sábado, 31 de março de 2018

AULA DE LUCIDEZ

  

LUCIDEZ DO PASTOR

 

(Flávio Anselmo – Jornal Solidariedade)

 

Eu tinha coluna mensal no jornal Solidariedade da  rede humanitária do mesmo nome, e escrevi vários artigos longe do futebol. Porém, certa vez, ao ler a mensagem do jovem pastor paulista Ed Renê, em 2110, ou seja há quase oito anos, que não me saiu mais  da lembrança.

 

 Nada mudou desde então. No artigo, eu fazia as seguintes perguntas:

a)não existe mais misericórdia?

 b) Por anda a caridade humana?  

 

Não são as perguntas que se faz agora?

Porque, ainda, a humanidade mata em nome de seu deus ( com d

minúsculo, realmente) e quem mata, ou maltrata, ou ofende quer que as pessoas diferentes em ações, religiões, times de futebol, inteligência, sejam à sua imagem.

 

Vamos agora ao artigo do pastor de São Paulo, Ed Renê. No texto final, ele ensina que a misericórdia passa pelo perdão. É difícil, ele reconhece, porém defende e perdoa até decepção incrível que teve com os atletas do futebol do Santos.

Por isso, eu disse que é difícil aplicar o perdão no momento pedido, não sei se eu teria esta capacidade. Bom chega de lenga-lenga e transcrevo abaixo o artigo do Pastor Ed Renê:

 

-"No dia 1°/Abril/2010 (dia da Mentira, no entanto o ocorrido foi verdadeiro) O elenco do Santos foi à uma instituição que abriga 34 pessoas. O objetivo era distribuir ovos de Páscoa para crianças e adolescentes, a maioria com paralisia cerebral.


Ocorreu que boa parte dos atletas não saiu do ônibus que os levou. Entre estes, Robinho (26 anos), Neymar (18), Ganso (21), Fábio Costa (32), Durval (29), Léo (24), Marquinhos (28) e André (19) todos ídolos super-aguardados. O motivo teria sido religioso: a instituição era o Lar Espírita Mensageiros da Luz, de Santos-SP, cujo lema é Assistência à Paralisia Cerebral.

O treinador da época era Dorival Júnior  que, visivelmente constrangido,  tentou convencer o grupo a participar da ação de caridade. Posteriormente, o Santos informou que aqueles jogadores que ficaram no ônibus e não entraram no local, agiram por conta própria ou simplesmente porque não quiseram.

 

Dentro da instituição, os outros atletas participaram da doação de 600 ovos, entre eles, Felipe (22 anos), Edu Dracena (29), Arouca (23), Pará (24) e Wesley (22), que conversaram e brincaram com as crianças.

 

O pastor  Ed Renê Kivitz, da Igreja Batista de Água Branca (São Paulo), autor do convite aos atletas, escreveu sobre o episódio:

"Os meninos da Vila pisaram na bola. Mas prefiro sair em sua defesa.

-"Eles não erraram sozinhos. Fizeram a cabeça deles. O mundo religioso é mestre em fazer a cabeça dos outros. Por isso, cada vez mais me convenço que o Cristianismo implica a superação da religião, e cada vez mais me dedico a pensar nas categorias da espiritualidade, em detrimento das categorias da religião" .

"A religião está baseada nos ritos, dogmas e credos, tabus e códigos morais de cada tradição de fé. A espiritualidade está fundamentada nos conteúdos universais de todas e cada uma das tradições de fé."

"Se você começa a discutir quem vai para céu e quem vai para o inferno; ou se Deus é a favor ou contra à prática do homossexualismo; ou mesmo se você tem que subir uma escada de joelhos ou dar o dízimo na igreja para alcançar o favor de Deus, você discute religião".

 

-"Quando você começa a discutir se o correto é a reencarnação ou a ressurreição, a teoria de Darwin ou a narrativa do Gênesis, e se o livro certo é a Bíblia ou o Corão, você discute religião. E se você  pergunta se a instituição social é espírita kardecista, evangélica, ou católica, você discute religião".

-"O problema é que toda vez que você discute religião você afasta as pessoas umas das outras, promove o sectarismo e a intolerância. A religião coloca de um lado os adoradores de Allá, de outro os adoradores de Yahweh, e de outro os adoradores de Jesus. Isso sem falar nos adoradores de Shiva, de Krishna e devotos do Buda, e por aí vai".

"-E cada grupo de adoradores deseja a extinção dos outros, ou pela conversão à sua religião, o que faz com que os outros deixem de existir enquanto outros e se tornem iguais a nós, ou pelo extermínio através do assassinato em nome de Deus, ou melhor, em nome de um deus, com d minúsculo, isto é, um ídolo que pretende se passar por Deus".

-"Mas, ao concentrar  a sua atenção e ação, sua práxis, em valores como reconciliação, perdão, misericórdia, compaixão, solidariedade, amor e caridade, você está no horizonte da espiritualidade, comum a todas as tradições religiosas. E  se você está com o coração cheio de espiritualidade, e não de religião,  promove a justiça e a paz".

-"Os valores espirituais agregam pessoas, aproxima os diferentes, faz com que os discordantes no mundo das crenças se deem as mãos no mundo da busca de superação do sofrimento humano, que a todos nós humilha e iguala, independentemente de raça, gênero, e inclusive religião".

 
-"Em síntese, se você vive no mundo da religião,  fica no ônibus. Quando você vive no mundo da espiritualidade que a sua religião ensina ou pelo menos deveria ensinar,  desce do ônibus e dá o ovo de páscoa para a criança que sofre a tragédia e miséria de uma paralisia mental".

 

Trincheira: Ele assina o belo artigo como: Ed René Kivitz, cristão, pastor evangélico, e santista desde pequenininho



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