segunda-feira, 4 de junho de 2018

CONTO ROMÃNTICO DE FLAVIO ANSELMO

 

NOME: FUGA DE ALBERTO E MARIA

 Flávio Anselmo CONTO:  MAIO/2018

Maria, professor ginasial, de família tradicional, nasceu e foi criada em uma cidade do interior, Caraúna, de 100 mil habitantes, entre a sede e os distritos espalhados pela região. Município forte politicamente, com representantes em todas as câmaras e até no Senado Federal. A comunidade da sede central sempre foi culta, festiva e social.

No tempo de Maria jovem, estudante, existiam somente ginásios e colégios. A mocidade ganhava títulos, no máximo de professora ou contabilista. As duas Universidades particulares vieram bem depois  e abriram diversos cursos. Após o título de professora, Maria passou a lecionava português num dos influentes ginásios da cidade. Era excelente professora e a juventude procurava sua sala.

A alta sociedade local se reunia em torno de bailes e horas dançantes no clube municipal, e furrupas, como se intitulavam as festas de aniversários e promoções particulares nas casas do pessoal festeiro.

 Os grandes eventos eram sempre prestigiados por famosos artistas do disco e dos palcos e o ambiente musical tinha o suporte das grandes orquestras nacionais ou de conjuntos de sucesso no Rio de Janeiro,ou então, também, naquela região importante do Estado.

Maria era ativa na organização dos melhores eventos, na apresentação deles o que lhe dava respeitabilidade conceitual bem relevante em todos os setores de Caraúna.

Não se envolvia com política local, formada por dois partidos, também, respeitados no contexto nacional. A intensa rivalidade entre eles crescia na época de eleições o quê não agradava à professora. Preferia preencher seu tempo com os filmes exibidos nas duas salas da cidade, ou em participar do grupo teatral, não como atriz, mas no suporte. Um dos seus irmãos, Lucas, era dos principais atores do grupo A Vida Após a Morte.

Alberto não tinha raízes fincadas em Caraúna. Forasteiro, viera da Capital do Estado, gostara da cidade e não saiu mais.

Pelo importante cargo que ocupava na administração federal, de imediato ganhou conceito e prestígio entre os moradores. Coletor Federal, inteligente, plácido e responsável, convivia bem com os empresários locais e, ao invés de puni-los com altas multas em suas falhas tributárias, preferia orientá-los a não repetir os erros, e procurava sempre a melhor forma de resolver legalmente as dívidas.

Seu histórico de participação efetiva no mundo dos esportes, notadamente do futebol, envolveu-o rapidamente no ambiente esportivo de Caraúna. Aceitou ser presidente de um dos clubes locais, também ser presidente do Clube Municipal, onde todos os eventos sociais eram realizados. Neste caso o convite partiu do próprio Prefeito, Não apenas ele, mas, também, seus filhos que depois vieram morar com ele.

Sua filha moça, Miriam, veio estudar, formou-se e passou a lecionar num dos colégios mais prestigiados. O filho do meio, Alberto Júnior, estudante de Engenharia na Capital, vinha apenas a passeio e agitava o mulherio jovem por seu porte atlético e simpatia contagiante.  

O mais velho, Hamilton, também ligado ao futebol, tornou-se atleta do clube no qual o pai era presidente. Após desistir da carreira de futebolista, tornou-se  narrador e apresentador de programas na emissora da cidade. Em seguida, transferiu-se para a capital e obteve sucesso como radialista.

Alberto, apesar dos 60 anos, cuidava bem da parte física. Frequentemente fazia  caminhadas pelos altos dos morros que circundam a cidade, ou participava das partidas de vôlei e basquete no quadra central, onde exercia, também, as funções de técnico e de jogador. Os atletas o chamavam de Vovô.

A atividade física de Maria se restringia às braçadas curtas na improvisada piscina do sítio de dona Carolina, retirado alguns quilômetros do centro. Ou na piscina particular e única da cidade, na casa do político, senhor Antônio Araújo Cortes. Ali se encontravam os jovens e as pessoas de meia idade,  onde se situava Maria aos 45 anos de idade.

Foi numa tarde de domingo ensolarado, próprio à piscinada na casa do Côrtes, que Maria, sentada sob o guarda-sol utilizado nas viagens às praias do Espírito Santo, prestou mais atenção em Alberto. Já o vira antes em  solenidades e eventos sociais, elegantemente trajado, mas apenas o cumprimentava formalmente sem se aproximar muito.

Maria conhecia, como de resto toda Caraúna, o estado civil dele: Alberto havia se desquitado há dois anos. Sua ex-mulher pertencia à uma rica família, bem financeira, econômica e, politicamente. Residia em uma mansão de quarteirão inteiro, no centro da Capital do Estado. Família do Senador da República, Maurício Albuquerque Noronha,

O COMEÇO

Antes de começarem a sair escondidos, Alberto e Maria trocaram muitos olhares desafiadores, flertes misteriosos e piscadelas alertadoras. Trocaram as primeiras palavras do namoro após o convite que Alberto fez para um jantar no Panela de Barro, restaurante de comida caseira, fora da cidade quatro quilômetros, em direção ao Rio de Janeiro. Maria negaceou antes de aceitar com receio de topar alguém da família no local, preferido pela rapaziada e recém casados para o happy hour diário.

No entanto, Alberto não precisou insistir, Quando ligou para saber onde se encontrariam, ela falou suavemente; no portão principal do Palácio do Bispo, às 18h. Assim ficou marcado para aquele mesmo dia. Dez minutos antes da hora estabelecida, Alberto parou o carro no local e ficou à espera. Maria saiu do Palácio e entrou logo no Oldsmobille.

O jantar transcorreu sem novidades e sem sustos. Maria revelou seu encontro com a amiga Lourdinha, também professora, que a convidou para bebericam algo na Riviera, point da sociedade de Caraúna. Sem nenhuma preparação, Lourdinha logo no início do bate-papo perguntou:

-"É verdade que você tem caso com o doutor Alberto?

Maria levou susto e só conseguiu perguntar: "Quem lhe falou tal bobagem, Lourdinha? O Alberto é divorciado e tem três filhos, como posso ter caso com ele? Nem estamos namorando. Eu só o conheço formalmente."

Lourdinha sorriu e manteve o assunto: "Ora, Maria, todo mundo em Caraúna sabe do chamego de vocês dois. Inclusive vocês foram vistos jantando animados lá no Panela de Barro. E depois, esticaram a noite?"

-"O que é isso, Lourdinha. Sou mulher séria, adulta, não sou criança e sei o que faço,"

-"Então qual é o problema? Namorar Alberto, homem divorciado? Deixa de ser boba, Criatura, você é adulta, independente e pode cuidar e dispor de sua vida como quiser..."

-" Posso não, Lourdinha, você reforça a tese da proibição social. Se o boato espalhar, minha família vai brigar comigo, os diretores do ginásio me demitirão, e os pais das garotas minhas alunas proibirão que elas estudem comigo.  Serei proibida de participar e apresentar eventos e de frequentar o Clube Municipal. Me tornarei uma concubina de homem divorciado."

-"Mande todo mundo ir à merda, Maria e viva o amor que tiver no coração. Fuja com ele, se preciso for, mas não deixe a população conservadora desta cidade primitiva lhe vigiar e estabelecer seus princípios morais. Isso quem estabelece é você, amiga. Levanta a cabeça e vá à rua viver sua vida..."

- E vamos tomar aquele caprichado Cuba Libre para levantar seu astral - falou Lourdinha - e asseguro que não te vejo deslumbrante como outrora, principalmente porque tens agora amor verdadeiro. Se não agrada aos outros, eles que enfiem o dedo no fio-fó e rasguem. Estou do seu lado, Amiga, para o que der e vier. Vamos em frente e convide o Alberto para jantar, com você, neste sábado lá em casa."

O convite foi feito e aceito. A partir daí, Alberto e Maria já tinham local para encontros. Uma vez por semana, almoçavam ou jantavam na casa de Lourdinha, sempre em companhia dos filhos dele ou de amigos comuns. Até que o namoro progrediu, voou estrada fora e ganhou os motéis e hotéis das cidades vizinhas.  

Num desses encontros, ficou definido o plano de fuga de Alberto e Maria; a turma que participava das reuniões na casa de Lourdinha iria participar. Um deles levaria Maria à Rodoviária e ficaria esperando por Alberto. Na hora da partida, Maria iria em um dos carros da turma, para não despertar a atenção de ninguém, até o Restaurante Panela de Barro. Lá todos desciam e Maria trocava de carro, entrando no Oldsmobille de Alberto. Despediam-se e o casal iria embora, rumo a Poços de Caldas.

Alberto não demonstrava 60 anos de idade. Tinha corpo sarado, sem qualquer sinal de gordura extra. Os cabelos eram grisalhos. Subia no trampolim mais alto e saltava como autêntico nadador olímpico.

Enquanto ele subia o trampolim para repetir o salto, fazia estranho silêncio em volta da piscina, como se o espetáculo fosse comandado por algum mestre de cerimônias. Alberto saltava; salva de palmas e assobios o homenageavam. As moças solteiras e as demais mulheres presentes arregalavam os olhos.

Tão logo foi homologado o desquite, Alberto decidiu morar no interior. De pronto, optou por Caraúna, apesar dos aconselhamentos de amigos e familiares por Juiz de Fora, Uberlândia, Poços de Caldas, Uberaba e Montes Claros.

Mas, estivera antes em Caraúna e conhecia bem a índole do povo, os costumes e a vida calma do município, Não pretendia morar, nem trabalhar em nenhuma outra cidade grande. Talvez, ao chegar em Caraúna para se instalar, comprasse sítio por perto, plantaria café e cuidaria da vida pacata que adorava.

A opção de Poços de Caldas, também, o interessava. As suas férias, ainda casado, eram passadas na cidade do Sul de Minas, famosa pelas águas minerais, termas e atrações. Neste período, porém, Poços borbulhava de gente apressada, curiosa e estranha, o quê a afastou dos planos futuros de Alberto.

 FUGA DE SUCESSO

-" Você está muito calada hoje, Maria. Algo a incomoda. O que foi, brigou em casa com a Mamãe?" -Perguntou Alberto,

Ele tinha o olhar fixo na estrada, sem se descuidar da direção do Oldsmobille 64 que comprara zero da importadora carioca de automóveis. A estrada por onde transitava (Rio Bahia) não dava a menor chance de se descuidar da direção do carro. Extremamente perigosa, com recorde de acidente por causa do grande volume de caminhões de carga trafegando entre Norte e sul do País.

-"Não, não é isso, não. Antes de sair para encontrar-me com você, às escondidas, deslizando junto as paredes e sob as marquises, pensava:

-"Porquê  me escondo? Tudo bem que os preconceitos contra homem desquitado ou separado são condenados pela sociedade."

-"A Igreja, também, não aceita a relação entre homem separado e mulher solteira. Como fazer, se existe o sentimento forte de amor entre eles? A sociedade veta qualquer nova união dele, pois a lei não permite. Casou, pronto, é pra vida inteira. Na Igreja, o que Deus uniu nada pode separar."

E continuou Maria:

"Qualquer dia desse, qualquer fofoqueiro vai lá em casa alertar minha família sobre nossos encontros escondidos. Cairemos na boca do povo e seremos segregados. Não me permitirão lecionar e você não poderá ser Presidente de clube algum, muito menos do Municipal.

Olha lá, se algum inimigo mais feroz não planta denúncia no Ministério Público contra você, por Poligamia."

Alberto ouviu atentamente as ponderações de Maria e, intimamente, analisou a seriedade do assunto.  Viu o posto de gasolina e o restaurante à sua direita, pensou  em esticar a conversa num lugar mais seguro. Entrou no posto. Estacionou o carro e convidou Maria para fazer lanche no restaurante. Escolheram a mesa mais escondida, no canto da direita, e pediram sanduiches com Coca-Cola.

-"Maria, não se sinta desprezível por isso. Não fazemos mal a ninguém e exercemos o sentimento mais puro e bonito da vida: o amor. Vamos procurar uma cidade longe daqui, onde a gente possa casar nas bençãos do pastor de outra religião que não condene a união entre homem separado e mulher solteira. Depois, vamos morar em Poços de Caldas".

-" O que é que é isso, Alberto? Simplesmente chego em casa e aviso meus pais que vou embora da cidade para casar-me em outra religião que não a católica e pelas leis de acordo mútuo entre as partes, sem nenhuma legitimidade."

-" Não, Maria, você não é mais nenhuma criança. Legítimo é sim. Por livre arbítrio poderá dispor da vida como quiser. Ninguém poderá condená-la. Vamos para o Rio de Janeiro, ou então Poços de Caldas. As tais medidas da união precária tomaremos numa dessas cidades, onde não há conhecidos".

-"E sua família? Outro dia, encontrei-me por acaso com Miriam e conversamos por longas horas. Ela me disse que é mais ligada à mãe e que não aceitou a separação de vocês. Disse que ficaria sua inimiga caso viesse juntar-se à outra mulher..."

Retrucou Alberto, já meio irritado: -" Não cabe a ela fazer nenhum Juízo sobre o Divórcio que foi aceito normalmente pelos outros filhos, seus irmãos, tios e avós. A decisão agora é minha apenas: se eu estiver disposto a unir-me de novo, eu o farei".

-"Se meus filhos não gostarem que cada um cuide de sua própria vida. Quem não quiser me seguir, para onde eu for, que fique na sua..." rispidamente respondeu Alberto.

Maria resolveu por fim na discussão e mergulhar em seus interesses:

"Tudo bem, Alberto, este assunto para mim está encerrado. Vamos cuidar de nós;  Já que estamos na estrada rumo a Poços de Caldas, toquemos o Oldsmobille. Estou livre, nada pode me prender aqui."

-" Nem a mim - retrucou Alberto - pois aonde chegarmos começo o processo da minha aposentadoria; tenho tempo para isso."

Tudo acertado, apenas com mochilas, bolsas de poucas roupas, utensílios pessoais numa frasqueira, Alberto e Maria combinaram para agora tomarem  cafezinho, comer uma empadinha, em Realeza, distrito de Manhuaçu.

Rodaram bem com paradas estratégicas e a viagem terminou quando atingiram 600 kms de Caraúna, ao estacionarem o Oldsmobille na frente do Grande Hotel, o melhor de Poços de Caldas.

AQUI É O PARAISO

-"Nunca poderia imaginar que o Paraíso fosse assim: ensolarado, clima gostoso, vida suave, passear de mãos dadas com o amor da gente, falar de flores, ouvir o cantar de passarinhos o dia todo e, principalmente, amar, amar e amar, de manhã, de tarde e à noite."

 Maria falava enquanto passeava pelo jardim do Grande Hotel de Poços de Caldas, livre, sem medo, de mãos dadas com Alberto.

-" Hoje é o nosso primeiro dia longe da prisão de preconceitos que nos ameaçava em Caraúna; para mim parece que já estamos aqui há séculos, bastou-me tirar o peso das costas e me sinto leve como pluma. Se bobear este ventinho me leva", acrescentou.

Ao lado dela, segurando com vigor sua mão esquerda, Alberto demonstrava preocupar-se, realmente, que o vento leve, vindo lá da serra, fosse capaz de raptá-la. Sorriu disfarçadamente e apoiou suas palavras ditas com forte emoção:

-"É como eu lhe disse, Maria? O amor é uma conquista e, portanto, nos faz conquistadores, audaciosos e valentes, na busca dos melhores lugares onde desfrutar a felicidade que o amor oferece".

 -" Não dava para continuar como estava; nosso amor não resplandecia pelo medo de sermos descobertos. Dava impressão que fazíamos algo muito feio. Como é possível ser errado e feio algo que tenha o amor de suporte?" perguntou Alberto

-"Errado, talvez sim - respondeu Maria - pois a Lei dos Homens estabelece que é poligamia desquitado casar-se de novo. É verdade que não ferimos legalmente nenhuma lei, pois não nos casamos. Mas não existe a metáfora: "amigado com fé, casado é."?

-"Mas não estamos "amigados", Querida! É uma expressão chula. Estamos juntos, unidos pela lei do  Livre Arbítrio, estabelecida por Deus. É nosso direito agir como bem entendemos, desde que não machuquemos ou prejudiquemos alguém".

-"E se a gente mandar publicar no jornal de Caraúna um convite para nossas bençãos nupciais na Igreja norte-americana Jesus Cristo dos Últimos Dias, que, segundo já soubemos, não faz nenhuma restrição para celebrar esta união? Cortaríamos as intenções maldosas de terceiros pelas raízes".

Alberto rebateu com jeito: "-Também alertaríamos à parte de lá sobre nossa intenção de nos unir, e enfrentaríamos desagradáveis processos que nos tomariam tempo e paciência. Larguemos de lado o passado e não nos preocupemos com o futuro. O presente é que é nosso e está aí pronto para ser bem vivido."

O casal passou em frente ao coreto do Jardim, de arquitetura rococó, a mesma que se manifestou na decoração dos espaços interiores das mansões e palácios. No entanto, os artistas da época procuraram, também, fazer arquitetura diferenciada nessa área, amenizando o exterior dos edifícios em suas decorações.

Alberto lembrou de quando estudou o estilo rococó, que vem da palavra francesa rocaille, e significa "concha". Nada a ver com o coreto, mais no estilo arquitetônico desenvolvido entre o barroco e o neoclássico, do século XVIII, na Áustria; com incrustação de conchas e pedaços de vidros como fórmulas decorativas e ornamentais. 

O casal parou por instante a ouvir o conjunto musical que se exibia todos os domingos naquele lugar.

-"Até esquecemos que hoje é domingo, Alberto, dia de sentar na praça e ouvir a bandinha da cidade. Quem sabe a gente possa até dançar?", mal acabou de falar, Maria viu os casais valseando à frente, ao som de uma canção de Strauss, harmoniosamente executada pela Banda.

Maria desvencilhou-se da mão de Alberto que segurava a sua mão esquerda, assumiu postura da dama no par dançante e foram voltear entre os que já estavam na pista, Dançaram a tarde toda, até a noite começar a descer, acompanhada de frio cortante.

Alberto  enlaçou-a pela cintura e caminharam em direção ao restaurante, bem frente, onde era servido completo churrasco gaúcho e o delicioso vinho de Andradas,

À VISTA DE TODOS

Maria achou legal demais, sentar-se no restaurante, escolhida a mesa central, nada escondida, à vista de todos que entravam no comedouro. Ficaram bem juntinhos, assentados e de mãos dadas por cima da mesa. Nada de esconder coisa alguma; iam morar naquela cidade e se apresentavam à sociedade local. Sabia que, em princípio, seriam vistos como outro par de turistas que visitam a cidade o ano todo. Mas eles não se viam assim: eram casal em lua de mel.

-" O que você pretende fazer agora, Alberto? Não podemos morar neste hotel caro, temos que achar algo mais em conta. Quem sabe apartamento de dois quartos, sala, dependência e garagem. Seria ótimo, não? Hoje cedo, ao voltar da Missa, passei defronte a Imobiliária Bem Viver;  quem sabe a gente encontra lá o ninho que procuramos ou sonhamos?"

-"Podemos até mesmo comprar apartamento, pois se eu subir ao Paraíso antes de você, seria uma espécie de seguro a mais que eu lhe deixaria. - Estou certo? " Salientou Alberto. Assustada Maria respondeu:

-"Que conversa é essa, Alberto. Quando tal coisa acontecer, eu vou voltar para Caraúnas e ficar perto do meus familiares; se eles me aceitarem de volta".

-"Pois é, aí é que está, Você pode antecipar isso? Não pode, então é fazer agora o que podemos fazer. Vamos adquirir uma casinha ou apartamento. O que mais lhe agradar." sentenciou Alberto.

No dia seguinte, depois do café da manhã, saíram à procura do imóvel ideal. A Imobiliária deu-lhes a dica, o endereço de vários lugares. Visitaram todos e um deles os agradou muito.

Uma casa de arquitetura alemã, bem arborizada em volta, numa rua quase central, perto de tudo que é necessário: supermercado, farmácia, padaria, restaurantes, barzinhos e jardins. Não ficava longe do Grande Hotel, que tem salão de bingo, cinema e teatro.

A casa foi comprada e mobiliada rapidamente pelo bom gosto de Maria.

A sala foi aparelhada para receber as possíveis visitas e para a curtição da tevê em cores. O quarto de casal, o maior da casa, recebeu outra televisão menor, penteadeira, aparelho de CDs e rádio AM e FM. Num canto, belo cabide de pé para a coleção de chapéus de Alberto.

A vida seguiu planejada como queriam: de manhã, passeios pelos jardins e pontos turísticos da cidade; almoçavam na rua, pois Maria não gostava de cozinhar e não queria mais ninguém em casa, metendo-se na vida deles. A faxina diária ela mesma fazia quando retornavam dos passeios matinais.

À noite, bingos e horas dançantes no Grande Hotel, mas antes cinema se o filme em cartaz fosse bom. A ceia era sempre na churrascaria onde entraram a primeira vez, sempre acompanhada de jarra de vinho da região.

Domingo havia futebol no Estádio local, passeio lá no Cristo ou nas termas da saída da cidade. Cachoeiras, cidades vizinhas, nada deixava de fazer parte da programação de final de semana.

Para não se desgarrar de Maria, por nenhum instante sequer, declinou vários convites para associar-se a clube de serviço local. Sua aposentadoria como coletor de impostos federal saiu e com ela veio a tranquilidade absoluta. Seus três filhos fizeram contato, mas não passou disso.

Nenhum foi visitá-lo, nem recebeu convite para fazê-lo. Anos e anos se passaram, Alberto e Maria envelheceram mais, comemorando sozinhos todos os  aniversários, passando os natais e anos novos no exterior, preferencialmente em Paris e Lisboa.

Tudo ia bem demais até que Alberto sentiu o incomodo antigo em maior densidade. Resolveu ir ao médico, sem contar nada para Maria. Fez os exames pedidos e o resultado foi trágico. Tinha câncer, tumor localizado nos intestinos, em estado bem adiantado.

Conversou com o médico e soube que lhe restava pouco tempo de vida, ainda que, através de cirurgia arrancasse o tumor. Fora detectado tarde demais. Seria diferente se Alberto tivesse acusado o problema desde o início, antes atrás. Porém, sua aversão a exames médicos lhe encurtara a vida.

Como dizer a Maria?

Escolheu uma noite de chuva forte, muitos raios e trovões, para degustar o Salmão cru do Seo Godofredo, famoso na cidade. Na mesa de canto, com a garrafa de vinho italiano na frente, taças cheias e brindes feitos, Alberto confessou:

"Você se lembra, Maria, quando discutíamos se era melhor comprar ou alugar imóvel? E eu falei que melhor seria comprar, pois serviria, também, de seguro para você quando eu subisse ao Paraíso? Você cortou o papo, porque não lhe agradava o assunto, Mas agora é real, não tenho muito tempo de vida."

Maria arregalou os olhos: "Que assunto é esse, Alberto, você está de brincadeira, não?"

-"Não, Maria, fiz exames esta semana, escondido de você, para não preocupá-la. Os exames acusaram tumor cancerígeno nos intestinos; mesmo com solução cirúrgica e demais procedimentos viverei pouco, pois o mal está bem adiantado."

Parou para olhá-la e sentiu a maldade do Destino: Maria desabou, mas deu tempo de segurá-la e mantê-la na cadeira. Alberto quis planejar tudo de uma vez e falou:

 "Querida, não quero ser sepultado aqui, ou em qualquer outro lugar. Quero ser cremado, e que você espalhe minhas cinzas nas águas do Rio Caraúna ou aqui no Rio Grande, na divisa de Minas com São Paulo. Sempre achei aquele lugar, perto de Perdões, muito bonito".

Dois anos depois de muita luta contra a doença, Alberto morreu tranquilo como passarinho. Maria mandou cremá-lo, mesmo com a opinião contrária de dois filhos, pois o mais velho morrera um ano antes. Colocou as cinzas num pote de murano e foi à ponte sobre o Rio Grande, entre Perdões e Lavras, e as atirou nas águas, numa cerimônia simples, vivida só por ela e seus melhores pensamentos sobre a vida maravilhosa em Poços de Caldas com Alberto de lado. (Fim)


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