segunda-feira, 26 de março de 2018

CIRCO DA VIDA CLANDESTINA

DE OLHAR EM OLHAR, O AMOR CLANDESTINO VEIO PARA FICAR, MAS ESCONDIDO.

Lunardi e Cilene, enfim, encontraram o esperado, por ambos: um  momento a sós, que tanto procuravam expor suas ânsias. Moravam na mesma cidade, quase na mesma rua, questão de pequenos quarteirões. Cruzavam-se ao saírem para o trabalho, ou irem ao mercado. Até mesmo faziam de propósito, pois conheciam os  seus horários .

-Ele é frequentador da Missa das 10h, só aos domingos - dizia Cilene nas conversas íntimas com seu espelho no banheiro, de porta fechada.

-Ela adora passear com o seu cãozinho no Jardim Pequeno, todo dia às 8h da manhã, quando o sol mais ilumina a Cidade.

Essa sensação mexia-lhe corpo afora, mas não saía de sua cabeça enamorada. Lunardi, então, procurava Cilene pelo jardim, tão somente para troca de olhares.

Não se falavam, nem podiam. Cada qual já estava comprometido em séria relação pré-casamento.

Lunardi a via de longe e devaneava:  "a  presença dela, com o totó preso na ponta da corrente de prata, e em uma coleira de couro, inspira até o arco-íris mágico,que surge do nada e vai para lugar algum.

Que tem as cores dos olhos dela, dos cabelos bem pretos, e a brancura do sorriso cheio de dentes alvos".  

Mudava de passeio a fim de passar por ela. Olhavam-se no fundo dos olhos e se cumprimentavam em ligeiro "Bom Dia". 

Seguiam seus caminhos, cada qual para o destino traçado antes. Lunardi pensava: "vou ainda convidá-la a ir à Missa comigo; é uma coisa tão normal que a sociedade não fofocará".

 Mas onde estava a sua coragem para este ato tão audacioso?

Até que aconteceu aquele baile chique de entrega dos troféus aos escolhidos para "Homem do Século"!

Clube lotado, movimentação enorme entre os participantes e na mesa central encontrava-se Lunardi para receber seu troféu. 

Cilene, em vestido de gala, luvas compridas, estendidas pelos braços, recepcionava os convidados pois era a promotora e organizadora do evento. Foi ela quem indicou Lunardi ao troféu.

Após a bonita solenidade, apresentada por Cilene, a orquestra entrou em cena e o baile começou: os casais se  volteavam pelo imenso salão.

Nos braços do noivo, Cilene despertou ciúmes em Lunardi que estava com a futura esposa, também. Cruzaram-se no meio do salão e não deixaram de se olhar.

O noivo notou algo diferente e puxou Cilene mais para e a beijou na boca. Lunardi fechou os olhos para não ver a cena. Depois, decidiu, também, beijar a noiva às vistas de Cilene.

Longe de instigar ciúme nos dois, os beijos despertaram intensos desejos neles. Se os outros casais soubessem leitura labial, teriam entendidos o que diziam:

Lunardi, dançando, falou: "Eu te quero" e Cilene respondeu dos braços do noivo, concentrado na dança: "Eu te amo e te quero, também".

Como numa peça teatral romântica a vida deles correu,às vezes, paralelamente e na maioria das vezes, separadamente. Ambos se casaram e   Lunardi foi morar na Capital.

Cilene ficou na  aconchegante e pacata cidade para onde se mudou, com os pais,  quando criança, e perto da terra natal.

No entanto, ao ver o carro de Lunardi passar pelas ruas do centro, Cilene se alvoroçava. Pegava o filho menor e depressa chegava ao Jardim a tempo de ver Lunardi passeando de mãos dadas com a esposa.

Quando se cruzavam, os olhares eram profundos, silentes e os lábios afirmavam apenas para a leitura:

-"Bom dia, querido, estava com saudade".

 -"Bom dia, querida, eu também morria de saudade".

Mas voltemos àquele baile importante, onde decisões foram tomadas, na antessala do escritório do clube. Com simples gesto de cabeça, Cilene convidou Lunardi a acompanhá-la.

Entrou no escritório e sentou-se no confortável sofá. Lunardi chegou e a acompanhou. Logo veio o garçom:

"Deseja algo para beber, Senhora? "

-"Sim, Cuba Libre com muito gelo e limão."

-"E o senhor, Doutor, o que deseja?"

-"Uísque Cavalo Branco, com bastante gelo."

Tão logo o garçom deixou o recinto, Lunardi questionou:

-"Devemos estar doidos, o que fazemos aqui sozinhos?"

-" Nada, nada mesmo, apenas conversamos e precisamos desta conversa há anos". respondeu Cilene.

No entanto, não puderam nem iniciar o bate-papo. A porta se abriu e o marido de Cilene entrou com ar de desconfiado, mas alegre:

-"O que estão fazendo aqui sozinhos, eu hein?

-"Uai, não estamos fazendo nada. Estávamos cansados do barulho e resolvemos sentar aqui para conversar sem os altos decibéis deste rock maluco", respondeu Cilene.

O  marido riu e sentou-se ao lado dela.

Em dado momento, porém, ele saiu para buscar bebida e Cilene rapidamente falou:

 "Que loucura, não quero viver nenhuma aventura amorosa, mas gostaria de dizer-lhe, Lunardi, que te amo muito."

Lunardi mal esperou que ela terminasse e disse:

"Também te amo, Cilene, mas o que fazer? A sociedade, a Igreja, os clubes de serviço, todos nos vigiam. Somos exemplos para esta desaforada comunidade."

Mas decidiram deixar seguir o rumo de suas vidas sem se encontrar clandestinamente ou se tornarem amantes.

Cai o pano, encerra-se o ato e a peça continua apenas 20 anos depois. A idade não machucou nenhum deles. Cilene continua bonita e desejável aos 50 anos. Vivendo importante detalhe do destino:  está viúva!!

Lunardi, na mesma idade dela, separou-se e corre atrás de alguém que o complete.

 Qual será a cena final deste romance de amor, tão real?

FIM


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