segunda-feira, 5 de março de 2018

CEREJEIRA NÃO É ROSA MAIS

CEREJEIRA NÃO É ROSA MAIS

Eu tinha o costume firmado com o destino que só voltaria para a casa de meus pais, onde morava, também, em Caratinga, subindo a rua Raul Soares, que antes mesmo de eu nascer chamava-se Rua das Flores. Lindo, não é?

Todavia as autoridades municipais, resolveram homenagear o ex-senador e governador Raul Soares de Moura, nascido em Ubá, no dia 07 de agosto de 1877 e que fizera bela carreira política, além de vitoriosa vida privada como jurista, professor na sua cidade, a mesma de Ray Barroso.

Morreu em BH no dia 04 de agosto de 1924.

Era filho do agricultor e coronel da Guarda Nacional Camilo Soares de Moura e de Amélia Peixoto Soares de Moura.

Em 1921, exonerado do ministério, elegeu-se Senador por Minas e foi coordenar a candidatura de Artur Bernardes para a Presidência.

Bernardes eleito, Raul Soares apresentou-se como candidato à sua sucessão ao governo de Minas, pelo PR partido republicano e foi eleito.

No mesmo período Benedito Valadares, pouco conhecido como deputado federal ganhou de presente o Governo de Minas, nomeado por Getúlio Vargas, presidente da República.

Morreu Raul Soares em 1924 e teve funeral digno de rei, acompanhado por multidão. Por causa disso, a bela Rua das Flores, em Caratinga,  virou Rua Raul Soares.

Anti-político juramentado eu soube dessa mudança anos depois, pelo colunista social Tião de Lima, do Jornal de Caratinga e meu amigo. Fiquei fulo da vida e na mesma semana escrevi artigo revoltado condenando a troca, mas de nada adiantou.

De volta à história. Conheci linda garota da fina flor de nossa sociedade, filha do comerciante de assuntos agro-percuários, Casa Castanheira.

Após morar vários anos na rua dos Correios, mudou-se para o casarão de dois andares na Rua João Pinheiro defronte à escola de Dona Isabel Vieira. 

Na parte de baixo instalou seu comércio e no segundo andar sua casa, que tinha imensa varanda para a rua estreita.

Janice foi a minha primeira namorada. Linda demais. Tínhamos uns 15 pra 16 anos. Só que não podíamos encontrar-nos porque  ela tinha pai bravo e  irmão mais velho, Márcio, também irado como boi de tourada.

Certos dias, a gente se encontrava na casa da professora dela de piano, Maria Bonfim, que nos dava cobertura até no Jardim Pequeno para a gente poder namorar no meio dos hibiscos.

Janice e eu combinamos, pelo menos, ver-nos todos os dias. Eu passaria no passeio de sua casa, na Rua João Pinheiro, assobiando Cerejeira Rosa, sucesso de Zezé Gonzaga na voz de Carlos Galhardo.

Eu assobiava e ela chegava na sacada. Eu parava, acenava para ela, jogava-lhe beijos. Se Pai e irmão não estivessem em casa, Janice descia e nos ficávamos de papo inocente até na hora prevista deles chegarem, ali pelas oito da noite.

Ao chegar em casa, eu levava bronca de minha Mãe, dona Geralda, severa nas questões de horários.

O jantar era servido às 18h30m quando meu pai Sodico fechava a Papelaria Anselmo e subia a Rua Raul Soares, com os jornais do dia para Mamãe. A família jantava e dava de jantar aos hóspedes do pequeno hotel de sua propriedade.

Sabem porque eu gostava de subir a Rua Raul Soares, além de ser o caminho mais reto, natural e puro, pois o Hotel Anselmo localizava-se na mesma rua?

No entanto, o propósito maior era Marizia, a linda namorada oculta do meu amigo e jornalista Ettieninho. Não deixava nunca de dar  entrada rápida, tomar cafezinho, comer bolo de chocolate,  bem acolhido por sua Mãe, afinal eu era apenas amigo de Marizia. Mas, candidatos a namoro ou namorados nem ver, não podiam mesmo entrar.

Na rua João Pinheiro, eu passava em frente ao botequim do italiano Brás. Passava só não; a paradinha era praxe. Entrava e pedia pinga, como todo mundo fazia.

Só que eu tinha 16 anos. Toma uma, toma duas e saía assobiando Cerejeira Rosa a fim de ver Janice na sacada. Este namoro durou pouco;  no princípio do ano seguinte fui estudar no internato de Viçosa. A família de Janice mudou para a Capital.

Ah, querem conhecer a letra bonita de Cerejeira Rosa; então vamos lá:

CEREJEIRA ROSA

 

Será que tu recordas como eu?
Aquele tempo tão feliz
Quando o destino bom então me deu
Tudo o que eu quis
Eu pressentia que o teu coração
Queria só viver por mim
E eu pensei que todo aquele amor
Era sem fim

Agora vivo a pensar
No tempo bom que passou
E vivo sempre a lembrar
Que o sonho já terminou
A cerejeira em flor 
Que tu gostavas de olhar
É companheira da dor 
Do meu amor
E a cerejeira não é rosa mais
Ficou tão triste com o adeus
E agora pra mostrar seu amargor
Não tem mais flor.

 

Também o nordestino Waldick Soriano gravou esta música com aquela sua voz rouca e bem desafinada.

 

COM ELA EM BH

 

Eu me encontrei com Janice em sua casa de BH. Eu consegui seu telefone e  liguei. Falei com Janice e depois, com Márcio, o feroz irmão dela, que autorizou nosso encontro, mas lá na porta do prédio ou na sala da casa.

Fui  à avenida do Contorno, em frente os hospitais do Barro Preto.

Fomos para a sala de estar, todos, em volta da mesa redonda, ornamentada de flores e com enorme vaso onde se plantou a cerejeira florida. Papeamos bom tempo, vigiados pelo irmão e pela mãe. Acertamos encontrar-nos outro dia. Mas não aconteceu.

 

Aconteceu sim, muitos anos depois e os tempos eram outros. Foi numa feira agropecuária de Caratinga, onde eu seria homenageado. Desci do palanque de autoridades, após discursar e fiquei de lado vendo o movimento com copo de cerveja gelada na mão direita.

 

Então senti o toque no ombro e me voltei: era ela, Janice.

 

-Oi, Flávio, lembra-se de mim?

-"Claro, apesar de tantos anos.

-Pois é, tenho acompanhado o seu sucesso na televisão.

Mas eu me casei e moro em Ipatinga. Meu marido é descendente de japonês, e trabalha como engenheiro da Usiminas - esclareceu Janice antes que eu lhe perguntasse algo sobre o presente dela.

 

De repente, chamou alguém e o japonês veio:

-Este é meu marido, Flávio; estou casada há vários anos com ele e tenho dois filhos, um casal.

E ela me explicou que quando me anunciaram no alto-falante, virou-se para o marido e disse:

"Vou lá rever meu namorado de infância".

 

Não houve qualquer manifestação contrária dele.

 

Estive várias vezes em Ipatinga, pra transmitir jogos pelo Sportv, ou por emissoras de rádio e até pra cobertura da Copa Record de Futebol Dente de Leite, promoção minha com a rede do bispo, cuja final a gente mostrou ao vivo, do Ipatingão. Porém, nunca mais vi Janice ou alguém ligada a ela.

A cerejeira em flor que a gente gostava de olhar ficou tão triste que até perdeu a cor. - FIM


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