domingo, 21 de janeiro de 2018

FELIZ MARIA FELICIDADE


Não consigo, ainda, desvincular a alegria de Maria Felicidade do encontro com o Grupo Anjos da Dança. Uma animação única e inesquecível. Nem quando se amuou em razão de perder a visão por causa do diabetes, Felicidade de participar. Não tinha aquele ânimo de outrora, porém motivava o grupo de casais que, em todo primeiro domingo do mês, vem a Lar dos Idosos São José promover um baile adorado pelo pessoal da casa.

Ás vezes, vinham uns 15 casais, todos voluntários, que visitam as instituições asilares levando alegria e divertimento. Felicidade esperava esse domingo ansiosamente. Aqui dentro não paquerava como na sua juventude, mas manteve seu sorriso largo e bonito até o fim. Antes de morrer, deixou gravada sua história de vida para os nossos arquivos e não posso deixar que ele não a conte para os leitores. Leiam esta história linda:

 "A vida da gente só é complicada quando criança e a gente perde os pais muito cedo. Aconteceu comigo. Quando eu tinha três anos minha mãe morreu, junto com outros quatro filhos de maleta. Éramos seis filhas; sobraram duas comigo, a caçula. É muito ruim o filho perder a mãe tão cedo. Pra pior, meu pai morreu quando eu tinha cinco anos e fui morar com meu tio casado, sem filhos.

Eta tio bravo! Qualquer coisinha que eu fazia ele descia a correia no meu lombo. Adorava minha tia e gostava de brincar com as bonecas de pano que ela fazia pra mim. A vida em Itaguara era calma, bem diferente de mim; eu gostava de agitação de dançar. Era assanhada mesmo.
Mas meu nome não é Maria Felicidade?
Então eu queria apenas ser feliz.

Cê acredita que nunca entrei numa sala de aula? Naqueles tempos não deixavam mulher ir à aula, porque ela arrumava namorado e fugia com ele.Eu mesma comecei a namorar com 10 anos. Conheci meu primeiro namorado numa festa junina. Eu gostava de dançar e ele não; sujeito acanhado tava ali.

Mandava verso para o namorado através do sanfoneiro, porque não deixavam a gente se ajuntar pra dançar. Em Itaguara tinha muita festa e bailes; eu sempre chegava primeiro e era a primeira a sair dançando.O primeiro namoro durou pouco; o moço acanhado gostava de beber muito.

Meu verdadeiro amor foi o Antônio. Um negro bonito, alto, de dentes claros. Cantava feito passarinho, suave e lindo. Tocava violão. Fiquei apaixonada, mas meu Tio não deixou a gente namorar pra casar porque Antônio era pobre. O terceiro namorado, muito bonzinho, tinha uma vaca de leite e  carro de boi. Como tava doida pra casar e ter minha casa, aceitei casar com ele, aos 15 anos.

Falei mentira pro escrivão dizendo que tinha 16 anos.Fui morar na roça com meu marido e continuei a trabalhar feito escrava: socava arroz, café; fazia farinha de mandioca e fubá de moinho. Tecia pano no tear e fazia as roupas da família.

Logo fiquei grávida e tive meu filho Wellington aos 16 anos. Antes do menino completar dois anos, fiquei desamparada de novo: meu marido morreu.
 Ah, seu dotô, a coisa ficou preta, realmente! Eu deixava o menino com a tia e saía pra trabalhar; fazia farinha para os outros. Foi difícil criar o filho sozinha. Mesmo assim, além de fazer polvilho e farinha pra vender, gostava de estudar, mas meu tio nunca deixou.

Mas Deus foi bom. Mudei pra Capital, com emprego arrumado. Fui trabalhar na casa do seu Franck, onde fazia de tudo. Fiquei lá 35 anos. Meu primeiro salário, comprei tudo em bala. Meu filho e eu sentamos no jardim e chupamos bala até enjoar. Consegui colocar Wellington no colégio militar, interno, em Santa Tereza. Hoje ele é professor de matemática e major da Polícia Militar e tem dois filhos, Douglas e Diana.

Hoje tenho 90 anos e estou aqui no Lar São José há uns 12. A casa dos outros não é igual a casa da gente. De vez em quando ganhava uma balinha. Wellington dizia: "quando eu crescer vou trabalhar e comprar um tanto de balas". Por isso com o 1° salário, comprei tudo em bala.

Se eu tive alguma herança? Tive. A vaca leiteira e o carro de boi do casamento que o meu tio vendeu e botou o dinheiro no banco pra eu tirar quando fizesse 21 anos. Casar de novo não quis. Certo amigo do meu patrão se engraçou comigo e queria casar, mas eu tinha um filho e ele tinha quatro. Achei melhor ficar solteira. (fim)

*( Do meu livro "Muitas histórias pra contar - em parceria com o Asilo São José, mantido pelo Grupo Séculus e a Rede de Solidariedade)

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