sábado, 5 de maio de 2018

ESCONDAM SEUS MILHÕES, HOJE EXISTEM ALTAMIRANDOS EM EXCESSO


*A VONTADE DO FALECIDO*

Seu Irineu Boaventura não era tão bem-aventurado assim. A sua saúde não era lá para que se diga; 

pelo contrário, seu Irineu ultimamente já até curvava a espinha, e merecia, por parte de vizinhos mais
irreverentes, o significativo apelido de "Pé-na-Cova".

 

Significativo, porque seu Irineu Boaventura, realmente, passava a impressão
de que, brevemente, iria comer capim pela raiz; isto é, iam plantar
ele e botar jardinzinho por cima.

Se havia expectativa em torno do passamento do seu Irineu?

Havia sim. O velho tinha os seus guardados. Não eram bens imóveis, pois seu Irineu conhecia de sobra Altamirando, seu sobrinho.

 

Sabia que, se comprasse terreno, o nefando parente se instalaria nele sem a menor cerimônia.

De mais a mais, o velho era antigão: não comprava o que não precisava e nem
dava dinheiro por papel pintado.

 

Dessa forma, não possuía bens imóveis nem ações. A erva dele era viva.

Tudo guardado em pacotinhos, num cofrão verde que ele tinha no escritório.

Nessa erva é que a parentada botava olho grande, principalmente depois
que o velho começou a ficar com aquela cor de bonita tonalidade
cadavérica.

 

O sobrinho, embora mais mau-caráter do que o resto da família,
foi o que teve a atitude mais leal. Numa tarde em que seu Irineu
tossia muito, perguntou de supetão:

· "Titio, se o senhor puser o bloco na rua, pra quem é que fica o seu
dinheiro, heim?"

O velho, engasgado de ódio, chegou a perder a tonalidade cadavérica e ficar
levemente ruborizado, respondendo com voz rouca:

-" Na hora em que eu morrer, você vai ver, seu cretino".

Alguns dias depois, deu-se o evento. Seu Irineu pisou no prego e se
esvaziou. Apanhou resfriado, do resfriado passou à pneumonia, da
pneumonia passou ao estado de coma e do estado de coma não passou mais.
Levou pau e foi reprovado.

- "Bota Titio na mesa da sala de visitas" - aconselhou Altamirando; e começou
o velório. Tudo que era parente com razoáveis esperanças de herança foi
velar o morto.

 

Mesmo parentes desesperançados compareceram ao ato fúnebre, porque estas coisas vocês sabem bem como são: velho rico, solteirão, rende sempre um dinheirão.

 

Horas antes do enterro, abriram o cofrão verde onde havia 60 milhões em cruzeiros, vinte em pacotinhos de "Tiradentes" e 40 em pacotinhos de "Santos Dumont".
-" O velho tinha menos dinheiro do que eu pensava"- disse alto o
sobrinho.
E logo adiante acrescentava baixinho:
-" Vai ver, gastava com mulher".

Se gastava ou não, nunca se soube. Tomou-se - isso sim - conhecimento de
uma carta que estava cuidadosamente colocada dentro do cofre, sobre o
dinheiro. E na carta o velho dizia:

 

- "Quero ser enterrado junto com a quantia existente nesse cofre, que é tudo o que eu possuo e que foi ganho com o suor do meu rosto, sem a ajuda de parente vagabundo nenhum."

E, por baixo, a assinatura com firma reconhecida para não haver dúvida: Irineu de Carvalho Pinto Boaventura.

Pra quê! Nunca se chorou tanto num velório sem se ligar pro morto. A
parentada chorava às pampas, mas não apareceu ninguém com peito para
desrespeitar a vontade do falecido. Estava todo o mundo vigiando, e lá
foram aquelas notas novinhas arrumadas ao lado do corpo, dentro do caixão.

Foi quase na hora do corpo sair. Desde o momento em que se tomou
conhecimento do que a carta dizia, que Altamirando imaginava o jeito de
passar o morto pra trás. Era muita sopa deixar aquele dinheiro ali pro
velho gastar com minhoca.

 

Pensou, pensou e, na hora que iam fechar o caixão, ele deu um grito de "pera aí". Tirou os 60 milhões de dentro do caixão, fez um cheque da mesma importância, jogou lá dentro e disse:
"Fecha. Se ele precisar, mais tarde desconta o cheque no Banco".


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