segunda-feira, 3 de novembro de 2014

O MISSIONÁRIO FOI EMBORA MAIS CEDO.


Meu querido Serginho,

Recebi a notícia da sua morte na madrugada de domingo pra segunda-feira, através de uma mensagem de minha filha Juliana. Triste demais. Parecia que ela soluçava na mensagem escrita, porque é uma criatura, também, meiga. Lembra-se, Serginho, que foi por meio dela que eu o conheci. Ou seja, sua fama o precedeu, porque Ju falou tão bem de sua pessoa que não havia como deixar de gostar de você, mesmo não o conhecendo.
Posso ter realizado pouca coisa nos meus 53 anos de imprensa, somando meu aprendizado em Caratinga, nos jornais do professor Augusto Ferreira Neto - O Caratinga/O Juízo - este sim um mestre na arte de ensinar a vida, dificuldades dela e os prazeres que lhe traz o rótulo de jornalista prático. Não existia faculdades de jornalismo naquela época.
Pois bem, posso ter realizado pouco, mas aqui em Belo Horizonte tenho fama de descobridor de talentos, como se talento fosse capaz de ser descoberto. É nato. Vem junto com a alma. Meu trabalho foi dar chance, abrir caminhos pros garotos das faculdades, formados e ávidos pra fazerem um jornalismo transformador; eu lhes dei a primeira chance nas várias rádios, jornais e revistas e programas de televisão que comandei. Ensinei-lhes nos primeiros passos, fora do mundo acadêmico de onde saíram e que a coisa não era só "quando, como, onde e porque". Mostrei-lhes que o jornalista é o dono da informação que precisa ser preparada, lapidada como  diamante bruto e antes de ser entregue ao conhecimento público. Eu aprendi assim, de vários mestre, e passei pra frente.
Ensinei-lhes a linguagem do moderno, do que o povo tem falado, que a linguagem do jornalista não pode se impor à linguagem popular, mas aceitá-la, alcançá-la na sua plenitude, ou pra quem nunca foi além dos bancos da escola pública, ou praqueles que, humildemente, entraram pelas portas da frente, de uma Universidade séria, sejam elas pagas ou públicas.
Desde o primeiro dia em que fomos apresentados, na sua gentileza, respeito e cavalheirismo você sempre me tratou por Meu Mestre, e Senhor. Sempre lhe disse que nas redações, ou fora delas, o tratamento de Senhor entre jornalistas sempre foi dispensado. Fosse entre o simples repórter ou o editor-chefe. Claro que existem aqueles que a Soberba mascara e que se sentem Senhor sem nunca passarem pela sala esfumaçada, barulhenta, de uma vibrante redação. Somente sua amizade que logo ganhou meu coração empurrava-me tratamentos reservados aos mestres, o qual não pude ser pra você. Por questões de logística - você aí em Caratinga e eu aqui em Beagá - mas, principalmente, porque não tinha nada a ensinar-lhe. Você nasceu pronto. Nasceu jornalista,entrevistador, redator, produtor,apresentador, enfim tudo que a boa imprensa precisa ter. Inteligente, perspicaz, corajoso, educado, boa-pinta, respeitado, elegante, voz linda. No entanto, ao contrário de como agi, não bastaram-lhe três ou quatro anos na Imprensa da nossa terra, pra você voar em busca de horizontes altos, difíceis, descomunais e desiguais. Nada de errado nos nossos voos. Eu corri em apenas dois anos, levado por Hamilton Macedo, Dênio Moreira, Ari Franco e Augusto Ferreira Neto porque Caratinga não me prometia nada mais. Era uma pequena cidade do interior, sem faculdades, sem projetos e de anseios minimizados pelos pais preocupados, certos de que o diploma de contador e de professora valia mais que os riscos do desconhecido lá fora.

Você tinha outra missão, concedida pelo Ente Superior. Mostrar aos seus conterrâneos os caminhos da capacidade de fazer, da humildade de ser, da generosidade de haver nascido, ou de viver,  em terras maravilhosas. Eu corri atrás do sucesso, e você abraçou o sucesso dos que são os missionários da fé. Obrigado por ter sido meu amigo. Obrigado pelo carinho que me dedicou, à minha filha Juliana e seu marido Gustavo, e às minhas netinhas Luana, Sophia e Stela. Obrigado pelo respeito, pela atenção, pela simpatia do eterno sorriso. Tome conta da gente, meu Mestre, lá cima que precisamos muito. 

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