sexta-feira, 13 de maio de 2016

HISTÓRIA DO AMIGO QUE VIU MEUS PRIMEIROS PASSOS NO RÁDIO DE BEAGÁ: ROBERTO ABRAS


     Milton Neves e Roberto Abras, duas feras da imprensa esportiva nacional. 

 Sei que o Campeonato Brasileiro começa neste final de semana, com Atlético, Cruzeiro e América estreando com as esperanças de sempre e as perspectivas salutares. Entretanto, prefiro não falar sobre isso e fazer como Chico Maia fez, abrir espaço nesta Trincheira ao baluarte da imprensa esportiva bem feita, com seriedade, imparcialidade e honestidade: meu amigo Roberto Abras.Estou roubando a homenagem que o menino Chico prestou ao seu ídolo que promete aposentar no final do ano.

Roberto e eu éramos amigos do narrador Hamilton Macedo, que saiu de Caratinga, onde morava seu pai Alberto, sua irmã e irmão. E seu endereço era na Rua Raul Soares, no Hotel Anselmo, de meus pais. Hamilton foi um dos responsáveis pela minha ida pra Belo Horizonte. Fui estagiar na Rádio Itatiaia, no mesmo período de Roberto. Minha estreia aconteceu num jogo dos juvenis de Cruzeiro e Renascença, no Estádio deste último no Bairro do mesmo nome.

O narrador era Geraldo Augusto e o comentarista, Fernando Sasso, ambos já falecidos. Roberto e eu estávamos nas reportagens de campo. Faz tanto tempo que Roberto me disse outro dia que não se lembrava.

Aos 74 anos, um a mais que este filho de Caratinga, Roberto é o símbolo de repórter bem informado, dono da notícia e abençoado por Deus com virtudes altas e capacidade de ensinar ou servir de exemplo pra todos nós do mesmo ramo seu, ou praqueles que estão lá em cima, nas cabines, como comentaristas. Daqui pra frente deixo por conta de Chico e da ótima entrevista de Fernando Almeida pro "O Tempo" com o repórter Roberto Abras, um dos ícones da imprensa brasileira, sinônimo de Rádio Itatiaia. 

ROBERTO ABRAS

Profissão: radialista; nascimento: 29/3/1942 Local: Ribeirão Bonito (SP); Onde mora: Belo Horizonte, desde os 6 anos de idade

Como foi a sua formação jornalística?

Eu estou na rádio (Itatiaia) há 54 anos, e na minha época rádio não tinha curso de jornalismo. Eu morava na rua Bonfim, onde fui criado, e a rádio ficava a três quarteirões da minha casa. Eu fiz amizade com o Emanuel Carneiro, meu amigo, meu irmão, e com o Maurílio Costa. Comecei lá, fazia um plantão, zapeava alguma coisa. De repente, surgiu a oportunidade de ficar ouvindo jogos do Rio e de São Paulo nas jornadas da tarde. Eu ouvia um gol de lá e levava para o Emanuel. Nisso foi indo e tem 54 anos que eu estou lá e já fiz de tudo por lá.
Você lembra exatamente de datas?

A entrada foi logo no início de 1962. Depois, no começo de 1963, Januário Carneiro, falecido, que era o diretor-presidente, assinou a minha carteira.

Quando foi sua grande virada que te levou a ser repórter? 
Você lembra exatamente de datas?

- A entrada foi logo no início de 1962. Depois, no começo de 1963, Januário Carneiro, falecido, que era o diretor-presidente, assinou a minha carteira.
Quando foi sua grande virada que te levou a ser repórter?

A Itatiaia sempre teve esse lado de cobrir o futebol amador, essa ideia sempre partia do Januário. Em uma época, nos anos 1964, 1965, tinha um torneio de equipes de Rio e São Paulo, como seria hoje a Taça BH. Eu me recordo de que meu primeiro jogo foi Fluminense e Atlético, no Barro Preto, nesse tipo de competição. E eu comecei a falar no microfone, fui deslanchando e estou até hoje.

Você é atleticano desde pequeno
Sim, eu sou atleticano. É uma bobagem falar “não, fulano não sei para que time que torce”. Quando eu estou com o microfone na mão, eu sou completamente neutro. Tanto que já fui homenageado pelo Cruzeiro, na época do Zezé Perrella; a torcida do Cruzeiro me adora. Eu sou imparcial. Com o microfone na mão, não tem essa, entrou, entrou, foi pênalti ou não foi, foi gol ou não foi. Eu tenho um respeito muito forte pelo ouvinte e respeito muito a arma que eu tenho na mão, que é o microfone.
Quando você começou a seguir mesmo o Atlético?

Foi a partir de 1973. Quem fazia era o Luiz Carlos Alves, que era setorista do Atlético. Em 1973, eu assumi e fiquei até o ano passado. Agora, brilhantemente, está o Claudio Rezende. Eu fico participando de um jogo ou de outro, sem muito compromisso, e agora estou na contagem regressiva. Mas eu já fiz de tudo na rádio.

Você pegou o tempo que muitos dizem que foram os melhores anos do Atlético, as décadas de 70 e 80. Sempre viajou com o clube. Conte um pouco dessas viagens.

-Antigamente, o romantismo era muito importante. Hoje, você não consegue entrevistar os jogadores, porque passa por assessor de impressa, que cada atleta tem um. Antigamente não existia, a gente entrevistava jogador no vestiário. Cansei de entrevistar, entrava no vestiário, nos anos 80, no Mineirão, jogador estava na banheira. -----Terminava o jogo, você entrevistava todo mundo. O cara estava na banheira, pelado, debaixo do chuveiro, e eu lá entrevistando. Hoje tem um tal de treino secreto, assessor de imprensa que define quem vai dar entrevista.

-Eu peguei o auge, que era tudo tranquilo. E não era só no Atlético não, era na seleção brasileira também. O futebol virou comércio, empresa. A primeira cobertura que eu fiz na Itatiaia foi no América, na Alameda, onde hoje tem um supermercado. Os jogadores do América dormiam embaixo da arquibancada, tinha um hotel lá. Fiz cobertura do América entre 1964 e 1965.

Como foi após o América?

-Na rádio tinha o falecido Hamilton Macedo, era o diretor artístico. Eu gostava muito da noite, e ele falou: “Roberto, eu vou te colocar para fazer o programa ‘Varig é a dona da noite’. E eu fiz, em 1965, na inauguração do Mineirão eu estava no programa. A Varig patrocinava, era de música. E eu gostei da coisa. Fiz esse programa, fiquei por conta e não fiz esporte.
-Teve um outro programa criado pelo Emanuel Carneiro, que era o ‘Rua de Sucesso’. Cada dia ia a um bairro. Chegava lá, entrevistava o ouvinte, pedia uma música, eu saía correndo para a rádio para tocar. Fiz Tiro de Meta, às 6h da manhã. Fiz Apito, fiz de tudo. Sempre com bom gosto.
Das viagens da década de 80, tem alguma história que mais te marcou?

-Eu gostei de todas, porque era uma novidade. O Atlético fazia excursão que durava 40 dias. Eu viajava à Europa, naqueles torneios de verão, em agosto. Todo ano, durante uns sete anos, na época do presidente Elias Kalil, que o Atlético tinha Reinaldo, Luisinho, Paulo Isidoro, Cerezo, a base da seleção do Telê Santana. Uma excursão que ficou marcante, não me pergunte o ano. A delegação do Atlético saiu daqui para fazer uma excursão, que começou em Paris. O empresário era o Elias Zaccour. Ele tinha um trânsito na Europa tranquilo, ele foi o responsável pelas excursões do Galo.

-O Atlético saiu de Paris e foi para a Romênia, porque só tinha jogo depois de dez dias. Lá o Atlético, fez dois jogos quase que treinos. O Reinaldo era todo politizado. E o Galo chegou a Bucareste naquele regime violento na época. No aeroporto, os caras enchendo o saco do Reinaldo… Revista para todo lado, máquina fotográfica para todo lado, eu com o gravador. E o Atlético ficou dez dias nesse regime. Meu amigo… A comida era aquilo, meio-dia servia o almoço, e acabou essa história de lanche, essa mordomia.

-Essa excursão me marcou porque teve o Dia dos Pais. O Atlético estava em Timisoara, cidade da Romênia. E o pessoal começou a tomar um vinho. A bebida, só serviam no hotel, e não era gelada. Tinha gente querendo suicidar, quebrando televisão preto e branco. Foi uma festa. Pra sair, no outro dia, os caras do hotel foram revistar os quartos, e o Atlético teve que pagar, teve que indenizar os problemas todos.
Por qual motivo você acredita que o Atlético caiu para a Série B em 2005?

O Atlético entrou numa fase, e o Cruzeiro entrou no auge. Isso acontece demais. O Cruzeiro está em crise, o Atlético em alta, e vice-versa; você cobriu o auge novamente, com Libertadores, Copa do Brasil…

-O auge é mérito do Alexandre Kalil. Ele foi fantástico. Ele deu uma grandeza ao Atlético. Tudo começou quando investiu na Cidade do Galo. Os empresários abraçaram a ideia, principalmente o Ricardo Guimarães e o Nélio Brant. Existia o esqueleto, que era aquele terreno que foi do Elias Kalil, que o sonho dele era fazer o centro de treinamento, e o filho dele concluiu. Daí o Atlético começou a ter um lugar certinho para treinar. Depois o Atlético começou a fazer investimentos. E a grande tacada do Kalil foi Ronaldinho Gaúcho. Falem o que for de Victor, Bernard, Jô, mas a grande sensação era ele.
Qual foi o melhor jogador que você viu jogar?

-Reinaldo. Para mim, não tem como. Eu vi o princípio, o meio e o fim do Reinaldo. Foi meu parceiro, fizemos viagens fantásticas. Um cara sensacional. Amizade que dura até hoje. Gosto mesmo, admiro. Foi, para mim, o grande ídolo do Atlético.
Como foi receber a homenagem na Cidade do Galo?

-Partiu do Alexandre Kalil, na época em que ele era diretor. Eu sou muito tímido para essas coisas, até relutei em alguns momentos. Mas hoje eu fico feliz da vida em ter aquela sala com meu nome.
Fale um pouco do momento em que você deixa de ser setorista.

A idade já estava meio avançada, né?! Eu sofri um acidente (de trânsito), que por sinal fez um ano no dia 29 de abril. Operei, fiquei numa recuperação de quatro, cinco meses. A rádio passa por uma transformação e, como o Reinaldo que eu falei há pouco, o profissional também tem princípio, meio e fim.
Está chegando a época e está aparecendo a safra jovem. O Claudio Rezende tem uma qualidade sensacional, na Rádio Globo eu já admirava o serviço dele. Tive o acidente e fiquei sem viajar; com os problemas, o Claudio assumiu. Está bem entregue. Eu participo da Turma do Bate-Bola com o Emanuel, dou um palpite aqui, outro ali. No fim do ano, dou um abraço e agradeço a todos que me aguentaram esse tempo todo


TRINCHEIRA - Todos nós somos gratos a Roberto Abras, uma simpatia em pessoa pros amigos. Passa a viver uma nova vida, como eu vivo, já aposentado. Citou bem o jovem Cláudio Rezende com quem tive o prazer de sentar na mesma bancada dele, na TV Horizonte, no programa de Orlando Augusto. 

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