sexta-feira, 12 de agosto de 2016

QUE FUTEBOL QUE NADA, NESTE DOMINGO O DIA É DOS PAIS E QUERO PASSÁ-LO JUNTO DO MEU SAUDOSO SODICO, AGASALHADO EM SEU BONDOSO ESPÍRITO

Não quero nem saber de futebol ao vivo pela televisão neste domingo, ainda que os promotores resolvam homenagear todos os pais - vivos ou mortos.

Não direi que há anos, desde 1976 quando o vi estirado na cama do casal querido - dele e dona Geralda, minha adorável mãezinha - no quarto à esquerda do fundo da sala, na rua Raul Soares, 241, em Caratinga. Seus pés já estavam amarrados e ele, com certeza, me esperou chegar de BH, com minha irmã Dodora para morrer. O desespero na sala de jantar era total e meu mano Neném veio em minha direção, chorando e me abraçou afirmando: "Perdemos nosso maior amigo e eu tive a felicidade de viver sempre com ele até o momento de sua morte; você não teve a mesma sorte".        

                  Papai na sua função de Juiz de Paz de Caratingas


Desandei a chorar, trouxeram-me um calmante que de nada valeu.

Entrei no quarto e fui para a janela que dava paro o terreiro, a caixa d'água e o pé alto de manga Ubá.Lá no alto, estava o morro da caixa d'água da cidade para onde a gente fugia e numa casca de palmeiras, escorregava morro abaixo, aos gritos. Minha Mãezinha aproximou-se e me disse: "Ele sempre me dizia que nunca se esqueceu dessa sua travessura e falava: "Gerarda, o Flávio Geraldo tá no meio daquela turma escorregando morro abaixo. Vai acabar se machucando". Previsão acertada. Dias depois, despenquei no barranco do Colégio Caratinga e fui levado ensanguentado e desmaiado pra Casa. Quase matei de susto dois.

Vi meu pai outro dia o ano passado, por volta de junho e julho. Estava no CTI do Hospital Vila da Serra há 45 dias em estado de coma, face ao acidente que tive em Inhapim, caindo da escada da Prefeitura e quebrando a cabeça. A expectativa em volta era de morre ou sobrevive com sequelas. Lembro-me então que me vi saindo do meu corpo desacordado e sedado. Passei a flutuar e cai na real: " eu estava morto e meu espírito subia para o Paraíso". Iria mesmo, ou apenas daria uma passada por lá e seria encaminhado pro purgatório?

LUGAR MAIS LINDO IMPOSSÍVEL

De repente, na minha caminhada etérea vi surgir na minha frente um muro colorido, como se fosse Arco Iris. Um enorme portão do lado esquerdo abriu-se e apareceu a sorridente imagem do Anjo Azul, Fez-me alguns sinais e recomendou-me a entrar: -Entra, entra, estamos à sua espera." Retribui-lhe os sorrisos afáveis e entrei. Nunca tinha visto lugar mais lindo, cheio de flores, cores e nuvens coloridas. Havia centenas, milhares de pessoas - ou almas? - vestidas de branco. À frente, Sodico e Dona Geralda, meus queridos pais. Papai trajava seu tradicional terno amarrotado e solto no corpo, dando a impressão de sempre que o costureiro errou nas medidas. Só que este era branco, ao contrário do cinza que sempre vestia para fazer as cerimônias de casamentos como Juiz de Paz. Minha Mamãe, não perdera a elegância, nem o gosto pelos anéis grandes e, também, pelos enormes brincos de argolas, nada menores.
Como acontecia em vida, Papai tão logo me avistou, abriu os braços e veio  em minha direção afirmando: "Gerarda, o caçulinha chegou. Flávio Gerardo veio ficar com a gente". Corri na sua direção para abraçá-lo, porém Mamãe cortou meu barato: "Não, meu filho, pode voltar. Não chegou, ainda, sua hora. Deus não chamou você, só quando chamá-lo  você virá."

Mamãe estava rodeada de minhas tias, que subiram juntas, porque era assim que andavam pelas ruas. Os maridos estavam ao lado de cada uma, exceto de Tia Lucília, minha madrinha, que não se casou. Lá estavam, também, Dilza e Mariuza, outras primas e tios.
Meus irmãos Neném, Zito, Eneu e Dacileu. Meu sogro e minha sogra, seus parentes e meu cunhado Sebastião. Corri apenas os olhos e reconheci várias outras almas minhas chegadas e amigas.
Desci e me vi entrar no meu corpo.  Minutos depois, acredito, abri os olhos e estava rodeado de pessoas desconhecidas, mas vestidas de branco. Papai não estava junto. Todavia, as batidas do meu coração melhoraram e alguém me falou ao ouvido, que Papai e Mamãe estavam no meu coração, dando corda nele.

É difícil acreditar, sei disso. Eu sofri tal discriminação ao ouvir de várias pessoas que aquilo era visão normal pelo efeito dos remédios. Não, não era não, Papai, pois eu os vi como vejo meus filhos agora. Meu Pai era como se fosse uma estátua de bronze, pintada de branco, trazendo nas mãos não as rãs que comprava para mim, em Caratinga, quando eu chegava de viagem, porém uma caixa de ouro puro onde guardava suas diversas e variadas virtudes que o tornaram um pai exemplar. Esta herança em parte eu guardei comigo, porque me considero um bom pai, também, não tanto quanto ele; das suas virtudes, mantive a honestidade, porém gostaria de ter trazido a humildade, a bondade, o eterno bom humor, suas principais virtudes.

Neste domingo Dia dos Pais, quem estiver com o seu juntinho, curta-o bastante. Você não sabe a falta que ele fará depois, quando você julgar que ele está velho, e que você não precisa dele mais. Aí é que precisará mesmo. Os que já subiram, honre-os, pois lá de cima ele o acompanha e, com certeza, sua alma sangrará se não encontrar aqui na terra, o filho, ou filha, para os quais lutou e abreviou sua vida, só pra fazê-los felizes.

Meu Pai, Sodico: minha Mãe, dona Geralda, protejam-me porque eu os amo demais.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Escolha a melhor forma de se identificar em Comentar como: Depois pitaque à vontade.