terça-feira, 30 de janeiro de 2018

LUAR DO ADEUS

LUAR DO ADEUS
Se você, descrente de tudo,
não acredita que exista outra vida
No pior momento do amor,
ou na hora da terminal despedida.
Consulte os astros, fale com Deus
Você há de crer: escurece sua visão
aumenta em seu peito, a dor
da separação, do adeus.

Me lembro quando fui embora
Acompanhou-me ao portão da rua,
naquela hora, enorme lua.
Substituía quem não quis ir comigo
na saída daquela casa assombrada,
Onde a paixão fugiu assustada
das precações, xingamentos, histeria.

Então a sua conhecida covardia
entregou-me à nova vida e nova lua.
Depois, constatei que foi a coisa melhor
que você fez nesta sua porcaria de vida:
a linda e brilhante lua dos namorados
abriu-me os braços e num doce abraço
recebeu-me como faz com abandonados.
E como lua não fala, manda recados
em códigos por sua luz, de amor impregnados.
Recebi vários deles sobre a história de minha caminhada
Códigos que nem aqueles que cintilam no pisca-pisca
do começo ou na dúvida da primeira decisão.

No portão do inferno, sob a proteção da Divina Lua
ouso dizer-te o óbvio, "meu ex-amor, eu vou partir",
tenho outro mundo a descobrir,
além de alargar teu oculto espaço,
que nas sombras vives a ocupá-lo feliz.
Tenho que ir...nossos gênios não se aceitam,
nem juntos, nem separados.
Somos dois excomungados,
orgulhosos, soberbos, mentirosos.
Que dizem num instante
que se amam e não conseguem viver um sem o outro.
Para num momento não distante
brigarmos, despejarmos palavras ofensivas
e humilhar-nos no mais profundo desencanto.

Lua Cheia dos namorados, eu vou partir, assista meu adeus.
Deixarei em paz os ouvidos de Cristo e ficarei nos seus.
Descansarei, também, o coração sofrido da Mãe Dele,
no qual já despejei milhões de mágoas e pedidos de perdão.
A Lua Cheia dos Namorados, no entanto, sabe nossa realidade:
"Somos grossas mentiras do Destino, e nos enganamos
Com tal amor ilusório de 40 anos, inventados por você".
Fomos enganados pelo Destino e enganados estamos,
Ou ressurgimos suaves e limpos destas negras cinzas,
ou sofreremos mais, o que não quero, então adeus".
Obrigado Lua dos Namorados por abrir meus olhos e minh'alma.


quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

MARIZIA, A CONDUTORA DE SONHOS

MARIZIA, CONDUTORA DE SONHOS

Não foi do jeito que ele pensava e curtia nos sonhos suaves das noites bem dormidas. No começo, ele deixava a loja onde trabalhava com seu pai e tomava o rumo de casa, para jantar, subindo a rua onde nascera e morava. Fatalmente, passaria em frente à casa dela, numa casa de janela baixa e por onde se enxergava o interior dela, a sala de visitas e a de jantar. Isso no foco mais alto do olhar, pois no primeiro via-se o quarto de Marizia. Esticando qualquer tanto o pescoço, via-se até sua cama logo abaixo da janela. Naquele horário estaria deitada, lendo algum livro de Jorge Amado, ou de Vitor Hugo.

Esta rotina ele já conhecia e ela, também, sabia dos horários dele. Tanto que tomava banho antes das 16h, exatamente para esperar que passasse e antes de qualquer outra atitude entraria no Beco dos Calças curtas, cujo início fazia esquina com a Rua das Flores. E ali, exatamente, estava a casa de Marizia. Ele não tocaria a campanhia, pois sua enérgica Mãe, sempre contrária ao assédio dos rapazes à sua linda filha, dobrara-se à simpatia do  Moço, filho de família distinta e respeitada na cidade . Quando ele abria a porta, a Mãe gritava:

"Marizia, seu amigo do café da tarde chegou, venha recebê-lo."

E ela ia como estava. Uma das formalidades que permitiam esta liberdade dele, é porque a Mãe sabia exatamente que entre os dois só havia boa amizade mesmo, há tempo. E que Marizia estava apaixonada pelo jornalista e escritor local, Etienne, também de família destacada e respeitada. Ela sabia, porém não aceitava e nem autorizava o namoro. Sua liderança era tamanha que conseguiu convencer o marido da importuna situação: queria ver a filha, um dia casada com algum médico, expoente e rico da cidade. Marizia sabia disso, porém gostava mesmo de Etienne e dos papos com o amigo visitante diário, Geraldo, também jornalista, escritor e poeta.

Aliás, ele colaborava com os encontros secretos de Marizia e Etienne. Quando ela saía à noite, justificava com um convite do Geraldo para tomar sorvete na Riviera, point da sociedade na cidade. Quando chegavam lá, Geraldo sentava-se em outra mesa e perto Marizia se alojava à espera de Etienne, já com os sorvetes pedidos. Geraldo tomava mesmo Gin. com tônica, Mal serviam o seu pedido e a mesa de lado já estava ocupada. Geraldo então passava a vigiar à rua pra avisar se a Mãe ou o Pai de Marizia aparecessem. Porém tudo terminava bem e na volta, Geraldo acompanhava os dois até o cruzamento da Praça Getúlio Vargas. Então o casal se despedia, num rápido beijo e Geraldo levava Marizia para a casa dela. Era assim três vezes por semana - terça, quinta e sábado.  Como retribuição, Marizia lia, corrigia e passava para o caderno especial dele, os poemas, as poesias e contos que escrevia. Ela os adorava, também.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

INESQUECÍVEL CARIOQUINHA DO MÉIER


Pelos meados de 1957, nas férias escolares de julho, eu estava  em Caratinga, após seis meses de internato no Ginásio de Viçosa. Na casa dos meus pais, sob o olhar conservador de Dona Geralda, minha mãe, eu contava os dias pra Festa do Vermelhense Ausente, no pequeno Vermelho Novo, distrito de Raul Soares, atualmente município  emancipado e com estrada asfaltada até o centro do lugarejo.  A festa congregava várias famílias, entre elas a minha, Pontes de Assis. Um mês de dança, banda de música, retretas dominicais, fogos, jogos e o povo irmanado nas ruas poeirentas . Garotas de todas as partes, acompanhadas dos pais, também filhos da terra.E a quantidade não decepcionava, pois a maioria era meninas inteligentes e bonitas.

E Caratinga, no Hotel da minha família, chegaram uns dias antes o Dr. Geraldo Costa Chaves, com esposa Jurema e filha Terezinha,  gatinha carioca nascida no Méier , de apenas 12 anos, dois menos que eu, nascido em 18 de outubro de 1943. De cara, com  jeitinho simpático e a ajuda da prima Leide Isabel e seus irmãos Helanio, Mariuza e Cheyla comecei namorá-la . Fomos até ao da Baile no Clube Municipal de Caratinga. Seus pais também foram conquistados por mim. Nossa casa, recebeu vários parentes do Clã Pontes de Assis  e parentes afins como era o caso do Dr. Geraldo, sobrinho de João Guimarães, casado com  Tia Mundica, irmã de minha Mãe.

Depois de alguns dias em Caratinga, esvaziamos a casa dos Anselmo e partimos pra Vermelho Novo, onde estavam reservadas várias casas para nos alojar. Fiquei junto com o pessoal do Tio João e Tia Mundica, a convite do primo Helânio . Lá estava, também, a bela carioquinha do Meyer. Nosso namoro já se transformara em paixão. Certa noite, uma turma batia papo na varanda extensa da casa, sob liderança da Leide Isabel . Na brincadeira dos mais corajosos da roda, surgiu o desafio do beijo na boca. Fui desafiado, bem como Terezinha, que estava deitada num colchonete, enrolada com Cheyla.

Eu me agachei ao seu lado, enquanto Leide provocava os dois."Beijem, quero ver se têm coragem. Vamos lá Flávio".  Não resisti e Terezinha muito menos. Aproximamo-nos mais e de lábios cerrados, beijamo-nos, da forma que hoje chamam de "selinho". Mas o suficiente. Foi como aquele  beijão artístico, de final de filme hollydiano . Língua com língua. Beijo dado, Terezinha deu um grito de susto e se enfiou para debaixo das cobertas. E eu parti em alta velocidade, rua afora , à procura das confusões festivas no centro da vila. Foi sensacional, inesquecível e eu me apaixonei pela carioquinha e  por muitos anos.

A história não terminou aí. Dez dias depois, Terezinha, com sua família, pegaram o ônibus da Citran de volta ao Rio de Janeiro. Na velha rodoviária de Caratinga, o garoto de 14 anos chorava ao ouvir: "Adeus, meu amor, é hora de partir, levando esta saudade, eu vim me despedir..." música cantada pelos parentes que, também, ficariam. Alguns dias após, Flávio partiria para o colégio interno, segundo semestre, com Terezinha no coração. A saudade era tão grande que ele colocava as iniciais da garota no final de todas os deveres escolares: TCC - Terezinha Costa Chaves.O tempo, no entanto, solução dos problemas amorosos, apagou a paixão por causa de outras que vieram.

Em 1966, morando em Belo Horizonte, jornalista em atividade em vários veículos de comunicação, Flávio encontrou-se com o Prefeito de sua cidade, Tim Chagas, que o convidou a viajar ao Rio, na Rural da Prefeitura, onde ficariam alguns dias, enquanto a filha do prefeito fazia um tratamento médico. Lá no Rio, Flávio despediu-se e foi pra Niterói  se encontrar com seus Tios João e Mundica, além dos primos. Mal chegou e Leide ligou para Terezinha comunicando que o ex-namorado estava na praça. No dia seguinte, Terezinha pegou uma barca da Cantareira e se mandou pra Niterói. O reencontro foi festivo e espetacular, afastando toda saudade existente.

Os dois dias de Flávio duraram l5 e por pouco não foi o resto da vida. Mas teve que voltar, convocado urgente em BH. Voltou com o coração na mão de novo assombrado pelos acontecimentos de Caratinga, na Rodoviária. E  cortina do teatro da vida desceu de novo, encerrando em  definitivo esta história ao vivo de tanto amor. Que, entretanto permanece viva até hoje nas almas ardentes dos dois. (fim)

 

domingo, 21 de janeiro de 2018

FELIZ MARIA FELICIDADE


Não consigo, ainda, desvincular a alegria de Maria Felicidade do encontro com o Grupo Anjos da Dança. Uma animação única e inesquecível. Nem quando se amuou em razão de perder a visão por causa do diabetes, Felicidade de participar. Não tinha aquele ânimo de outrora, porém motivava o grupo de casais que, em todo primeiro domingo do mês, vem a Lar dos Idosos São José promover um baile adorado pelo pessoal da casa.

Ás vezes, vinham uns 15 casais, todos voluntários, que visitam as instituições asilares levando alegria e divertimento. Felicidade esperava esse domingo ansiosamente. Aqui dentro não paquerava como na sua juventude, mas manteve seu sorriso largo e bonito até o fim. Antes de morrer, deixou gravada sua história de vida para os nossos arquivos e não posso deixar que ele não a conte para os leitores. Leiam esta história linda:

 "A vida da gente só é complicada quando criança e a gente perde os pais muito cedo. Aconteceu comigo. Quando eu tinha três anos minha mãe morreu, junto com outros quatro filhos de maleta. Éramos seis filhas; sobraram duas comigo, a caçula. É muito ruim o filho perder a mãe tão cedo. Pra pior, meu pai morreu quando eu tinha cinco anos e fui morar com meu tio casado, sem filhos.

Eta tio bravo! Qualquer coisinha que eu fazia ele descia a correia no meu lombo. Adorava minha tia e gostava de brincar com as bonecas de pano que ela fazia pra mim. A vida em Itaguara era calma, bem diferente de mim; eu gostava de agitação de dançar. Era assanhada mesmo.
Mas meu nome não é Maria Felicidade?
Então eu queria apenas ser feliz.

Cê acredita que nunca entrei numa sala de aula? Naqueles tempos não deixavam mulher ir à aula, porque ela arrumava namorado e fugia com ele.Eu mesma comecei a namorar com 10 anos. Conheci meu primeiro namorado numa festa junina. Eu gostava de dançar e ele não; sujeito acanhado tava ali.

Mandava verso para o namorado através do sanfoneiro, porque não deixavam a gente se ajuntar pra dançar. Em Itaguara tinha muita festa e bailes; eu sempre chegava primeiro e era a primeira a sair dançando.O primeiro namoro durou pouco; o moço acanhado gostava de beber muito.

Meu verdadeiro amor foi o Antônio. Um negro bonito, alto, de dentes claros. Cantava feito passarinho, suave e lindo. Tocava violão. Fiquei apaixonada, mas meu Tio não deixou a gente namorar pra casar porque Antônio era pobre. O terceiro namorado, muito bonzinho, tinha uma vaca de leite e  carro de boi. Como tava doida pra casar e ter minha casa, aceitei casar com ele, aos 15 anos.

Falei mentira pro escrivão dizendo que tinha 16 anos.Fui morar na roça com meu marido e continuei a trabalhar feito escrava: socava arroz, café; fazia farinha de mandioca e fubá de moinho. Tecia pano no tear e fazia as roupas da família.

Logo fiquei grávida e tive meu filho Wellington aos 16 anos. Antes do menino completar dois anos, fiquei desamparada de novo: meu marido morreu.
 Ah, seu dotô, a coisa ficou preta, realmente! Eu deixava o menino com a tia e saía pra trabalhar; fazia farinha para os outros. Foi difícil criar o filho sozinha. Mesmo assim, além de fazer polvilho e farinha pra vender, gostava de estudar, mas meu tio nunca deixou.

Mas Deus foi bom. Mudei pra Capital, com emprego arrumado. Fui trabalhar na casa do seu Franck, onde fazia de tudo. Fiquei lá 35 anos. Meu primeiro salário, comprei tudo em bala. Meu filho e eu sentamos no jardim e chupamos bala até enjoar. Consegui colocar Wellington no colégio militar, interno, em Santa Tereza. Hoje ele é professor de matemática e major da Polícia Militar e tem dois filhos, Douglas e Diana.

Hoje tenho 90 anos e estou aqui no Lar São José há uns 12. A casa dos outros não é igual a casa da gente. De vez em quando ganhava uma balinha. Wellington dizia: "quando eu crescer vou trabalhar e comprar um tanto de balas". Por isso com o 1° salário, comprei tudo em bala.

Se eu tive alguma herança? Tive. A vaca leiteira e o carro de boi do casamento que o meu tio vendeu e botou o dinheiro no banco pra eu tirar quando fizesse 21 anos. Casar de novo não quis. Certo amigo do meu patrão se engraçou comigo e queria casar, mas eu tinha um filho e ele tinha quatro. Achei melhor ficar solteira. (fim)

*( Do meu livro "Muitas histórias pra contar - em parceria com o Asilo São José, mantido pelo Grupo Séculus e a Rede de Solidariedade)