quinta-feira, 15 de março de 2018

SERRA DA BOA ESPERANÇA MEU ÚLTIMO BEMB

O sambista carioca, Lamartine Babo, autor de todos os hinos dos clubes de futebol do Rio de Janeiro, conta que certo dia recebeu uma cartinha bem melosa de amor da cidade mineira do Sul de Minas, chamada Boa Esperança.  Como sempre fazia nesses casos de correspondência de ouvintes de seu programa na Rádio Nacional respondeu ao vivo com a mesma intensidade e profundidade de carinhos nas palavras.

O tempo passou e as cartinhas de Boa Esperança não paravam de chegar. Sempre no mesmo tom romântico, com pedidos de músicas, preferencialmente aquelas de sua autoria. Tal situação durou vários anos e inspirava Lalá a fazer mais músicas românticas como "Eu sonhei que tu estavas tão linda". 

Fazia mais sambas, além de suas produções especiais para o Carnaval, cantadas por Francisco Alves, como Linda Morena. No Carnaval continuava fera e enchia os bolsos de Chico Alves e ele os seus com tanto sucesso: Vaca Amarela, O teu cabelo não nega, Mulata. Aliás, Linda Morena fez sucesso no Carnaval e fora dele: "Linda Morena, Morena, Morena que me faz sonhar, a lua cheia, brilha na areia..."

Quanto mais seu romance com a Garota de Boa Esperança se estendia, mais música Lalá fazia, inspirando-se no romance platônico. Em troca, recebia cartas mais apaixonadas ainda. As palavras lidas  entravam-lhe nas veias, eram levadas pelo sangue e corriam o corpo inteiro. Penetravam-lhe no coração, machucando-o tanto que um dia Lalá resolveu conhecer o amor distante.

Foi à Rodoviária do Rio e há muito custo conseguiu uma poltrona no ônibus leito de uma sexta-feira qualquer. Buscou mais informações sobre Boa Esperança, cidadezinha  pacata do Sul de Minas, para os lados de Poços de Caldas e Varginha.  Ficava às margens do lago artificial de Furnas e tinha, por isso, até uma prainha no centro comercial, debaixo de sua principal atração, a imensa e alta serra.

Lalá chegou de manhãzinha, sol quente e a pique. Ficou hospedado num hotelzinho recomendado à beira da praia. Através do gerente mesmo tentou deslindar e pegar o endereço da fã enamorada. Quis logo  saber quem era aquele amor secreto, cujo nome não lhe fora revelado ainda.

"Quem será este gentil mocinha? " julgou irreverente o modo como falou com o gerente; afinal, como ele iria saber se nem o nome da mocinha, Lamartine lhe passou. Ao preencher a ficha do hotel, Lalá se revelou como o grande Lamartine Babo. Então o gerente soltou aquela gargalhada reveladora: toda cidade conhecia o romance secreto do Lalá com alguém dali. E de cabeça baixa, o gerente revelou para o susto de Lalá: "A mocinha era, na realidade, um mocinho, chamado Leopoldo José".

Lamartine caiu sentado numa cadeira de vime, mas não se abateu fisicamente.  Acabou, também, rindo à beça, do golpe em que caíra.

Quis conhecer de imediato o inteligente Leopoldo, autor de cartas amorosas maravilhosas e que renderam várias músicas a Lamartine.

O gerente do Hotel pegou o telefone preto e convocou o Leopoldo, sem revelar nada, que comparecesse urgente no hotel. E qual não foi o susto do Mocinho, ao entrar no saguão principal e ver Lamartine Babo sentado numa poltrona de couro, todo fagueiro. Foi uma cena especial como exigia o momento: Lalá estava de paletó e gravata, sorridente, numa cadeira especial.

Leopoldo, também, sorriu e se apressou em chegar perto do ídolo e estender-lhe a mão direita. A amizade floresceu e Lalá permaneceu em Boa Esperança por 30 dias. Participou de festas que Leopoldo organizava para apresentar-lhe à sociedade local. Participou de eventos festivos pela cidade afora e até foi conhecer a atração principal de Boa Esperança: sua Serra.

Caminhou lá no alto, acompanhado de milhares de cidadãos carinhos, atenciosos e respeitosos.  Ninguém falava de  maneira jocosa do teatral romance e nem acreditava que houvesse romance homossexual entre os dois protagonistas. O contexto da amizade foi mantido irretocável: a de um fã distante de um fabuloso compositor nacional. Aliás, este romance naqueles tempos não teria como vingar. No entanto, se acontecesse nos dias atuais, até beijo na boca em plena praia, todos veriam..." Lamartine Babo deixou Boa Esperança, ávido de retornar ao seu Rio de janeiro, no trigésimo  dia.  Antes da despedida, subiu em companhia de Leopoldo às grimpas da Serra e por lá caminhou sempre com uma cadernetinha às mãos. Chegando ao Rio de Janeiro, o poeta Lalá compôs  "Serra da Boa Esperança", canção gravada por Francisco Alves e muitos outros e que fez sucesso imediatamente pelo Brasil afora:

Numa de suas partes, a canção  diz: "Serra de Boa Esperança, uma esperança que encerra; no coração do Brasil um punhado de terra...Serra da Boa Esperança o meu último bem; parto deixando saudade, saudade levando, mortas caídas na Serra, lá perto de Deus;Ó minha Serra, eis a hora do Adeus, vou-me embora, deixo a luz do meu olhar, nos teus". (FIM)

 


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Escolha a melhor forma de se identificar em Comentar como: Depois pitaque à vontade.