sexta-feira, 2 de março de 2018

DE :CONTOS DE AMOR - PRÓXIMO LIVRO DE FLAVIO ANSELMO

 

  

HISTÓRIA DE AMOR

 

O sol forte incomodou os olhos. Puxou o quepe que compunha o uniforme do ginásio, tentando evitar os raios diretamente na vista, mas de nada adiantou. Lembro bem que, num gesto automático, tentou localizar o sol pra evitá-lo sob alguma marquise. Então a viu  uma janela do sobrado à sua frente. Imaginou que fosse a casa dela. Estava linda como rosa vermelha dependurada, sozinha, num galho da roseira.

 

Ela, também, o olhou. E sorriu. Os raios solares se multiplicaram no branco do sorriso. Só que não o incomodaram. Pelo contrário,  fizeram bem.

 

-Preciso conhecer esta menina. Como será que se chama?- pensou.

 

Teve sorte. Vestida com o uniforme do ginásio, sua colega de sala, Ledinha, apareceu de repente e tocou a campainha do apartamento da musa. Ela sumiu da janela e alguns minutos depois, ele a viu, atônito, surgir como anjo logo à frente. Vestida como Ledinha. Estudava então no mesmo ginásio que ele. Seria na mesma sala?

 

Imaginou  que Ledinha fosse apresentá- los. Que nada! Nem olhou pros lados e saiu em apressados passos na direção da praça principal.

 

-Isso, também, seria felicidade demais - pensou de novo.

 

Não é que após as aulas, Ledinha  trouxe recado dela:

 

-Nancy - soube então o nome dela - quis saber tudo sobre você, seu nome, sua idade e se você tem namorada? Ela até me pediu que o convidasse pra  ir hoje às sete da noite à porta do prédio , antes do pai dela chegar, pois ele não gosta de vê-la papeando com rapazes estranhos. Portanto, não se  atrase - alertou Ledinha.

 

No horário combinado, foi para o local marcado. Teve que inventar uma desculpa em casa pra mãe, também, deixá-lo sair, e voltar depois das dez horas. Em casa, o sistema era durão; menor de idade sair às 7 da noite só pra visitar alguém, ou ir à Igreja, nos terços. Dormia cedo e acordava de madrugada por que as aulas se iniciavam às sete da manhã. Sua desculpa: iria à tal reza noturna da Catedral e levou o irmão caçula de 4 anos com ele.

 

Teve que lhe comprar uma caixinha de estalinho,  senão ele desmentiria  tudo na volta. Menino linguarudo!

Nancy  já estava na janela à espera. Desceu e se apresentaram, oficialmente. Nancy disse que tinha 12 anos. Da mesma idade dele. Mas sua carinha era de uns 10 anos, no máximo. Conversava como gente grande. Custou  acompanhar o ritmo de suas ideias.O papo girava em torno do ginásio, da família, do pai bravo, e como viera morar na cidade, no que trabalhava seu pai. E questionou as mesmas coisas, numa rapidez tão grande que quase não teve tempo de responder.

 

Ao  lado, atento, o irmão caçula copiava tudo. A certa altura, cansado daquele papo, pediu pra fazer xixi. Indicou-lhe a árvore mais próxima e o sem-vergonha fez xixi virado pro lado deles. Depois, tirou estalinhos da caixinha passou a atirá-los nos pés do casal enquanto perguntava à Nancy:

"Conhece este brinquedo?".

 

Como teve a devida atenção,seu primeiro encontro com Nancy tornou-se barulhento estouro de estalinhos e gargalhadas ao menor gesto engraçado.

 

Tudo parou com a chegada do Pai dela chegou. Olhou com a fisionomia fechada e apenas falou:

-Nancy, suba.

 

Saí envergonhado, e preocupado com a situação de Nancy, Naquela época, criança de 12 anos não podia nem pensar em namorar. Mesmo tentando enganar os pais com brincadeiras inocentes como jogar estalinhos na companhia do namorado e do irmão caçula dele.

Nancy passou a ser vigiada de perto. Chegava à janela, num horário combinado entre eles, por meio de bilhetinhos que trocavam  via Ledinha.

 

Ele dava jeito de passar pela avenida onde ela morava, jogava-lhe o melhor sorriso, olhares amorosos e só. Certo dia descobriram que podiam encontrar-se à tarde, lá na Praça da Estação e brincar nas toras da produção de dormentes pra estrada de ferro, espalhadas pelo logradouro.

As desculpas seguintes, na casa de cada um, era de ir estudar com alguém. Ledinha nos acompanhava sempre. Meu irmão caçula, nunca mais.

 

Nas tardes de domingo, acostumaram ir às domingueiras no Clube Municipal, porém receosos de serem vistos e denunciados aos pais. Deliciavam com os pares de rostos colados e as músicas românticas. Nunca aventuraram dançar assim: eram crianças; e ele não sabia dançar. Dois pra lá, dois pra cá. Dava não.

 

0s bilhetes, trocados via Ledinha, em envelopes lacrados, eram de romantismo aquém das suas idades. De onde tiravam tanta coisa bonita assim pra revelar um pro outro, não se sabia.

No meu caso ele passou a ler com maior frequência as revistas de fotonovelas e copiava os trechos mais românticos. Escolhia as músicas e as revelava em assobios que , julgava, cheios de técnica, ao passar por baixo da janela, a qualquer hora do dia. Fora, claro, dos horários das aulas.

 

Lembra-se de que Nancy o presenteou com lindo anel que ela usava no anular da mão direita. Presenteou é força de expressão. Jamais faria isso porque não teria como explicar aos país o sumiço da joia, que lhe foi dada no aniversário de 10 anos.

Ela dizia assim:

-Enquanto estivermos juntos, a joia é sua, fica no seu dedo mindinho - Porque não cabe no meu anular.

 

Sempre que se despedia dela, com beijo apaixonado, dizia: "até amanhã minha bela joia" e olhava Nancy docemente pra que ela entendesse o dúbio sentido da despedida.

 

Certa vez, tiveram licença para aceitar o convite das amigas que formavam a Banda Cor de Rosa, só de garotas, e acompanhar o show delas, domingo às seis da noite, na paróquia de um bairro retirado.

Justifica esta explicação: a Cor de Rosa era especializada em rock e bossa nova, e seu objetivo sempre foi beneficente. Tocava de graças em festas de aniversários. Porém em acontecimentos sociais chiques ou nas apresentações nas paróquias vizinhas, cobrava cachê fuleiro, visando levantar fundo pras obras assistenciais da Igreja.

 

Noite de quase tragédia total. Na carroceria do caminhão do tio da líder da Banda, iam pela estrada sem calçamento, aos trancos e aos pulos, na base da molecagem. A recomendação geral era de que assentássemos no chão da carroceria. A fim de impressionar Nancy,  assentou  na beirada da carroceria.

 

No dedo mindinho, a joia presenteada. Num dos solavancos, o anel chegou à ponta do dedo e estava pra cair na estrada. Fatalmente se perderia. Teve presença de espírito ao recolher o dedo e impedir que o anel passasse da última falange. O susto passou sem que ninguém percebesse a situação.

 

Na rapidez em que moveu o corpo, a calça nova feita sob medida e presente da Mamãe prendeu-se num prego da carroceria e rasgou-se num imenso L. Como faria no salão paroquial  para aonde se dirigiam, com aquele rasgão nos fundilhos? Qual desculpa daria em casa que já havia quebrado o balanço do relógio de pulso, Monza 15 rubis, presente do pai, exatamente ao exibi-lo pra  namoradinha?

 

O problema do salão paroquial resolveu com a blusa de frio do amigo Roberto, que amarrou na cintura e cobriu o rasgão. Ninguém entendeu lá na festa porque o friorento do Roberto rangia os dentes e ele não lhe devolvia a blusa, amarrada na cintura.

Difícil foi resolver o problema em casa. Bem que tentou escondendo a dita calça no fundo do guarda-roupas:  a Mamãe deu falta dela e de tanto mexer a encontrou toda amassada. Ouviu a explicação mais sem lógica. Sua Mamãe mandou cerzir o rasgão e obrigou-o a sair com aquela maldita calça de fundilhos rasgados por muito tempo ainda.

 

O maior susto que Nancy e ele viveram foi num domingo à tarde. A cidade adormecia depois do ajantarado, regado a cerveja Malzbier, pra mulheres adultas, guaraná Antártica pra criançada, e na mesa fartos pratos de frangos assados, macarronada à bolonhesa, tutu à mineira, e farofa de ovos. Os adultos abriam o apetite com vinhos nacionais ou pinga da roça.

 

A turma que não dormia, aproveitava pra subir o morro e acompanhar a partida de futebol do principal time da cidade. Nancy e ele fugiram de casa. Foram pro Jardim Grande. Menina recatada, não aceitou o convite pra namorar lá dentro do Jardim. Preferiu correr o risco de passear em volta dele, inocentemente.

 

Só que alguém os viu, naquela animada palestra e telefonou para o pai dela. De repente, eis que surge a fera ao seu lado. Passou por eles, sem dizer nada, e apenas olhou Nancy. Tossiu ou resmungou; Não deu tempo pra entender. Ela se virou e saiu num pique só em direção à sua casa. 

 

Lembrou-se: não havia telefone antes na cidade. Foi nesse período que o grupo de empresários se uniu e criou a Telefônica local. Coisa bem rústica e de poucos usuários. Nancy mandou bilhete informando que haviam instalado aparelho em sua casa e  perguntou se lá em casa, também.

Demorou uns dias, e chegou lá em casa aquele monstrengo preto, feio, sem disco de chamada. Era assim: você tirava o fone do gancho e uma voz feminina o atendia. Perguntava pelo número que queria chamar e completava a ligação. Quando a voz era de adulto, a telefonista costumava perguntar: "ligação de pessoa a pessoa". Então você dava seu nome e com quem queria falar.

 

 

No caso deles, com aquela voz de taquara rachada, na mudança dos 12 anos, não conseguiram ligar pessoa a pessoa. O macete era engrossar a voz e tentar enganar a moça. Às vezes ela completava, e, com certeza, ficava na linha ouvindo a conversa. Diante da pureza do namoro da época, podia quando muito ligar pra seu pai e avisar que a conta do mês seria maior, posto que alguém, com voz de rapazote, namorava ao telefone. Papai, um bonachão, apenas ria e dava rédeas.

 

DOIS ANOS DE FELICIDADE    

 

Após o incidente no Jardim Grande, o Pai da fera entendeu que a marcação sobre pressão não adiantaria e que ela já chegara aos 14 pra 15 anos. Melhor deixar essa brincadeira acontecer na porta do prédio. E assim foi feito. Contudo, esta felicidade durou apenas mais de dois anos. Até que chegou o bilhete com a triste notícia, depois das aulas.

-Papai decidiu que vamos mudar pro Rio de Janeiro, mês que vem. Ele vai ser sócio do meu tio numa empresa de tecidos. Já sofro de saudade.

 

Tive vontade de correr pra casa e colocar no meu toca-discos o 45 rotações de Maysa, que de um lado tinha "Meu mundo caiu", e do outro "Ouça". Assim o fiz: corri pra casa, abracei o travesseiro e chorei. Ele gostava muito daquela menina. Pensava nela o dia todo. Nos seus cadernos escolares, sempre que terminava as redações ou qualquer outro dever, colocava  no canto direito da página as iniciais dela: NTC - Nancy Tavares Costa.

 

Deixamos a vida correr normalmente, enquanto os pais de Nancy preparavam a mudança.

No dia fatídico, acordou bem cedo e foi pra praça da estação. O trem do Rio de Janeiro partia às cinco e meia. Sentei-me de frente pra gare principal e a fim de desafiar os pais de Nancy, que, ainda, não haviam chegado.

Em instantes, apareceu toda a família. Nancy o viu e correu em sua direção. Desceu da tora, olharam-se fixamente e ela pegou as mãos dele e as segurou firme.

 

No gesto seguinte, passou a mão direita pelo seu pescoço, puxou-o o rosto e lhe deu rápido selinho na boca. De novo seu mundo veio abaixo. Ela disparou em direção aos pais, e só lá da gare olhou de novo e acenou num demorado adeus. Ficou surpreso: os país, também, o olharam e acenaram.

Estive com Ledinha, que me consolou e entregou o bilhete com o novo endereço de Nancy no Rio de Janeiro, e o pedido: "Não deixe de me escrever". Nos primeiros meses, era alucinante o ritmo das cartas. Depois foi diminuindo e um dia parou. Nunca mais tive notícias de Nancy, até porque mudei também, vim estudar na Capital.

 

Entretanto, todas as vezes que ouço Carlos Galhardo cantar "Nancy", a linda valsa composta por Bueno Arelli e Luiz Lacerda, sinto enorme saudade de Nancy. E roubo a autoria da canção, assumo letra e música. Por costume, sempre que ligo o chuveiro no banho das manhãs canto a valsa. Afinal, é a mais linda história de amor que conheci...

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