sábado, 20 de abril de 2013

REENCONTRO COM O PASSADO DE OUTRO DIA MESMO


CARATINGA – enfrentar problemas de coluna é um dos meus maiores problemas atualmente. Como dói a danada! Abdiquei há tempos das caminhadas profissionais em troca da hidroterapia sob a orientação da agora madame Harícia Ribeiro. Como em Caratinga não existe Harícia e nem a Academia Êxito tento contornar o problema da falta de atividade, de alongamentos, com caminhadas lentas, em meras observações, matando saudade de quando Caratinga era uma cidade saudável, ambiente limpo, gente conhecida e sem pressa.
Matar saudade dos meus tempos e do meu quintal. Da minha gente e das visões dos amigos ainda vivos e dos que se mudaram pro andar de cima.
Passo pelo imóvel 241 da Rua Raul Soares – ex-Rua das Flores – e nem vejo o prédio construído no lugar da minha saudosa casa, de imenso terreiro, frutos à vontade, a tropa obediente do meu Pai, Sodico. Ao estalo do chicote de seo Palmiro virava o rosto pro muro.
Nem vejo o grande portão de duas bandas, apenas encostadas de dia e vigiadas por Duque, deitado no fundo do terreiro, cabeça sobre as patas dianteiras. Ao menor ruído, suas orelhas e pelos eriçavam. Os olhos mantinham-se fechados de araque. Tentassem entrar no terreiro sob o domínio de seu faro. Duque rosnava com recado pronto.
À frente da minha "mansão" enorme ficava a casa do Zé Quincas, subindo a rua, do mesmo lado, a Padaria Sol Nascente do Antônio Schettino; mais à esquerda a família Cossich, em cujo quintal, apesar de menor que o lá de casa, a gente ferrava disputadas peladas.
 E via a bela Maria se divertindo na janela com a falta de jeito dos irmãos. Mais à direita a fábrica de prego e a casa de Omar Coutinho, ex-interventor na cidade.
Do nosso lado, à esquerda a fábrica de ferradura, de onde eu tirava os "chumbinhos", perigosa munição pra minha atiradeira e meu estômago. Às vezes, engolia alguns, no entusiasmo de acertar a caça, pobres rolinhas.
À direita, a pensão da Vina, na prática concorrente à nossa. Porém, vizinhos agradáveis, apesar de eu não entender como tanta gente da mesma família vivia numa só casa. E aí vou na caminhada lenta, na moleza e na falta de pressa dos meus passos. Só o passado me interessa nesta hora.
Ah, este 241 da ex-rua das Flores! Que saudade me dá. Imediatamente a Saudosa Maloca , música de Adorinan Barbosa, sucesso eterno dos "Demônios da Garoa",  vem à minha lembrança: "Se o senhor não tá lembrado, dá licença de contar; que aqui donde agora está esse edifício arto, era uma casa véa, um palacete assobradado".
Sorri triste. Lembranças cortam como faca afiada
Virei-me como que atendendo um chamado. Não era ninguém. De novo a lembrança. Às minhas costas estava uma loja de negócios. Ali fora o botequim. Não me lembro o nome do dono, apesar de constar das minhas lembranças já modernas. Eu estava casado e fora a Caratinga visitar minha mãe, ainda forte e matrona.

BRAHMAS DEMAIS

Meu sobrinho Lincoln e eu resolvemos tomar umas antes do almoço; o boteco tinha cerveja estupidamente gelada, cachaça da boa e um torresmo divino. Lembrei, também, de Papai numa cadeira na porta de casa, colocada pra ele tomar sol, já numa fase crítica. De lá namorava os torresmos. Sem dó nem piedade, Mamãe havia conseguido a promessa do vendeiro de não negociar por preço algum qualquer naco do torresmo. Maldade, pensei!
Como, maldade coisa nenhuma! Minha mãe apenas zelava pela decadente saúde de Papai. Ele adorava torresmo, mas não podia comer. Quando eu estava por lá, abertamente, pra não desrespeitar minha Mãe, comprava um dos menores torresmos e levava ao meu Pai. Sem dentes, ele chupava e saboreava o torresmo, enquanto Dona Geralda me puxava as orelhas:
"É um pedacinho à toa, Mãe. O estrago que tinha de ser feito pela carne gorda de porco já foi feito. Agora, Papai precisa de consolo, de prazer".  
Mas dizia que Lincoln e eu resolvemos tomar algumas. Meu pai era já nessa época dolorosa lembrança. Feito passarinho passara ao andar de cima.
À porta do casarão, minha Mãe reclamava nossa presença. Já eram 11h30m e o almoço estava à mesa. Costume diferente da capital, onde almoçamos, aos sábados, bem mais tarde. A gente respondia que já, já, estaria lá.
No entanto, pedia outra.  Fome não tínhamos; empanturrados do torresmo supimpa. Numa das vezes, de paciência esgotada, dona Geralda sacudiu o braço direito, fraturado numa queda de cavalo, quando mocinha, e engessado torto, com certeza por algum farmacêutico amigo. Chegou até à beira da calçada e zangou-se:
" Vocês não sabem tomar uma ou duas cervejas, querem logo tomar quatro ou cinco".
Rimos e olhamos por baixo da mesa, onde o engradado de controle das brahmas sorvidas estava completo. Duas dúzias? Talvez. O Lincoln tinha uma sede incrível.

ÓRFÃO DE AMOR PATERNO

Parece que foi outro dia mesmo que cheguei apressado de Beagá. Foi num nebuloso dia de fevereiro, que não me recordei qual, nesse instante. Sei que entrei correndo pelo imenso corredor da minha casa, sem cumprimentar ninguém da multidão postada no passeio e casa adentro.
Nem respondi nenhum cumprimento. Queria ver e abraçar meu pai. Cá da terceira sala, onde a família se reunia nos almoços e jantares, vi seus pés juntos no quarto do casal.
Não vi minha Mãe. Estava sentada na poltrona ao lado de cama, consolada no inconsolável e chorava. Meu irmão Neném, hoje também falecido, abraçou-me aos prantos. De todos os irmãos, ele era o que convivia mais com meu pai, seu sócio na Papelaria Anselmo.
Me deram um comprimido, qualquer calmante. Tomei sem contestar. E respondendo ao abraço apertado de Neném, também chorei muito. Como chorei disfarçadamente no exato instante em que parei defronte ao número 241; me lembrei que, no dia 21 de cada abril, a gente se reunia ali pra agradecer o pai que tivemos a alegria de ter. Comemorar seu aniversário.
E com apenas 76 anos, nos deixou órfãos de um amor infinito;  de uma entrega inusitada, desigual. Eu não me dava a ele, o tanto que ele se entregava a mim, caçula da família. Pedi à vida que me desse meu pai de presente, de volta, no aniversário dos meus 70 anos em outubro.

VIDA NA REAL

Caí então na real; isso é impossível e me contentei em continuar como estou:  sem meu Sodico, meu Pai , que me tirou das mil encrencas que eu me metia por metro quadrado na Caratinga de meus 17 pra 20 anos.
Do mesmo jeito que já havia desistido da minha fieira de rãs, cuidadosamente escolhidas por ele ao saber que eu estava por chegar. "Gerarda, Flavio Gerardo tá chegando..."  afirmava, como se minha saudosa mãezinha ignorasse tal evento.
Vinha aquele abraço desconfiado como os pais manifestavam seu amor, antigamente. E que a gente entendia: homens não se beijam e nem se abraçam fortes, ainda que sejam pai e filho. Primeiro artigo do machismo estúpido, que graças a Deus caiu pra que eu pudesse abraçar e beijar meus filhos homens com todo amor deste planeta.
E vinha, também, a irrevogável pergunta que até esses dias, Fábio e eu nos perguntamos ao saber que um de nós está em Caratinga. "Você passou por cima ou por baixo", como queria saber Sodico ao se referir se a gente havia usado a estrada de Ponte Nova ou a de Ipatinga. Qual era por cima e qual era por baixo, ainda não sabemos...
 Doeu demais. Não suportei e preferi continuar na caminhada da minha depressão, arrastando os pés pesados e a conter as  lágrimas que cismaram de cair, mesmo  envergonhadas da rua cheia de estranhos.

PORTAS ABERTAS E FECHADAS

Que nada, no meio de tantas emoções, lembrei-me que Deus fecha uma porta e abre outra. Minha primeira neta, Vitória, nasceu dia 28 de outubro, dedicado a São Judas Tadeu, meu santinho padroeiro sob guarda que dona Geralda colocou o caçula.
E que, também, Luaninha, minha segunda princesa, nascida quase à meia-noite do dia 20 de abril. Alguns minutos a mais, seria "xará de aniversário- como diria meu irmão mais velho, Zito, também no andar de cima -  do seu bisavô Sodico".
Quis o destino que fosse assim. Felicidade dia 20 e saudade dia 21. Do que vale a vida sem essas emoções. E fui andando, caminhada pela ex-rua das Flores, carregado saudades. Dos meus pais, dos meus irmãos, da Caratinga bucólica dos bons tempos. Naqueles que Ziraldo e Zélio desenhavam os passeios da ex-rua das Flores.
Tempos em que Marripe tocava violão num serrote, Stael Abelha ganhava o concurso de Miss Brasil, que o anão Meio Quilo, de Vargem Alegre, fazia sucesso no Brasil com o palhaço Carequinha, e era figura reclamada sempre na televisão. Em que Aguinaldo Timóteo ainda não era o maior cantor do Brasil e apenas imitava Cauby Peixoto e cantava nas casas paroquiais dos bairros distantes, com a banda feminina da Mércia Matos, a fim de levantar grana pros velhinhos do patronato do Monsenhor Rocha.
Em que Dênio Moreira e Hamilton Macedo transmitiam jogos na ZYS6 do EC Caratinga do Galofante, Caturé, Nico, Imbé, Pedroca, Zé Quiper, e em que Zé Paggy fundava o América e agitava a política local, como um líder jovem e corajoso. Que Ruy Castro escrevia sobre cinema no "O Caratinga" do Augusto Ferreira. Lá, também, estávamos Etienninho, Ary Franco, João Penna, e este locutor que vos fala. Tempos imemoriáveis. Se me esqueci de alguém, me perdoem. Minha memória já não é tão boa assim como pensam.

DIA DA DODORA

Às terças-feiras de agora, alertado pelo desconforto de ver uma foto dos irmãos histórica repetida em diversas ocasiões, na sequência de idade, esvaindo-se de figuras, passei a lanchar com minha irmã, Dodora, 83, na Savassi. Ela conseguiu o máximo: ser igual ao meu Pai e ter o gênio marcante de minha Mãe.
Então vem Fábio Paceli , irmão e amigo quatro anos mais velhos que eu, via  interurbano, lamentoso pela distância entre Brasília e BH e de não poder participar, igualmente, desta reunião. Paulo Anselmo, filho do Zito, mais Lincoln e Raymundo, da Dodora, estão pertos. Participam.  Mostram que a família chora seus mortos sem se descuidar do presente e da mulherada que não para de chegar.
De minha parte, agora são seis netas: Vitorinha, Luaninha, Ana Flavia, Sophia, Maria Teresa e Stela. Choro o passado, mas meu presente é maravilhoso, apesar dos pesares. Me perdoem desviar o assunto da Trincheira de futebol. Só porque hoje é sábado!


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Escolha a melhor forma de se identificar em Comentar como: Depois pitaque à vontade.