quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

MARIZIA, A CONDUTORA DE SONHOS

MARIZIA, CONDUTORA DE SONHOS

Não foi do jeito que ele pensava e curtia nos sonhos suaves das noites bem dormidas. No começo, ele deixava a loja onde trabalhava com seu pai e tomava o rumo de casa, para jantar, subindo a rua onde nascera e morava. Fatalmente, passaria em frente à casa dela, numa casa de janela baixa e por onde se enxergava o interior dela, a sala de visitas e a de jantar. Isso no foco mais alto do olhar, pois no primeiro via-se o quarto de Marizia. Esticando qualquer tanto o pescoço, via-se até sua cama logo abaixo da janela. Naquele horário estaria deitada, lendo algum livro de Jorge Amado, ou de Vitor Hugo.

Esta rotina ele já conhecia e ela, também, sabia dos horários dele. Tanto que tomava banho antes das 16h, exatamente para esperar que passasse e antes de qualquer outra atitude entraria no Beco dos Calças curtas, cujo início fazia esquina com a Rua das Flores. E ali, exatamente, estava a casa de Marizia. Ele não tocaria a campanhia, pois sua enérgica Mãe, sempre contrária ao assédio dos rapazes à sua linda filha, dobrara-se à simpatia do  Moço, filho de família distinta e respeitada na cidade . Quando ele abria a porta, a Mãe gritava:

"Marizia, seu amigo do café da tarde chegou, venha recebê-lo."

E ela ia como estava. Uma das formalidades que permitiam esta liberdade dele, é porque a Mãe sabia exatamente que entre os dois só havia boa amizade mesmo, há tempo. E que Marizia estava apaixonada pelo jornalista e escritor local, Etienne, também de família destacada e respeitada. Ela sabia, porém não aceitava e nem autorizava o namoro. Sua liderança era tamanha que conseguiu convencer o marido da importuna situação: queria ver a filha, um dia casada com algum médico, expoente e rico da cidade. Marizia sabia disso, porém gostava mesmo de Etienne e dos papos com o amigo visitante diário, Geraldo, também jornalista, escritor e poeta.

Aliás, ele colaborava com os encontros secretos de Marizia e Etienne. Quando ela saía à noite, justificava com um convite do Geraldo para tomar sorvete na Riviera, point da sociedade na cidade. Quando chegavam lá, Geraldo sentava-se em outra mesa e perto Marizia se alojava à espera de Etienne, já com os sorvetes pedidos. Geraldo tomava mesmo Gin. com tônica, Mal serviam o seu pedido e a mesa de lado já estava ocupada. Geraldo então passava a vigiar à rua pra avisar se a Mãe ou o Pai de Marizia aparecessem. Porém tudo terminava bem e na volta, Geraldo acompanhava os dois até o cruzamento da Praça Getúlio Vargas. Então o casal se despedia, num rápido beijo e Geraldo levava Marizia para a casa dela. Era assim três vezes por semana - terça, quinta e sábado.  Como retribuição, Marizia lia, corrigia e passava para o caderno especial dele, os poemas, as poesias e contos que escrevia. Ela os adorava, também.

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