vitória sobre o improvável. Notem quantos jogadores saíram das divisões de base do Barcelona e que estão no atual time deles. Começando por Pato e chegando em Damião, quantos jogadores revelou pro mundo o Inter? E não preciso ficar chovendo no molhado, citando pra vocês os frutos colhidos desse plantio...
Peço, mais uma vez, que me perdoem o longo desabafo. Mas é porque quem tem leitores como nós aqui do grupo temos, é impossível resistir, segurar essa torrente de pensamentos e sentimentos que assolam um atleticano - principalmente, e infelizmente, em tempos difíceis como estes.
Um abraço. E dá-lhe Galo, carajo".

3 comentários:

  1. Flavio,

    Continuo batendo na mesma tecla.

    Para fazer o que o Cuca, sem tempo pra treinar... com os mesmos jogadores e todas as outras desculpas, melhor seria ter mantido o Dorival. Seis por meia dúzia? Para fazer o milagre que o Cuca tem que fazer já sabemos que o Dorival é capaz pois fez no ano passado. Talvez o Dorival não tivesse colocado o Patrick de lado, nem feito novas contratações... Mas na verdade, o que falta no time do Atlético não tem técnico no mundo que mude. Todo mundo andando em campo. Ninguém divide uma bola (menos o Pierre e o Lima).

    Acho que o Cuca não conhece o time o bastante e ainda está tentando tatear. Ok.

    Guilherme talvez não tenha lugar no banco com a bolinha que está jogando. Pode ser um bom companheiro para o Mancini.

    Sem treinar o Triguinho sobra na esquerda em relação ao Richarlyson.

    Daniel Carvalho não anda em campo? Não marca? Mas em um segundo de lucidez coloca o Andre na cara do gol.

    E o Andre não amarela.

    Minha opinião:

    No gol, tanto faz.

    Na zaga, deixa como está ou muda se quiser.

    As laterais, Triguinho e Serginho.

    No meio-campo Richarlyson, Pierre, Daniel Carvalho.

    Na frente Magno Alves e Andre.

    Talvez eu esteja errado, mas não ganho nada para escalar o time, e a bem da verdade, técnico se acertar tem emprego garantido, se errar recebe a rescisão.

    Quer melhor que isto?

    Leonardo

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  2. Flávio,

    É muito bom voltar a receber a sua coluna, prazer de quem gosta do talento tanto no futebol, quanto nas letras e nas palavras. Isso sem contar a "brasilidade" dos textos e o poder de nos trazer para dentro das histórias, como se elas fossem nossas mesmo.
    Obrigado por motivar ainda mais nossas manhãs com o seu talento e conhecimento.
    PS.: O homem da Copa do Mundo - e também da Copa das Confederações 2013 -, em Belo Horizonte, Tiago Lacerda (presidente do Comitê executivo Municiapal), também está recebendo a sua coluna, que repasso para ele, todos os dias.

    Do amigo e admirador de sempre,

    Rogério Bertho
    Assessor de Comunicação Social
    Comitê Executivo Municipal
    Copa do Mundo Fifa Brasil 2014

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  3. Esse texto não é do Iraq não...

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