terça-feira, 30 de outubro de 2012

ENTRE A TERRA E O CÉU POR DOIS INSTANTES



Foi, realmente, um final de semana diferente. Estive entre a terra e o céu, em busca de respostas aos paradoxos da vida. Em Caratinga, participei das comemorações dos 80 anos de Ziraldo, filho mais ilustre da cidade. Fui orador oficial das homenagens. A minha memória e meu coração preparavam-se pra criar uma Trincheira inesquecível sobre a data histórica.

À noite, torpedo da amiga Nina de Abreu trouxe o outro lado da vida: aos 43 anos, o jovem Paulo Afonso, sagaz jornalista esportivo, meu amigo e colega de bancada no Jogada de Classe da TV Horizonte, encerrava homérica batalha contra o câncer. Decidiu descansar de vez.

Saí do chão da terra onde nasci, na mesma rua do Ziraldo, a ex-Rua das Flores, e subi aos céus, pelo caminho aberto pelo amigo Paulinho Afonso.

Como pode me perguntei, o quintal da gente ficar em festa, cheios de luzes, papéis picados, desfile escolar, nos 80 anos merecidos do genial artista do mundo?

Enquanto a gente, também, chora a morte do jovem, também talentoso, de ótimo texto, jornalista porreta, promessa de cartunista, boas caricaturas e charges hilárias? Moço de comentários rápidos e mordazes?

Vivi em dois dias, a paradoxalidade da vida e da morte. Da vida efervescente do "jovem" de 80 anos, cheio de planos – uns secretos, revelados pelo irmão Zélio – de ser, ainda, prefeito de Caratinga, sua terra natal.

Da morte, que leva ao descanso, mas silenciou voz e texto impecáveis, inteligência louvável, e sonhos longos, interrompidos na doença amaldiçoada.

A partir daquele instante, eu me colocava no dilema: escrevia sobre a festa do conterrâneo mais ilustre, que o Brasil aplaude e as crianças amam. Que eu quero chamar de "Mestre", com o mesmo respeito que a cultura tupiniquim lhe rende, diariamente.

Eu, súdito e tiete, cultuo a diferença de 11 anos entre nós, filhos da mesma cidade, da mesma rua, e que, agora, até nos chamamos de "primos"?

Ou escreveria a Trincheira do futebol, como faço todo início da semana, talvez mais irritada que o normal por ser outro domingo sem futebol, considerado, por isso, enorme traição ao cronista esportivo Paulo Afonso?

Pode até que pela falta de futebol nesse domingo, Paulinho tenha decidido retaliar tal vazio, subiu mais cedo pro andar de cima num dos seus dias preferidos, o domingo. Mas sem futebol, é como qualquer outro dia!

Paulinho me chamava de "Mestre". Vejam só a ousadia do destino! Tirou-me a convivência importante do menino, 16 anos mais novo do que eu. Do qual eu recebia tratamento informal, carinhoso e indevido de "Mestre".

Indevido por estar na contramão. Sempre o tive como mestre nos socorros que seus conhecimentos prestavam à minha memória travada.

Egoisticamente pedi a São Judas que intercedesse junto ao Pai, e deixasse Paulo Afonso viver mais, mesmo cheio de dores, corpo reduzido, disforme. Que importava se a alma crescia. Além do que eu teria ainda, mais, muito mais, a aprender na sua inteligência e humildade.

Porém, exatamente no dia do meu santinho protetor, do aniversário da minha netinha primogênita, Vitória, e do meu "mestre" Ziraldo, Deus convocou Paulo Afonso pra viver entre as estrelas.

Então louvei os 80 do meu Mestre, na saudação de dois minutos, exigida pela organização, senão eu falaria duas horas.

Num domingo sem futebol como queria Ziraldo, a fim de que maior número possível de conterrâneos, amigos, familiares, não fosse impedido de assistir ao desfile das escolas de sua Caratinga e de cidades vizinhas.

Vi no chão da minha terra a multidão de 15 mil pessoas nos eventos bolados pela escritora caratinguense Marilene Godinho, pela irrequieta Analzira Ligeiro – tal qual sua mãe, saudosa Emi Batista – mais o jornalista Humberto Luiz, além de notável equipe de apoio.

Na segunda-feira, voltei pra Belo Horizonte a tempo de acompanhar o sepultamento do menino Paulo Afonso. Vários jornalistas e amigos o saudaram. Também o fiz. A cabeça embolada sem entender nada.

Não seria melhor comemorar naquele domingo sem futebol, dia 28 de outubro, os 43 anos de Paulinho Afonso? De sua vitória contra a doença e de uma arrancada pra fundar a genialidade no quintal que lhe conviesse? Como fez a genialidade do artista em plena forma aos 80 anos e do rapaz, pleno de esperanças e de sonhos no Brasil, aos 43?

Não é o que dizem: a cada dia renascem aqueles que a obra imortaliza?

 

O momento social da festa em Caratinga. No palanque, a Turma do Pererê – imortal criação de Ziraldo- revividas nas personagens vivas, como Pedro Tatu Vieira, Alan Viggiano, Galileu, Geraldinho (o coelho, irmão e caçula da Turma e da família Alves Pinto).

Os irmãos de Ziraldo: o internacional e premiado Zélio, autor da capa do meu livro "Caraúna" – Ziralzi, Santinha e Lelena, além de cunhados, primos e outros familiares. A jornalista Miriam Leitão e seu irmão Cláudio, diretor-proprietário do grupo Doctum e de importantes faculdades da organização.

Também, a minha eterna professora, Miriam Mangelli, e seu companheiro Gerson, e a promotora Marlene Fernandes, viúva do amigo desembargador Salatiel Fernandes, outro que subiu fora da hora; os escritores Antônio Almeida Castor, - irmão de Marlene - o Toninho Castor, e Maria do Carmo Arreguy, mãe dos meus ídolos Cássio e Cláudio, jornalistas linha de frente na crônica esportiva mineira.  É o que a minha curta memória conseguiu guardar.

 

Porém, outro momento, rápido e genial, foi quando Agnaldo Timóteo apareceu em pé num velho Aero Willys, fazendo à capela seu enorme sucesso: "Quando à minha terra eu voltar, quero encontrar as mesmas coisas que deixei. Quando o trem parar na estação, lá, lá, lá, lá,....". Emocionado, Ziraldo tentou esconder que chorava.

De lado, fiquei mais preocupado com o infatigável coração que suportou os dois dias de homenagens seguidas, as dezenas de pedidos de fotos dos pais colocando os filhos no colo do artista, onde minha neta Luana, cheia de autoridade e julgando-se dona do pedaço, abraçava Ziraldo e sorria pra qualquer máquina. 

Tenho mil desculpas a pedir ao Toninho Castor por não reconhecê-lo no primeiro momento, culpa desta memória ruim que me sobrou após a chegada das safenas e mamárias. E a dona Maria do Carmo Arreguy, por não ter adquirido seu livro, tudo por causa da confusão de gente e livros na casa da Cultura Ziraldo. Peguei todos os livros a ser autografados e me esqueci da matriarca dos Arreguy. Cássio prometeu que livraria minha barra. Espero. 



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