domingo, 10 de junho de 2018

CONTO - POR FLAVIO ANSELMO


BOLA NAS COSTAS
( 11/8/09)


Lilico entrou no vestiário bem desconfiado. Tudo lhe parecia estranho no seu primeiro dia de trabalho na União Esportiva Tijucana de Futebol de Carimbó. Sair do Corinthians, ainda que das divisões de base após estourar na Copa São Paulo de Futebol Junior como o melhor jogador do torneio, foi pra lá de esquisito.

Os tapinhas nas costas antes dos treinos, os abraços lá na Favela, tudo era incentivo. Nas entrevistas encomendadas, conseguidas por Onofre Beduíno, bicheiro e seu empresário, os homens da Imprensa ratificavam o que ouvia nas ruas:
"Este vai ser craque que nem Zé Maria!"

Quem primeiro o aconselhou a não ficar no Parque São Jorge e se enfiar em Carimbó foi Mano Menezes, treinador do time principal.

"Vá jogar na União Tijucana, esforce e faça um bom campeonato na Segundona. Lá tem tudo que você precisa. Ano que vem, te esperamos aqui campeão".

Ali estava ele: salários triplicados, os pais vieram juntos com ajuda de Beduíno, mas em um vestiário pequeno, um terço de tamanho do vestiário do Parque São Jorge e sem os armários personificados.

Da sala ao lado, separada por uma tela, alguém gritou:

"Ei paulista, vem pegar seu material aqui na portinhola". Era Zeferino, o roupeiro.

"Melhorou" - Lilico falou baixinho. As chuteiras eram novas da Adidas, mesma marca do Timão,; o uniforme de treinamento bonito, colorido e a sua camiseta trazia o número dois às costas. Planejou: " Seria logo titular"; acertou em cheio.

O treinador Lumércio Cícero – primeiro nome formado de Luma, a mãe; e Tércio, o pai, com o segundo em homenagem a Padre Cícero – apitou alto e convocou todos ao centro do gramado. Lilico saía do vestiário quando o doutor Virgílio, que já conhecia dos exames médicos, estendeu-lhe as mãos, desejou-lhe sorte.
O massagista Leopoldino o encaminhou ao centro do campo, onde  esperavam treinador e comissão técnica.

"Sou professor Cícero, o treinador. É assim que todos me chamam e me respeitam. Inclusive a Imprensa".

Lilico soube de cara que chamar o Homem de  "Lumércio", nem pensar. Foram 40 minutos de física com o professor Jésus e depois treino com bola: cada um tinha que mostrar suas qualidades para as deduções do professor Cícero. Lilico driblou, marcou, foi à linha de fundo, fez assistência pra dois gols e, por fim, anotou o dele. Belo chute de fora da área.

-"Ó xente, como o Timão soltou este menino ?. É craque pronto!" comentou Cícero com Zé Fubica, ex-goleador da equipe, agora seu auxiliar; Fubica concordou no balanceio da cabeça em sinal positivo. Lilico era, realmente, feijão sem bicho.

"Se a fama não subir à cabeça desse menino, ele, realmente, vai longe" dizia o  delegado de polícia, Sérgio Bizzoto, o doutor Serjão, temido em Carimbó. A palavra dele tinha força de lei. A curiosidade em razão dos fuxicos pela cidade levou-o tirar a prova dos nove, pessoalmente. Tinha jogado futebol, conhecia craque e ladrão só de botar o olho.

"Subir pra cabeça não sobe não, seu doutor! O Lilico é gente humilde. Bem criado pela família. Somos gente remediada; o pai tem emprego bom na Volks e a mãe é professora. Deram pra ele educação em casa e na escola" repetia Zé Fulgêncio, tio do menino que veio pra ficar com Lilico, já que a família tinha que retornar a São Paulo a fim de trabalhar.

"Espero, espero" disse o delegado enquanto batia em retirada.

Na delegacia encontrou Rebeca à sua espera. Pra delírio dos inspetores, agentes e carcereiros, Rebeca estava sentada na cadeira do chefe, bem à vontade. Pernas em cima da mesa e à mostra. Doutor Serjão chegou de surpresa. Cada qual buscou seu quadrado. Rebeca fora dançarina de cabaré, no Recife, e mexeu com a cabeça do doutor Serjão, que largou tudo – mulher, filhos, roupa, apartamentos, carros – e meteu-se com a amante naqueles cafundós.
 "Onde Judas perdeu as botas..." dizia ela na cara amarrada do pároco local, do pastor presbiteriano, do Juiz de Paz e do Prefeito, críticos abertos daquela relação "imoral que afronta a sociedade decente de Carimbó".
Mas cadê coragem pra alguém dizer isso na bucha, na cara do delegado.

Ninguém disse, nem foi preciso. Determinado dia, cansado das cobranças e da gastança da amante, doutor Serjão pediu exoneração e aceitou a proposta de ser procurador de Lilico. Voou pra Portugal e conseguiu proposta do Sporting de Lisboa. Como dobrar, no entanto, o Corinthians? Contou com a ajuda de Cícero que entrou de sócio no negócio.

Chegou relatório a São Paulo sobre a queda de produção do atleta, sempre com contusões sérias, por falta de empenho nos treinos, e motivou a diretoria do Parque São Jorge aceitar a proposta de 300 mil euros vendê-lo e dar qualquer trocado à União Tijucana. Na realidade, os portugueses pagaram 500 mil. A diferença ficou pelo caminho, nem 10% foram para o craque.

Desamparada, Rebeca voltou pra São Paulo e juntou-se com Lagarto, meia de 30 anos do Guaratinguetá, e com proposta do exterior. Antes de passar papel com ele, Rebeca trabalhou na Boate Canadá, tirando a roupa e jogando a calcinha rendada na cara dos caminhoneiros. Numa dessas noites, Lagarto estava por lá com amigo dono de caminhão. A calcinha preta de Rebeca ficou dependurada no imenso nariz do meia. Amor à primeira vista, afirmavam. Atravessaram juntos o Atlântico e foram morar em Braga.

No domingo em que o Sporting apareceu por lá, Rebeca foi ao Estádio. Enquanto o Jacaré enfrentava o forte time da Capital, ela num motel próximo matava a saudade do ex-delegado. Terminada a partida, aconteceu o encontro geral: Lagarto, Doutor Serjão, Lilico e Rebeca. Ela gostou de reencontrar Lilico e houve recíproca.

Na única folga, marcaram encontro em Lisboa quando lá fosse jogar o Braga. Lilico, inocente, resolveu contar tudo para o seu procurador. O pau comeu. O ex-delegado, enciumado, agrediu o craque e perdeu a boca dos 10% de comissão sobre salários, luvas e coisas tantas. Sem emprego, voltou ao Brasil.

Lilico passou a receber mais Rebeca que fugia de Lagarto pra encontrar com o  amante em Lisboa. Veio o convite: "Larga desse cara, menina. A gente se ama. Vamos morar juntos e acabou!" O belo casal encantou Lisboa, afinal ninguém sabia do passado e nem do presente de Rebeca na Capital. Lagarto deu pra beber e foi dispensado do Braga.

Mas, é preciso voltar no tempo para revelar mais detalhes importantes na vida de Lilico. Na União Tijucana tornou-se ídolo até saber do plano do doutor Serjão: aí passou a esconder o jogo e caiu em desgraça. Até isso suceder, era apoiador respeitado, durão, fama de bravo. Tal currículo levou pro Sporting. Em pouco tempo, era o capitão do time, dono das principais capas de revistas esportivas do país e estrela de programas esportivos de tevê. Sempre com Rebeca de lado.

Bom, lá vamos nós: isso até Furão aparecer no pedaço. Ele veio do Brasil acompanhando a dançarina Lucinha "Garganta Profunda", antes estrela da Boate Noite Enfezada, em São Paulo. Furão apareceu assim de repente e botou a mulherada do local pra correr, com medo do seu avantajado instrumento. Lucinha o enfrentou e o domou. Espalhou pela cidade que "seu homem seria trípode", um tamborete de três pernas. Bobagem maior só fez ao escrever pra Rebeca e falar tudo "sobre o novo homem que tomara de empreitada".

Então, Rebeca convidou a amiga pra se mudar de ares: "Lisboa é uma maravilha. Se você vier com o seu tamborete em breve será dona do pedaço". Na verdade, Rebeca estava de olho no tamborete da amiga. E a boa acreditou e viajou acompanhada. Com o dinheiro de Lilico, a insaciável Rebeca manteve o casal de amigos numa pousada, enquanto procuravam emprego. Apareceu um na cidade do Porto. Furão não quis ir, já imaginava como seria morar sozinho, pagamento feito por Rebeca e ela à sua disposição.

Acompanharam o enredo com atenção? Entenderam tudo? Pois é. Lilico, também, que não era bobo nem nada começou a desconfiar da mulher. Contudo, não tinha tanta certeza e Rebeca, receosa de perder a posição social e o dinheiro, tornou-se bem discreta desta vez. Cometia, porém, grave erro: perdera a vontade de acompanhar o marido aos estádios ou viajar com a delegação do Sporting. Era nesse período que se dedicava ao trípode. Lilico criou um tipo de senha: nos gols do Sporting, fosse dele ou não, corria pra frente da câmara de tevê mais perto e fazia um gesto qualquer. À noite, cobrava da mulher qual gesto fizera.

O negócio embaralhou a cabeça da fogosa Rebeca, obrigada ficar atenta nos jogos do Sporting. No clássico com o Benfica fez o rolo final; o gol da vitória foi de Lilico. Ele correu pra câmara, levantou a camisa do Sporting, e exibiu, numa camiseta por baixo, a inscrição: "Rebeca, eu te amo". E ainda beijou a aliança. Rebeca não viu nada, nem Furão. Ele porque tinha a vista tapada por ela. E ela porque estava de costas pra tevê, ofegante, no clima final da cavalgada que manteve durante 15 minutos sobre o trípode de Furão...

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