terça-feira, 12 de junho de 2018

CONTO POR FLAVIO ANSELMO - TUDO POR AMOR


TUDO POR AMOR
(Flávio Anselmo - 2018)

Jane saiu de casa, em Governador Valadares, quando o sol nem havia raiado; o céu estava coberto de nuvens negras, pesadas, anunciando chuva. Olhou no relógio, 5h30m. Caminhou em direção ao centro da cidade.

No cruzamento das Brs, olhou a placa que anunciava: "BH, 310 km", Parou e analisou. Seu coração passou a bater mais forte e mandou: toma esta direção. .Vá pra Capital.
Jane pensou alguns segundos até responder pra si mesma;
"Porque devo ir? 310 km é chão que não acaba mais; gasto de carro umas quatro horas. De ônibus, seis. A pé, já que não tenho dinheiro aqui no momento, vou gastar quanto?"

Porém, o imponderável falou mais alto e Jane tomou o rumo da estrada. Uns 200 metros depois, ao passar defronte uma simples capelinha de Nossa Senhora Aparecida parou para orar. Viu sentado num banquinho, o jovem vestido de branco, com jaquetão enorme de botões dourados.
Parecia levar uma mochila nas costas, pois o volume era grande.
Ela parou diante dele e perguntou:
"Ó moço, você sabe qual é a distância daqui a BH? "
 E ele, calmamente, olhando em frente, falou:
"Depende do objetivo da Senhora, dona. Se for bom, não está longe. Se for mal, nem de avião chegará na hora certa ao seu objetivo".

Jane disse apenas obrigado, e saiu rapidamente em frente, cuidando para não ser seguida, imaginando que o rapaz fosse louco. Andou curtindo as passadas o que lhe agradou tanto que até dispensou as caronas apareceram.

Foi tão rápido, que sem sentir nada já estava em João Monlevade, onde parou para tomar água e descansar os pés.

Passou pela igreja matriz da cidade e entrou. Ajoelhou na primeira fileira de bancos e mesmo sem rezar suplicou:
"Meu Deus, me mande outro anjo para me levar ao objetivo. Estou cansada, os pés machucados.

Pensou mais profundamente e poetizou do fundo da alma o seu pedido:

"Preciso chegar rápido,
 a tempo de o cupido sua flecha atirar;
 visto que ele tem de retornar também,
tão rápido pra outra flecha acertar"

Uma voz rouca, serena e autoritária falou:
"Não Jane, você começou o compromisso assim e terá de terminá-lo assim".

Ela obedeceu e saiu da Igreja, rumo à  estrada para a Capital.
Cabisbaixa, passou por Carneirinho, a cidade vizinha, e entrou na BR sob o sol escaldante na trilha de asfalto. Não tinha nem conhecimento do que acontecia do outro lado.

DO OUTRO LADO
Flávio desceu o morro onde morava, capengando e se mantendo em pé graças à bengala.. Caminhou devagar, até à Igreja São José no centro da Capital. A porta estava aberta e ele entrou mancando.
 Falou baixinho:
"São José, preciso de sua ajuda, que me arrume anjo que suporte meu peso e me leve nas costas para  longa viagem.".

Ouviu a resposta:
"Não há nenhum anjo disponível para tal empreitada. Este empreendimento é seu e você terá que resolvê-lo sozinho, para mostrar merecimento."
Flávio insistiu:
"Mas não aguento, meu Santo. o Senhor conhece minha história recente".
 Falou de novo a voz rouca-"Então pegue taxi e vá pra Rodoviária e pegue ônibus para o seu destino". -"
- Mas, não tenho dinheiro para a passagem, meu Santo"

O Santo não se deu por vencido:
-Aqui também não temos, a arrecadação de hoje foi pequena. Melhor então que tome o ônibus municipal e volte para casa".
Último apelo:
-Não posso, também, meu Santo. Tenho que cumprir meu objetivo agendado".

E como não ouviu mais nenhum recado, Flávio sentiu que o assunto estava encerrado. Mas não para ele...Saiu da igreja e foi em rumo ao Anel Rodoviário, onde passa a BR-38l,com destino a Governador Valadares.
Após percorrer umas duas léguas depois de Carneirinho, Jane avistou o caminhão caçamba, com a carroceria ocupada pela metade de peões de alguma obra ali por perto. Havia dispensado tantas caronas, que imaginou não ser desobediência andar um pouco de caminhão e descansar as pernas.
Ao se aproximar, contudo, viu que o ambiente era desfavorável. Os homens mal vestidos, sujos, passaram a fazer-lhe gestos imorais e a assobiarem fiu, fiu.
O caminhão diminuiu a velocidade e Jane aumentou a sua. Passou por eles, ouvindo coisas terríveis, mas não teve medo, nem se avermelhou. Tomou a dianteira. Lá de longe, voltou-se e tornou a olhar o caminhão para ver se ele parara ou se vinha atrás dela. Vinha.
PERÓLA DE RIACHO
.Ao passar por uma curva acentuada, Jane avistou o Oratório de Nossa Senhora das Graças. Parou diante dela e rezou, pedindo:
-" Por favor Senhora, me mande anjo ajudar-me contra estas feras, senão como chegarei ao objetivo",
Ao voltar os olhos para o pequeno oratório, pareceu-lhe ver a Senhora Mãe da Igreja balançar-lhe ligeira e levemente a cabeça. Sorriu e confiou. De repente, o anjo estava ao seu lado. Alto, forte, louro e com  lindo par de asas. Na aproximação do caminhão e dos gritos alucinantes e lascivos, o Anjo pegou Jane e voou.

O caminhão parou rapidamente e os homens foram jogados da carroceria para o leito da estrada. Ninguém se machucou ou morreu, mas todos saíram em desabalada carreira de volta na direção contrária a que vinham.

ENQUANTO ISSO...

No trevo da estrada que dá acesso à Serra da Piedade, Flávio nem imaginava o que se passava a garota com a qual sonhava.
Apenas murmurava docemente:
"Você é Jane, a luz do meu mundo.Perola do meu riacho, onde tudo que quero, eu acho; parte da estrela madrugadora minha, papagaio de papel pro qual dou tanta linha,
que sai do horizonte, entra por céu adentro, captando o vermelho do poente para pintar a estrada dolente que temos pro futuro.

Você é Jane Azevedo, a quem não achei cedo, mas nem tarde veio, pois seu bondoso coração segurou por anos um amor que nunca ninguém jamais viu, sentiu ou sentirá.

Você é Jane,valente como o Pai; vigilante como a Mãe, criadora da excelsa virtude apenas sua; figura ilustrada nas asas do Anjo do Amor, chave da porta central do Céu, traçado que não embriaga, mas orienta o perdido e acolhe o desabrigado".
Quando olhou em direção
ao Portal da Entrada da estrada
que sobe a serra, Flávio notou
o jovem louro, de cabelos
enrolados, enorme trouxa nas
costas e longa camisola de
seda transparente sobre ceroula
de Algodão Ribana Preto M.
-O que fazes aqui. Espera carona
pra subir a serra? -Perguntou
ao moço de camisola.
-"Não, estou apreciando o
movimento e rezando contra
acidentes que acontecem em grande
escala que neste trevo- respondeu ele, com
uma voz doce e mansa.
-"E o Senhor, quer ir à Igreja da Piedade,
ir ao alto da serra?"
-Gostaria - contestou Flávio - porém não
tenho estado físico suficiente para subir
a Serra à pé."
-Quer que eu o leve nas costas-" ofereceu-se
o rapaz ao assustado Flávio- "Nas costas, eu tenho
85 quilos e você tem jeito de ser bem fraco,
como conseguiria tal proeza?"
-"Não vamos andando, vamos voando!"
-"Como? Voando, você tem avião por aqui?"
-"Não meu amigo, tenho asas poderosas. Sou o Anjo
de sua guarda, enviado pelo Nosso Senhor para
ajudá-lo nos momentos difíceis e protegê-lo".
-"Perdoe-me, rapaz, mas qual garantias me dás de
que és enviado de Deus? Nem pareces Anjo do modo
como estás vestido!"
-Então venha, aproxime-se. Vamos partir e não tenha medo, pois nada é mais seguro do que os emissários do Senhor!"

Tão logo Flávio aproximou, o Anjo abriu a mochila e duas enormes asas assomaram-se em suas costas e suas roupas comuns desmancharam-se sendo substituídas por outras em branco,
com trabalhos de renda descendo pelos lados do corpo terminando depois das sandálias douradas e pelos braços até os punhos.
 Ele tomou Flávio nos braços e o colocou com incrível facilidade nas costas. Então pôs-se a bater as asas, num ritmo de paz, feito pomba, e voou em direção à Igreja da Piedade. Lá no espaço reservado aos usuários, o Anjo desceu calmamente com sua carga humana nas costas e ninguém estranhou, ou se surpreendeu. Abriu-se grande espaço e os aplausos aos novos chegados ecoaram pelas montanhas da Serra.
Flávio encaminhou-se para o lado direito onde havia um banco de pedra à beira do barranco mais alto. Vasculhou trechos da BR 381, lá embaixo, até encontrar Cordeirinho. Também viu a imensa pedra demarcando o trevo de saída daquela cidade.
No alto da pedra, assentada e triste, estava Jane.
Ele se concentrou e enviou a mensagem telepática, sem saber que tinha tal poder. Foi o Anjo que o sugeriu:
 -"Fale com ela via telepatia, vocês conseguem. Concentre-se, pois Jane está se concentrando, por sugestão do seu Anjo da Guarda, do outro lado".
Assim, ambos fizeram e se falaram.

DIÁLOGO TELEPÁTICO

-Oi, Flávio querido! Estamos nos comunicando pela primeira vez por telepatia. Existisse tal método há 40 anos, eu teria sofrido menos, pois falaria com você a cada instante. Você está me vendo, mas eu não o vejo. Onde estás?

-Estou na Serra da Piedade, ao lado de Ismael, meu Anjo da Guarda e você, eu vejo, está na saída de Carneirinho com Gabriel, seu Anjo da Guarda. Queres que nos encontremos agora, espera-me aí e vou pedir ao Ismael para voar comigo.

Nem foi preciso pedir nada ao anjo que escutava a conversa. Imediatamente, ele abriu as asas e convocou seu protegido para ir às nuvens e depois a Carneirinho. Tudo foi tão rápido que num piscar de olhos, os dois enamorados já se abraçavam no alto da pedra onde Jane estava. Após se abraçarem e se beijarem bastante, desceram e se postaram quase no meio da estrada. Foi quando alguém gritou:
"olha o caminhão em alta velocidade. Não deu tempo de saírem e a pancada do atropelamento foi ouvida longe."

Imediatamente uma multidão de curiosos foi se formando, além de longo congestionamento de caminhões e carros. Todos procuravam os corpos, que deveriam estar esmagados por ali mesmo. Não achavam nada.
Alguém disse: "Após a pancada, eu os vi voando em direção aquela mata, devem estar lá. Vamos procurar".
Procuraram, procuraram e nada acharam. Só que ninguém imaginou olhar para as nuvens e veria o casal abraçado, inteiro, se beijando e suavemente deslizando. Não veria, claro, a dupla de anjos, mantendo-os unidos em pleno voo, na direção ao litoral brasileiro, onde estão as mais lindas praias das Américas.

Aconteceu assim: "quem avistou o caminhão em alta velocidade foi Gabriel e Ismael e constatou logo que não daria tempo dele desviar do casal e nem do casal sair da direção deles. Os dois anjos rapidamente os jogaram pra cima e se postaram em seus lugares. A forte pancada os jogou na matinha, mas de lá voaram e seguraram Flávio e Jane no ar, saíram voando com eles e apenas disseram- Vamos para as praias, não é de lá que vocês gostam tanto?
"- É....É..".- responderam ambos ao mesmo tempo. Bem felizes.

Fim

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