quinta-feira, 3 de maio de 2018

CONTO DO PRÓXIMO LIVRO DE FLAVIO ANSELMO

O ANJO QUE ME TEM  SALVADO
Flávio Anselmo (2018)

  

O barco naufragou a uns três quilômetros da desconhecida ilha

Ela não constava no mapa do Capitão,

Nem no roteiro dos navegantes emergentes.

Antes que a embarcação afundasse, Jairo pulou nágua.

Corajosamente, diga-se de passagem, pois nadava mal.

Batendo os braços para manter-se à tona, Jairo esbarrou

numa mesa de Ipê, usada na sala de jantar especial da

tripulação e dos convidados. Agarrou-se a ela.

 

Saiu da água e se estendeu sobre a prancha de madeira de lei,

Com o braço direito remava e ia em direção à pequena ilha.

Chegou cansado e sem  força para sair da água e levar a prancha que o salvou à praia de areias brancas, de pequenas dimensões.

Salvou-se de morrer afogado, porém algo lhe dizia no íntimo

que não escaparia da solidão, da fome e do frio da pequena Ilha.

 

Ao ficar em pé, analisando a baía, de águas límpidas e ondas diminutas, na entrada para ilha, viu a cidadela de paredões íngremes que cercavam a baía.

-Será que há vida por aqui? - perguntou-se enquanto examinava os detalhes da ilhota. Aí ouviu o grito! -"-Ei, moço. Você está bem? Machucou-se?"

 

Na ponta da prainha o vento balançava a vasta cabeleira loura de uma mulher de meia idade. Seu vestido transparente permitia que Jairo visse o biquíni  colorido que ela usava por baixo.

Ele acenou, e fez menção de aproximar-se. A moça correu em sua direção e o abraçou.-"Que bom, amigo, você veio quebrar minha solidão de anos aqui na Ilha do Amor. Seja bem vindo".

 

Então ela se pôs a examiná-lo em detalhes. Girou seus cansados braços em busca de algum ferimento ou de fratura. Mexeu-lhe no pescoço, girando-o. Por fim perguntou: "Está com sede, ou com fome?".

Resposta dele:"-Muita sede e muita fome, não bebo e não como há vários dias."

-"Então vamos lá em casa, atrás daquele morro e eu lhe darei água gelada na fonte e comida de caça, acompanha  água de coco, banana e outras frutas silvestres." Prometeu e cumpriu.

 

Jairo bebeu muita água da fonte; água de coco e alimentou-se de frutas, legumes e carne de javali, que a moça mesmo caçou. Aceitou as roupas secas que  ela lhe ofereceu e preocupou-se então a saber o nome de seu Anjo da Guarda.

 

"Eu me chamo Maria. Sou filha do Brasil e estou aqui perdida desde o ano 2000, quando o navio em que fazíamos o cruzeiro pelo Caribe bateu num enorme recife e afundou. Apenas eu me salvei por ocupar o barco a remo, colocado na proa."

Ela contou, também, que desde então nenhum navio ou barcaça aventurou-se por aquelas bandas.  Maria sempre ocupava estratégico ponto no alto dos paredões e vigiava a entrada da baía. Foi assim que ela acompanhou a chegada de Jairo e correu para ajudá-lo.

 

Agradecido, Jairo confessou: "Eu me considerava morto antes de encontrar a mesa que me serviu de prancha. Em determinados momentos, lembrava-me da infecção hospital que tive na época da cirurgia cardíaca e dos 135 dias que passei, sendo outros 45 em coma,  no Hospital, após a cirurgia na cabeça para estancar as hemorragias que me inchavam o cérebro."

 

 Ele contou que na UTI viu seu espírito sair do corpo e subir ao Paraíso, onde se encontrou com os país, e os irmãos que haviam falecidos nos últimos anos. Quando correu para abraçá-los a mãe Augusta avisou: 

"Alto lá, meu filho, você não morreu. Deus não o chamou, ainda. Volte ao seu corpo no hospital." 

 

Por isso, crê que não morrerá tão cedo, Deus não quer. Salvou-o agora, mais uma vez, no naufrágio.

Tinha, também, certeza absoluta que se salvaria  dos percalços da ilha, graças à Maria que lhe dava água da fonte, água de coco, diversos legumes, frutas e carne de caças.  Definiu a situação desta forma: "O Anjo que me levou ao Paraíso, agora cuida de mim aqui na Terra. Jamais irei para a Eternidade."

 (FIM)

 

 


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