quarta-feira, 21 de março de 2018

conto

 

TODA RODOVIÁRIA CHOROU O PRANTO DE MARIA

Maria foi receber Pedro à porta do apartamento. Reconheceu os dois toques seguidos e o outro rápido da campainha, forma como ele anunciava a sua chegada, apesar de ter chave.

Ambos gostavam disso: ele de ser recebido na porta aberta, e ela de buscá-lo ao pé da escadinha. A propósito existia entre eles essa e outras pequenas cerimônias das quais não abriam mão; todas tinham extrema importância na convivência amorosa deles. 

Por exemplo: Pedro ir embora sem que Maria o levasse à porta para o beijinho despedida, seguido do "eu te amo".

Ou nos dias de sua fisioterapia, quando ele usava a garagem.Maria sabia dias e horários e se postava na janela do quarto de dormir pra esperar a passagem do carro dele.

De dentro saiam mão e o boné com o adeusinho. Ela permanecia na janela, porque sabia, também, que ao ganhar a rua, após deixar o carro na garagem,  Pedro olharia para o alto, jogaria um beijo e faria a histórica reverência dos Mosqueteiros.

Que no gestual, o chapéu na mão direita seria substituído pelo colorido boné. Então ela o seguiria até dobrar a esquina e se perder de vista.

Maria estava 10 dias sem vê-lo desde que Pedro viajou para sua cidade ,a fim de acompanhar o sepultamento do  irmão   mais velho, vitimado por câncer.

Nesta tarde,  Pedro só não  entrou direto, porque Maria parou-o com abraço  forte pra beijar-lhe na boca. Sabia que a morte do irmão o chocara  demais.

Pedro jogou a cabeça  pra atrás e  fechou os olhos. Tinha a fisionomia cansada, triste; passou as mãos pelo rosto e disse: "Incrível, não derramei  uma lágrima, mesmo amando demais este meu irmão. Era meu segundo pai! A diferença de idade  entre nós era grande. Será  que estou tão bruto que não  sei chorar mais? "

Maria retrucou: - A única vez  que te vi chorar foi depois do sepultamento de sua mãe. Você chegou aqui sentou-se neste mesmo sofá  e desmanchou-se em lágrimas. Nunca mais o vi chorar.Não é vergonha o homem chorar nestas ocasiões, querido, ,nem é feio".

Maria segurou-lhe as mãos e puxou Pedro para junto de si. O  rapaz caiu num  pranto longo entremeado de fortes soluços até se  acalmar até falar mansamente:

 -" Você é que nunca prestou atenção, mas chorei sim perto de você, não na intensidade em que você chora Me lembro que, certa vez, ficamos juntos uns bons dias; fui levá-la à rodoviária numa noite de chuva pesada".

-"Parei o carro  na rua São Paulo, enquanto esperávamos a hora da saída do ônibus. No  rádio tocava o novo sucesso de Chico Buarque, Olhos nos Olhos,e ele mesmo cantava".

-"Emocionado e em silêncio olhei pra você que chorava muito. Me virei pra janela fechada,a chuva batendo forte  e chorei escondido também . Esta música e Chico não tem muito a ver com a gente. Sua letra não nos dizia nada, mas a melodia é de incrível beleza".

O horário chegou e a chuva diminuiu. Liguei o carro e segui rumo à Rodoviária para deixá-la. Parei no estacionamento e a ajudei com as malas sob respingos da chuva. Descemos a escadaria do boxe do ônibus em completo silêncio.

Despedimos com selinhos e ao vê-la entrar no veículo, os olhos de Pedro encheram-se de lágrimas. Maria logo que se assentou na poltrona marcada, à janela, e desabou, também, em convulsivo choro.

Do lado de fora, Pedro tinha uma verdadeira cachoeira de lágrimas escorrendo rosto afora. Todo aquele chororó, despertou a curiosidade dos demais viajantes, do motorista e do trocador... Aí, então, foi num coro só que todos presentes puseram-se a chorar, também.  - FIM


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