quarta-feira, 14 de março de 2018

FASCINAÇÃO PELO VERDE-OLIVA (2009)

 

 

Ele não sabia explicar aquela fascinação que sentia por uniformes militares das Forças Armadas. Aquelas roupas de combate, estilizadas em camuflagens; os capacetes redondos, incomuns com fios de náilon entrelaçados em cima, onde se seguravam folhas verdes de plásticos; cintos largos com o coldre pendurado do lado, preso com estilo, igual John Wayne nos velhos bangue-bangues, na coxa por grossas tiras de couro, e encapando uma pistola Glock Cal, austríaca, 9mm, de uso exclusivo das Forças Armadas.

 

Não sabia o fascínio que sentia pela pré-candidatura de Bolsonaro à Presidência da República?

 

Quanto mais estrelas nos ombros, mais condecorações no peito, mais o uniforme o fascinava. Não se importava qual era a força militar do uniforme.Entretanto, tinha certa preferência, bem subliminar, pelos Fuzileiros Navais.

 

Fazia restrições: detestava o mar ou voar naqueles mastodontes, sem conforto, que via no cinema, cheios de para-quedistas e armas.  E os jatos supersônicos? Nem pensar.

 

Nos grandes desfiles militares, acordava cedo. Escolhia o melhor lugar e ali esperava horas e horas até o início do evento. Não perdia nada. Ah, aquele "passo de ganso"! O garboso soldado, de fuzil 762 no ombro direito, olhar firme no horizonte.

 

Chegou a imaginar o pior. Pensou até em procurar um psiquiatra. Talvez essa fascinação fosse fruto de seu lado feminino.

"Que nem empregadinha doméstica, que morre de amores por qualquer uniforme que passe à sua frente" lembrou-se da discriminação condenável que assistia em seus tempos de menino do interior.

 

Com os diabos! Não era empregadinha doméstica! Tinha escritório bem montado e confortável como diretor em uma famosa multinacional. Nada de bicha! Seu currículo hétero constava as mulheres mais gostosas e bonitas do mundo social. Todas passaram por sua cama redonda com vidro no teto e não reclamaram nada.

 

Mas como se sentia bem num papo descontraído com alguém do ramo militar! Claro que devidamente paramentado. Gostava de ouvir as histórias do corajoso infante e acreditava em todas elas; as aventuras entre cobras e jacarés e onças nas selvas amazônicas em defesa das fronteiras nacionais ou nas tropas de intervenção da ONU.

Se pudesse, gostaria de estar no lugar do narrador.

 

Sentiu-se seguro ao passar pelos soldados da Polícia Especial do Exército, fortemente armados no pátio do banco para aonde se dirigia. Imaginou que davam proteção a alguma operação financeira da instituição. Foi quando o barulho das freadas e o cantar dos pneus chamaram sua atenção.

 

Assustou-se com a chegada do "Caveirão" do BOPE, Batalhão de Operações Especiais; dele desceram vários PMS aos gritos, mandando o pessoal do Exército jogar as armas no chão.

 

Ele não entendia nada, até se fixar nos soldados que vira antes. Então, algo lhe chamou imediatamente a atenção: em vez dos tradicionais coturnos, usavam simples botas sertanejas desenhadas, daquelas de rodeios. Desenvolvia-se um assalto ao banco.

 

Os falsos soldados reagiram e o fogo cruzado começou. Antes que se jogasse no chão, deitado e imóvel, como se recomenda nessas ocasiões, sentiu forte dor no peito. Caiu morto, atingido por uma bala perdida.

A perícia confirmou depois que a bala saíra de uma pistola Glock Cal, austríaca, 9mm, de uso exclusivo das Forças Armadas.  MORREU feliz! Esta felicidade era perfeitamente notada no sorriso aberto que mostrava ao ser colocado dentro do saco plástico de transportar cadáveres.



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