segunda-feira, 30 de abril de 2018

CONTO DO PRÓXIMO LIVRO

 

HISTÓRIA DE AMOR

(Flávio Anselmo - 24-10-13)

 

O sol forte incomodou os olhos. Puxei o quepe que compunha o uniforme do ginásio, tentando evitar os raios diretamente sobre a vista. De nada adiantou. Num gesto automático, tentei localizar o sol para evitá-lo sob alguma marquise.

 

Então a vi na janela de sua casa. Linda como uma rosa vermelha dependurada, sozinha, num galho da roseira. Ela, também, me olhou. E sorriu. Os raios solares se multiplicaram no branco do sorriso. Só que não me incomodaram. Pelo contrário, me fizeram bem.

 

-Preciso conhecer esta menina. Como será que se chama?- pensei.

 

Tive sorte. Vestida com o uniforme do nosso ginásio, a minha colega de sala, Ledinha, apareceu de repente e tocou a campainha do apartamento da musa. Ela sumiu da janela e alguns minutos depois, eu a via, atônito, surgir como anjo logo à frente. Vestida como Ledinha. Estudava então no mesmo ginásio que eu.

 

Imaginei que Ledinha fosse apresentar-nos. Que nada! Nem olhou pros lados e saiu em apressados passos na direção da praça principal.

 

-Isso, também, seria felicidade demais - pensei de novo.

 

Não é que após as aulas, Ledinha me trouxe o recado. Era dela,

Nancy.  Enfim soube seu nome.  Ledinha, então, me revelou:

-"Nancy quis saber tudo sobre você, seu nome, sua idade e se você tem namorada? Ela até me pediu que o convidasse para você ir hoje às sete da noite à porta do prédio onde ela mora".

-" Mas tem que ser antes do pai dela chegar, pois ele não gosta de vê-la papeando com rapazes estranhos. Portanto, não se  atrase" - alertou Ledinha.

 

No horário combinado, eu estava lá. Tive que inventar uma desculpa em casa para minha mãe, também,me deixar sair, e voltar depois das dez horas.

Lá em casa, o sistema era durão; menor de idade podia sair às 7 da noite só para visitar alguém, ou ir à Igreja,ou aos terços.

Dormia cedo e acordava de madrugada por que as aulas se iniciavam às sete da manhã.

 

Minha desculpa para minha Mãe:  "iria à tal reza noturna da Catedral e levei meu irmão caçula de 4 anos comigo. Tive que comprar uma caixinha de estalinho para ele, senão ele desmentiria  tudo na volta. Menino linguarudo!"

 

Nancy  já estava na janela à espera. Desceu e nos apresentamos, oficialmente. Nancy me disse que ela tinha 12 anos. Da minha idade. Mas sua carinha era de uns 10 anos, no máximo.

 

Conversava como gente grande. Custei a acompanhar o ritmo de suas ideias.O papo girava em torno do ginásio, da família, do pai bravo, e como viera morar em minha cidade, no que trabalhava seu pai. E me questionou as mesmas coisas, numa rapidez tão grande que quase não tive tempo de responder.

 

Ao meu lado, atento, meu irmão caçula copiava tudo. A certa altura, cansado daquele papo, pediu pra fazer xixi. Indiquei-lhe a árvore mais próxima e o sem-vergonha fez xixi virado pro nosso lado.

 

Depois, tirou estalinhos da caixinha e passou a atirá-los em nossos pés enquanto perguntava à Nancy: "conhece este brinquedo?". Como teve a devida atenção, meu primeiro encontro com Nancy tornou-se barulhento estouro de estalinhos e gargalhadas ao menor gesto engraçado.

 

Tudo parou com a chegada do Pai dela chegou. Olhou-nos com a fisionomia fechada e apenas falou:

-"Nancy, suba".

 

Fui embora, envergonhado, e preocupado com a situação de Nancy, Naquela época, criança de 12 anos não podia nem pensar em namorar. Mesmo tentando enganar os pais com brincadeiras inocentes como jogar estalinhos na companhia do namorado e do irmão caçula dele.

 

Nancy passou a ser vigiada de perto. Chegava à janela, num horário combinado entre nós, por meio de bilhetinhos que trocávamos via Ledinha. namorávamos. Eu dava um jeito de passar pela avenida onde ela morava, jogava-lhe sorrisos, olhares amorosos e só.

Um dia descobrimos que podíamos encontrar à tarde, lá na Praça da Estação e brincar nas toras da produção de dormentes para estrada de ferro, espalhadas pelo logradouro.

 

As desculpas seguintes, na casa de cada um, era de ir estudar com alguém. Ledinha nos acompanhava sempre. Meu irmão caçula, nunca mais.

 

Nas tardes de domingo, acostumávamos ir às domingueiras no Clube Municipal, porém receosos de sermos vistos e denunciados aos pais. Deliciávamos com os pares de rostos colados e as músicas românticas. Nunca nos aventuramos dançar assim: éramos crianças; e eu não sabia dançar. Dois pra lá, dois pra cá. Dava não.

Nossos bilhetes, trocados via Ledinha, em envelopes lacrados, eram de romantismo aquém das nossas idades. De onde tirávamos tanta coisa bonita assim pra revelar um pro outro?

 

Não posso falar por ela, no meu caso passei a ler com maior frequência as revistas de fotonovelas e copiava os trechos mais românticos. Escolhíamos nossas músicas e as revelava em assobios que eu, julgava, cheios de técnica, ao passar embaixo de sua janela, a qualquer hora do dia. Fora, claro, dos horários das aulas.

 

Me lembro que Nancy me presenteou com o lindo anel que ela usava no anular da mão direita. Presenteou-me é força de expressão. Jamais faria isso porque não teria como explicar aos seus país o sumiço da joia, que lhe deram no aniversário de 10 anos. Ela dizia assim:

-Enquanto estivermos juntos, a joia é sua, fica no seu dedo mindinho",  pois não cabia no meu anular.

 

Eu sempre me despedia dele, com beijo apaixonado e dizia: "até amanhã minha bela joia" e olhava Nancy docemente pra que ela entendesse o dúbio sentido da despedida.

 

Certa vez, tivemos licença pra aceitar o convite das amigas que formavam a Banda Cor de Rosa, só de garotas. Íamos assistir  show delas, domingo às seis da noite, na paróquia de um bairro retirado.

 

Justifica esta explicação: a Cor de Rosa era especializada em rock e bossa nova, e seu objetivo sempre foi beneficente. Tocava de graças em festas de aniversários. Porém em acontecimentos sociais chiques ou nas apresentações em paróquias vizinhas, cobrava  cachê fuleiro, visando levantar fundo pras obras assistenciais da Igreja.

 

Noite de quase tragédia total. Na carroceria do caminhão do tio da líder da Banda, íamos estrada sem asfalto, de terra mesmo, aos trancos e aos pulos, na base da molecagem. A recomendação geral era de que nos assentássemos no chão da carroceria. A fim de impressionar Nancy, eu me assentei na beirada da carroceria.

 

No dedo mindinho, a joia presenteada. Num dos solavancos, o anel chegou à ponta do dedo e estava para cair na estrada. Fatalmente se perderia. Tive presença de espírito ao recolher o dedo e impedir que o anel passasse da última falange. O susto passou sem que ninguém percebesse a situação.

 

Na rapidez que movi meu corpo, a calça nova feita sob medida e presente da Mamãe prendeu-se num prego da carroceria e rasgou-se num imenso L. Como eu faria no salão paroquial? Com aquele rasgão nos fundilhos? Qual desculpa daria em casa,  eu que já havia quebrado o balanço do relógio de pulso, Monza 15 rubis, presente do meu pai, exatamente ao exibi-lo pra outra namoradinha?

 

O problema do salão paroquial resolvi com a blusa de frio do amigo Roberto, que amarrei na cintura e cobri o rasgão. Ninguém entendeu lá na festa porque o friorento do Roberto rangia os dentes e eu não lhe devolvia a blusa, amarrada na cintura.

O difícil foi resolver o problema em casa. Bem que tentei ao esconder a dita calça no fundo do guarda-roupas.

Mamãe deu falta dela e de tanto procurar encontrou-a toda amassada. Dei a explicação mais sem lógica. Mamãe mandou cerzir o rasgão e obrigou-me a sair com aquela maldita calça de fundilhos rasgados por muito tempo ainda.

 

O maior susto que Nancy e eu vivemos foi num domingo à tarde. A cidade adormecia depois do ajantarado, regado a cerveja Malzbier, para mulheres adultas, guaraná Antártica para criançada, e na mesa farta com pratos de frangos assados, macarronada à bolonhesa, tutu à mineira e farofa de ovos. Os adultos abriam o apetite com vinhos nacionais ou pinga da roça.

 

A turma que não dormia, aproveitava pra subir o morro e acompanhar partida de futebol do principal time da cidade. Nancy e eu fugimos de casa. Fomos para o Jardim Grande.

Menina recatada, não aceitou meu convite para namorar lá dentro do Jardim. Preferiu correr os riscos de passear em volta dele, inocentemente. Só que alguém nos viu, naquela animada palestra e telefonou para o pai dela.

De repente, eis que surge a fera ao meu lado. Passou por nós, sem dizer nada, e apenas olhou Nancy. Tossiu ou resmungou, sei lá. Não deu tempo de entender. Ela se virou e saiu num pique em direção à sua casa. 

 

Falei aí em telefone? Lembrei-me: não havia telefone antes na minha cidade. Foi nesse período que o grupo de empresários se uniu e criou a Telefônica local. Coisa bem rústica e de poucos usuários. Nancy me mandou bilhete informando que fora instalado aparelho na sua casa e me perguntou se lá em casa, também.

 

Demorou uns dias, e chegou aquele monstrengo preto, feio, sem disco de chamada. Era assim: você tirava o fone do gancho e a voz feminina o atendia. Perguntava pelo número que queria chamar e completava a ligação. Quando a voz era de adulto, a telefonista costumava perguntar: "ligação de pessoa a pessoa". Então você dava seu nome e com quem queria falar.

 

No meu caso,  aquela voz de taquara rachada, na mudança dos 12 anos, não conseguiu ligar pessoa a pessoa. O macete era engrossar a voz e tentar enganar a moça. Às vezes ela completava, e, com certeza, ficava na linha ouvindo nossa conversa. Diante da pureza do namoro da época, podia quando muito ligar para meu pai e avisar que a conta do mês seria maior, posto que alguém, com voz de rapazote, namorava ao telefone. Papai, um bonachão, apenas ria e dava rédeas.

 

Após o incidente no Jardim Grande, o Pai da fera entendeu que a marcação sobre pressão não adiantaria e que ela já chegara aos 14 para 15 anos. Melhor deixar essa brincadeira acontecer na porta do prédio. E assim foi feito. Contudo, esta felicidade durou apenas mais de dois anos. Até que chegou o bilhete com a triste notícia, depois das aulas.

-Papai decidiu que vamos mudar para o Rio de Janeiro, mês que vem. Ele vai ser sócio do meu tio numa empresa de tecidos. Já sofro de saudade.

 

Tive vontade de correr para casa e colocar no meu toca-discos o 45 rotações de Maysa, que de um lado tinha "Meu mundo caiu", e do outro "Ouça". Assim o fiz: corri para casa, abracei o travesseiro e chorei. Eu gostava muito daquela menina. Pensava nela o dia todo. Nos meus cadernos escolares, sempre que terminava as redações ou qualquer outro dever, colocava  no canto direito da página suas iniciais: NTC - Nancy Tavares Costa.

 

Deixamos a vida correr normalmente, enquanto os pais de Nancy preparavam a mudança.

 

No dia fatídico, acordei bem cedo e fui à praça da estação. O trem do Rio de Janeiro partia às cinco e meia. Sentei-me de frente para  a gare principal e a fim de desafiar os pais de Nancy, que, ainda, não haviam chegado. Em instantes, apareceu toda a família. Nancy me viu e correu em minha direção. Eu desci da tora, nos olhamos fixamente e ela me pegou às mãos, segurou-as firme.

 

No gesto seguinte, passou a mão direita pelo meu pescoço, puxou-me o rosto e me deu rápido selinho na boca. De novo meu mundo veio abaixo. Ela disparou em direção aos pais, e só lá da gare olhou de novo pra mim e acenou num demorado adeus. Fiquei surpreso: seus país, também, me olharam e acenaram.

Ninguém pode imaginar como compareci às aulas nos dias seguintes. Nancy estava em outra turma, mas a gente sempre se encontrava no recreio.

 

Estive com Ledinha, que me consolou e entregou o bilhete com o novo endereço de Nancy no Rio de Janeiro, e o pedido: "Não deixe de me escrever". Nos primeiros meses, era alucinante o ritmo das cartas. Depois foi diminuindo e até parar.

 

Nunca mais tive notícias de Nancy, até porque mudei, também, fui estudar na Capital.

Entretanto, todas as vezes que ouço Carlos Galhardo cantar "Nancy", a linda valsa composta por Bueno Arelli e Luiz Lacerda, sinto enorme saudade de Nancy. E roubo a autoria da canção, assumo letra e música.

Por costume, sempre que ligo o chuveiro no banho das manhãs canto a valsa. Afinal, é a mais linda história de amor que conheci...

 


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