quinta-feira, 21 de junho de 2018

Golinho Brejal Canto de Estalo


CONTO: CANTA, CANTA, GOLINHO DE ESTALO

CANTO DE SALVAÇÃO CONTRA ESCURO BREJAL 
( junho/2018)
Foi mesmo assim. Do solitário banco de madeira do Jardim Grande, olhei a lua nascer atrás da catedral, vindo entre raios de luzes, por caminho de estrelas,  para iluminar aquele escuro brejal que minha alma exalava. Era tão extenso quanto o Pantanal. Imaginei que as luzes da
Lua, reforçadas pelo cordel de estrelas, iluminariam aquele brejal e atrairia o Golinho Brejal  Canto Estalo ou fariam  a Golinha  Fogosa cantar muito, para ser ouvida longe. Canto de estalo que desperta emoções e rotula canções.
Como canta a fêmea! Como responde o Macho! São códigos indecifráveis por humanos, principalmente por humanos de alma penada e escura,  feito brejal  do Pantanal.
Fechei os olhos, abaixei a cabeça e orei. Precisava entender aquela mensagem entre dois pássaros amantes, abrigados no escuro de minh'alma, ansiosa e triste. A Golinha Fogosa esticava os tons menores, o Macho respondia em estalos. Eu me perdia no meio daquele tiroteio espremido apenas dentro do meu vazio ego. 
 De repente, dos pés de São João, na crispa da torre única da catedral, desceu a rampa sinuosa de fugidas luzes estrelares;  o guarda-corpo  da espetacular rampa,  parte era de  corrente dourada e parte em vidro e inox; as luzes que batiam nela resplandeciam de maneira difusa cá no Jardim, onde eu estava.
Então ouvi o canto da Sabiá de Figueira superando em tonalidade a cantoria da Golinha e do Golinho. Aumentou o tiroteio no meu confuso âmago. Olhei para o alto da rampa, que se desmanchava aos meus pés, e te  vi  num vestido longo, branco e aberto dos lados. Sensualmente, a cada passo, balançavas os quadris num ritmo frenético, fora do compasso da canção assobiada pela Sabiá.
Vinhas descendo, feito alucinação do Paraíso, liberada tão-somente para aquela performance. As luzes da Lua, atrás de ti, explodiam como fogos de artifício, e respingavam feito cacos dourados à  frente e às suas costas. A cada explosão de luz, davas longo passo, abrias o vestido de lado, para que suas coxas revestidas de prateado da Lua, fossem expostas ao ambiente embasbacado com tanta beleza.
 Paravas a cada curva da rampa sinuosa  e abrias os braços como que abençoando os humanos à vista ou longe dali.  Na última reta da rampa, justo aquela que desmaiava aos meus pés, apertaste o passo, largo e decidido. Levantei-me e te esperei. Fizeste-me o sinal: "Mantenha-se sentado, meu Amor".
Obedeci. Saíste da rampa, como majestade que desce da carruagem real, diretamente para meus braços. Caíste neles. Eu te aconcheguei, beije-te às mãos, a  testa, o narizinho, ambas as faces e o lóbulo da orelha direita; em seguida, beijei-te os lábios, suguei-te a língua ansiosa, e fui escorregar meus desejos pelos ombros nus.
 Foi quando ouvimos aquele barulho ensurdecedor: gritos, vivas, palmas e urros. Desviei os olhos para o lado esquerdo da Igreja; ali postava-se pequena multidão, a gritar o teu nome e a chamar de Rainha.
Jane no hebraico significa agraciada por  Deus. Daí todo aquele espetáculo de luzes  da ribalta para comemorar a tua volta. Acompanhando a multidão alvoroçada, aos gritos de Rainha, Nossa Rainha, Jane, Jane, reconheci vários ex-colegas, ex-amigos e pessoas da mesma faixa etária nossa.  Totalmente dominados pelo esplendor da manifestação .
Então, tu viraste para a multidão acenando, levaste a mão direita à boca e atiraste beijos, mais beijos. Caminhaste em direção à Multidão , sem olhar para atrás e ver como eu estava. Não estava mais, senti-me  deslocado, aviltado e fui embora. Gritaste por meu nome, segundo soube, mas não ouvi. De longe, virei e te vi a subir a rampa iluminada até sumir no turbilhão de cores, raios de luzes, rabos de cometas que cortavam os céus.
Deitei-me no banco mais próximo do jardim e dormi aos prantos, enquanto ouvia o cantar da Golinha Fogosa e os estalos do Golinho  do Brejal; lá no fundo, captei a sonoridade e a saudade do assobio da Sabiá de Figueira, assobio de uma canção com letra e melodia da hora.
Traduzi a letra do assobio,  "Se você quer voltar, eu te espero amor. Nem tudo está perdido em nossas vidas; se eu choro por você, você, também, por mim; porque chorar assim, porque sofrer assim..." ( Fim)

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