terça-feira, 12 de junho de 2018

SERENATA DE WALDIR AZEVEDO

SOMBRAS E NADA MAIS
(Conto por Flávio Anselmo
junho/2108)

Flávio analisava a falta de movimento nas ruas do bairro, de fama bem ruim na cidade, em consequência dos bárbaros crimes de  assalto seguido de morte sem a prisão dos seus autores que aconteceram na região nos últimos meses.
Eram apenas 21h e não havia viva alma  naquelas ruas escuras, de muitas árvores impedindo a claridade da lua cheia. Nem cadeiras nas portas das casas, ocupadas pelos moradores em animados bate-papos, coisa comum nas cidades do interior de Minas Gerais.
O carro simples de Flávio é Fusquinha 73, de lataria renovada, motor 1.5, bom de velocidade, mas bebedor de combustível. Fora rebaixado, com rodas magnéticas e largas. Invejável, e Flávio não o negociava, apesar das propostas, de jeito nenhum. Ligou o som e abriu os vidros. Entrou em uma rua esburacada e mais escura ainda.
Ouviu a cantoria. Vinha da Igreja Universal, lotada, apesar do calor e do pouco espaço dentro dela. Muitos fiéis espalhavam-se pelo calçamento. Flávio pensou: "Ainda bem que apareceu gente na calçada, isso me preocupava;"
Estacionou o fusca vermelho do outro lado da rua, em frente à Igreja. Atravessou a rua, parou em frente o enorme portão de madeira. Conferiu o número da casa e apertou o escondido interfone. Uma voz rouca o atendeu: --
" -Pois não, quem é?"
_"Sou eu Suely, Flávio. Queria falar com a Jane, ela está?"
-"Já dormiu. Trabalhou bastante durante o dia, levou e buscou a mãe ao Hospital, onde ela esteve internada com pneumonia por três dias. Falou que ia dormir cedo, estava muito cansada."- revelou a voz rouca.
-"Muito bem, avise-a que estive aqui para trazer-lhe um violão novo e bonito. Boa noite e passe bem."
Ele ouviu o clique do telefone  ao ser desligado e voltou para o Fusquinha. O que iria fazer , pois só poderia voltar na manhã seguinte?
Lembrou-se de passar na padaria e confeitaria, pois tinha fome. Dirigiu-se ao local e antes de entrar deu uma geral na segurança interior;  não estava a fim de confusão. Pouca gente lá dentro, a maioria jovem com latinhas de cerveja e sanduiches.
Flávio entrou e sentou-se na mesinha de canto. Logo atendido e pediu, também, uma latinha Skol  e sanduiche de pernil, com muita cebola.
Após ouvir a conversa alta dos jovens e suas músicas modernas e barulhentas,  pediu a conta e decidiu insistir na entrega do violão à Jane.
Retornou à casa dela, porém já não havia vaga para estacionar o Fusca, nem do outro lado em frente à Igreja. Deixou o carro mais retirado e colocou todas as trancas e alarme que possuía.
Terminado o serviço preventivo de segurança do veículo, caminhou cabreiro;  olhava para atrás e de lado, diminuía os passos quando se aproximava de alguma árvore de tronco imenso com receio de ter assaltante atrás dela.
Tocou o interfone e nenhuma voz rouca, desta vez, o atendeu. Porém, o portão foi aberto.
Os latidos esganiçados do pequeno, bonito e bravo Lulu da Pomerânia, encheram-lhe os ouvidos, mas não o intimidaram. O cãozinho o cheiraria e deitaria aos seus pés.
Jane considerava o pequeno cão como membro da família.
O Lulu da Pomerânia também chamado de Spitz Alemão Anão, é cachorro gracioso, inteligente e ativo. A raça precisa de limites para não ficar agressivo.
A família Spitz Norte do Grupo AKC, de Toys, na área de origem, tem a função original de companhia para os donos. O tamanho médio do macho é 20-27 de altura  e comprimento.
Conforme o esperado, Lulu fez-lhe festa, pulou e por fim correu em direção à casa.
Flávio raciocinou: "Diabo, quem abriu o portão? "
Passou pela porta principal, foi escorando na parede até chegar à janela do quarto de Dona Abigail, onde, com certeza, Jane estaria. Não a chamaria, apenas deixaria o violão encostado à janela com bilhete dentro.
Tomou tais providências e já se preparava para voltar ao carro ao ouvir a pergunta:
- "Quem está aí fora"?
Respondeu suave e levemente: "Sou eu, Jane. Vim entregar-lhe um novo violão.".
-"Violão, que violão? - perguntou a voz rouca.
-"Que eu comprei para substituir aquele que eu quebrei sem querer".
-"Não lhe pedi para fazer isso."
-"Mas eu quis fazer; sei o quanto você gosta de ter violão."
-"Gostava do antigo, que foi do meu pai e ele me deu de presente."
-"Lamento, mas garanto que ele ficará feliz em saber que você aceitou que eu fizesse a reposição".
-"Como você sabe disso...?"
-"Falei com ele, antes de comprar o violão. Eu estava  chateado e o evoquei para conversar comigo. Quis saber, também, se ele estava decepcionado comigo por ter fugido de você, quando você precisava de mim e de apoio".
-" Sei que você não quer mais me ver, nem pintado de ouro, porém seu Pai recomendou que eu a procurasse com jeitinho e pedisse perdão que você aceitaria; me perdoaria e toparia recomeçar outra vez..."
-"E você acha que vou acreditar nesta história, Flávio?"
-"Espero que sim, pois você acreditou em mim quando lhe contei a experiência que tive na UTI do Hospital, ao ver o Espírito sair do meu corpo, acompanhar o Anjo e parar no Paraíso".
Flávio disse mais: -"Sabe que eu acredito nas forças sublimes do Céu e que costumo evocar os seres nos quais acredito pela pureza do seu Espírito; eles estão soltos pelo mundo a fim de ajudar às pessoas queridas."
Após esta resposta, Flávio colocou o violão na cadeira da varanda e começou a andar em direção ao portão. De repente, assustou-se com a porta principal abrindo-se e Jane surgiu de camisola transparente, a mesma que usava quando dormiam juntos.
Ela falou primeiro: "- Está indo embora? Senta aí e vamos testar este violão para ver se presta"
Imediatamente pegou o aparelho, sentou-se no banquinho de madeira e o dedilhou. "Está afinado, você o afinou?"
"-O que é isso, Jane, você sabe que de cordas eu só toco sino e mesmo assim muito mal. Quem o afinou foi o dono da loja onde o comprei em Caraúna".
.-"Então vamos fazer uma serenata para Mamãe, que está apenas meio sonolenta", ressalvou Jane e logo perguntou:
-"Qual música você quer e que eu sei tocar ou acompanhar?"
-"A canção que o seu Pai gostava de cantar à noite para a sua Mãe, antes de pegarem no sono"
-"Qual mesmo?"
-"Você sabe, pois você quem me contou esta história. Não finja de desentendida. Sole logo este samba-canção, sucesso de Francisco Alves".
 Jane escolheu o tom, dedilhou o violão e fez a introdução; Flávio primeiro declamou e depois cantou:
Quando a noite descer
Insinuando um triste adeus
Olhando nos olhos teus
Hei de beijando teus dedos dizer
Boa noite amor
Meu grande amor
Contigo eu sonharei
E a minha dor esquecerei
Se eu souber que o sonho teu
Foi o mesmo sonho meu
Boa noite amor
E sonhe enfim
Pensando sempre em mim
Na caricia de um beijo
Que ficou no desejo
Boa noite meu grande amor
(bis)
amanho

Quando Flávio preparava para entrar na segunda estrofe, ouviu-se o barulho  na sala. A porta principal abriu-se e surgiu no portal a figura impagável de Waldir Azevedo.
Jane parou de tocar e exclamou: "Papai, que  bela surpresa, quem o evocou agora?"
-"Eu mesmo, minha filha querida. Se lhe pedi lá dentro para vir receber o violão comprado por Flávio e se a recomendei vir aqui ouvir dele o pedido de perdão ao entregá-la o violão, porque eu ficaria fora de uma bela serenata para Abigail, o grande amor da minha vida?"
-" Quando o Flávio começou a imitar Francisco Alves resolvi dar as caras para evitar que ele escorregasse ou que você desafinasse, o que, na realidade, aconteceu. Você tirou em Dó Maior e o Flávio cantou em Lá Menor. Me dá aqui este violão, vou afiná-lo melhor."
Seo Waldir as sentou-se no banco de madeira, pediu ao assustado Flávio que se sentasse ao lado, e soltou a bela tonitruante  voz ,conhecida nas serenatas de Caraúna         ".
-" Boa Noite", também com ele começou declamada; na segunda estrofe virou a valsa famosa de sucesso com Francisco Alves. Lá no quarto, dona Abigail suspirou profundamente e, com dificuldade, virou para o canto da cama a fim de curtir mais a sonoridade do violão nas mãos do amado.A  voz envolvente, madura  e maiúscula ocupava todos os ambientes da casa.
Baixinho, dona Abigail  respondeu: "Boa noite, também, Meu Amor..."






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