sexta-feira, 3 de agosto de 2018

A VOLTA DE ADILSON BATISTA, MAIS LÚCIDO E ESTUDIOSO

Aqui é trabalho também! Renovado, Adilson Batista lembra feitos, erros, fala de evolução na carreira e revela empolgação com projeto do América na Série A: 'Voltei com vontade'

 

O acidente sofri há dois anos: cai de comprida escada de cimento, na entrada da Prefeitura de Inhapim, onde devia lançar, naquela noite, o meu livro "A Ordem", como fiz na noite anterior em minha terra natal, Caratinga, a 25 km. Ao chegar ao último lance, já perto de bom público à minha espera no portão do hall de entrada, a bolsa cheia de pesados livros que eu levava na mão direita, fez-me perder o equilíbrio. Desabei; e de cabeça para baixo, rolei uns 50 ou mais degraus; tive várias fraturas e 11 hemorragias internas. Perdi os sentidos. Nem quando o avião-ambulância da UNIMED foi buscar-me no dia seguinte, voltei. Só após 45 dias em coma, na UTI do Hospital Vila da Serra, reencontrei-me com o mundo, mesmo assim sem falar, sem andar e todo furado por tubos que me davam alimentos, água, remédios e vida.

Até hoje não tive recuperação total: falta-me equilíbrio, e coragem de caminhar sozinho. Salvou-me a Internet para comunicar com o mundo lá fora. Saber das coisas e informar que, por benção de Deus, sobrevivi e que, breve, estarei de novo nas caminhadas pelas praças como sempre fiz. As mortes de amigos chegados ainda me afetam muito. Os sucessos pessoais da turma que está sempre ao meu lado levantam meu astral.

Tive por um período bom , amizade com Adilson Batista, jovem zagueiro que o Cruzeiro buscou no Coritiba.  Amizade regulada pelos meus comentários no programa esportivo que eu mantinha na BAND-Minas. Quando Adilson errava em campo, na defesa da camisa azul e eu criticava apoiado por enorme audiência, nossa amizade azedava. Passou bom período azeda, até viajei com a delegação do Cruzeiro para o Japão, pois aconteceria em Kobe, a decisão da Copa América de clubes: Cruzeiro x Colo Colo. De novo, Adilson fraturou uma perna, como acontecera meses antes no Brasileirão.

Tive pena dele e reaproximei. Fiz-lhe a entrega de uma medalha de Nossa Senhora, benta pelo Papa da época, pois quando voltava de Munique, após transmitir pela Rádio Guarani a decisão do Mundial Inter Clubes entre Cruzeiro x Bayern, primeira partida, estive no Vaticano, comprei várias medalhas que trouxe para meus Pais, irmãos e tias. Elas receberam em audiência pública a benção papal.

Garanti ao Adilson que aquela medalha lhe ajudaria na recuperação da fratura e cuidaria de protegê-lo nos jogos seguintes. Pouco depois, Adilson deixou a Toca da Raposa e nunca mais nos falamos.

Agora ele está de volta a Minas, após longo período esquecido e desempregado. Aproveito esta entrevista feita com o novo técnico do América, por Rodrigo Melo e Ivan Drummond, Superesportes e Estado de Minas, para reproduzi-la em parte e criar clima de aceitação pela volta do ex-zagueiro celeste, com enorme expectativa de sucesso na função. Ah, lembrei-me que ao parar de jogar, Adilson Batista tornou-se treinador e veio trabalhar no Cruzeiro.

Prosaico, intempestivo, fechado, carrancudo de mal com a vida, bem diferente do Adilson zagueiro, não teve ambiente aqui. Foi dispensado pelos insucessos e saiu de cara amarrada e de mal com todos aqueles que cumpriam fielmente o trabalho de crítico. Entre eles, lá estava eu. Fechou-se de vez nossa velha amizade.

Nesta entrevista com os excelentes Rodrigo Melo e Ivan Drummond,  Adilson analisa o calendário nacional e revela profunda admiração pelo trabalho de Pep Guardiola. Esta revelação, claro,  expôs um Adilson diferente, pois o estilo de Guardiola é democrático, respeitado e respeitador do trabalho de terceiros ligados ao futebol.

 

Adilson Batista sem a pose dos famosos medalhões tupiniquins, começou com uma boa dose de humildade a falar  na entrevista: "Voltei com muita tesão, e vontade. Estava me sentindo juvenil no primeiro jogo".  Adilson Batista garante que chegou  para a retomada na carreira como técnico, mas, também, para ajudar a escrever página importante na história do América.

-"A missão é manter o Coelho na elite nacional. Até aqui, o começo é animador. Sob meu comando, o time venceu o Internacional (2 a 1, no Independência), Santos (1 a 0, na Vila Belmiro) e ganhou confiança para uma sequência dura de jogos. Não terminamos nada, apenas começamos, porém estou muito feliz e confiante. - afirmou Adilson Batista.

 

Adilson detalhou, também, como foi recebido neste retorno ao futebol de Minas Gerais, que o projetou internacionalmente. Como jogador do Cruzeiro, entre 1989 e 1993, ele conquistou títulos importantes e chegou à Seleção Brasileira. No Atlético, em 1994, integrou a 'Selegalo'. Foi também na Toca da Raposa II, entre 2008 e 2010, que esse paranaense de 50 anos viveu seu auge como técnico, sendo bicampeão mineiro (2008/09) e vice-campeão da Copa Libertadores (2009).

 

Depois de três anos sem dirigir um time, Adilson viu no América uma oportunidade de recuperar o seu prestígio. "Voltei com tesão, com vontade. Estava me sentindo um juvenil no primeiro jogo", afirmou.

 

Sua forma de comandar e motivar foi elogiada pelos atletas durante os 10 dias de Lanna Drumond. "Não tenho varinha (mágica). Depende deles também. Você mostra, fala, explica, cobra, treina. Tem oponente, as dificuldades, o jogador. Aí são eles que têm que executar. O caminho você dá. A execução é com eles".

 

Em 40 minutos de conversa com a reportagem, Adilson também assumiu erros na carreira como treinador, analisou o cenário do futebol no país e no mundo, criticou a formatação do calendário nacional, estrangulado pelos estaduais, e pediu mais participação da CBF no desenvolvimento das competições e das categorias de base dos clubes. "A CBF tem muito dinheiro e pode fazer. É obrigação dela fazer", apontou.

'O respeito que as pessoas têm por mim. Não tinha noção, não sabia o tanto que gostam da gente'

 

Chegada ao América, volta a Minas Gerais

 

Que receptividade eu tive, não fazia ideia de como os mineiros gostam da gente. O respeito que as pessoas têm por mim. Não tinha noção, não sabia o tanto que gostam da gente. Desde que eu acertei, foi muita gente que eu não falava há anos. Só tenho que agradecer.

 

Carinho dos clubes e das torcidas

 

Adilson falou mais: "Também tenho grande carinho por determinados clubes. Sou cria do Atlético-PR, tenho amor muito grande pelo clube, tenho três cadeira lá. Vou lá e torço pelo Furacão, gosto do clube que me projetou. O Grêmio também, na final da Copa do Brasil de 2016 contra o Atlético eu estava lá na torcida. Final da Libertadores estava lá. O Cruzeiro sempre teve carinho muito grande. Você trabalha em alguns clubes e aprende a gostar deles."

 

-" No Jubilo do Japão o pessoal me adora, tenho uma história bonita. Graças a Deus, nos lugares em que eu passei, sempre deixei as portas abertas. Recentemente, estava no sorteio da Conmebol, falei com o Andrés (Sanchez, presidente do Corinthians). Mesmo saindo de determinados clubes, sempre tive bom relacionamento".

"'O Brasil está bem servido, tem uma escola boa, uma linha boa, profissionais bons"'

 

 

Volta ao banco de reservas no Coelho

"Voltei com tesão, com vontade. Estava me sentindo um juvenil no primeiro jogo. Fiz 'mídia training', gestão esportiva, vai aqui, vai ali, tenta segurar aqui, controla ali. Muita gente me dá conselho. 'Você é bom, mas cuida aqui, não faz isso, não repete isso, cuida ali'. Voltei animado. Não só por voltar. Não tenho varinha (mágica). Depende deles também. Você mostra, fala, explica, cobra, treina. Tem oponente, as dificuldades, o jogador. Aí são eles que têm que executar. O caminho você dá. A execução é com eles.

 

Objetivo do América: permanecer na Série A

 

Segundo Adilson Batista, o primeiro objetivo é manter o América na Série. A"-Não é vender discurso. Às vezes você pensa em Sul-Americana, mas vai abdicar porque tem o excesso de jogos. Você faz em 50 dias 15 jogos. 'Ah, é Copa do Mundo', não, todo ano é assim. Por quê? Pelas 23, 21 datas dos estaduais.

 

É o grande problema do Brasil. É muita viagem. Estava no Joinville e jogamos sete ou oito jogos 11h da manhã. O Corinthians jogou uma vez. E aí? Trabalhei no Paysandu. Meu jogo de volta contra o Flamengo, me mandavam jogar lá no Sul contra o Juventude, no domingo. A gente chegava na terça-feira (em Belém), junto com Flamengo.

 

 Mais Adilson: "Essas coisas a gente olha. Enfim, não adianta, não sou eu quem vai consertar isso. Em relação a pensamento, você sempre pensa no objetivo. Mas, às vezes, não tem suporte, é maratona. A Chapecoense começou a fazer jogo para todo lado aí e está sentindo. Vocês têm que ajudar em relação à cultura".

 

-"Eu prefiro ter 18 no mesmo nível do que ter 40. Eu consigo. Na Seleção Brasileira, Pelé machucou, entrou Amarildo. Belíssimo jogador, mas é igual ao Pelé? Saiu Cafu, entrou Zé Carlos. Não é a mesma coisa. Sai Ronaldinho, entra meu amigo Luizão. Estamos falando de Seleção Brasileira, imagina clubes. O nível é diferente"

 

TRINCHEIRA: Parabéns, Adilson, seus três anos de estudo e prática melhoraram muito sua personalidade. Você é hoje outro profissional pronto para ter muito sucesso como treinador. É o que desejo..."

 

Primeiros treinos, entendimento do elenco e estrutura do América

 

Não é questão de ir rápido. Com jogos quinta e domingo, eu seria muito burro se eu colocasse uma carga de 40 minutos neles. Eu não teria força suficiente para enfrentar o segundo tempo do Inter e o segundo tempo do Santos.

 

Tudo tem a hora para dar a carga. Esse controle hoje é rigoroso com a fisiologia, o departamento médico, a nutrição. Temos que destacar isso. O clube está muito estruturado e eu dou os parabéns ao América por nos dar essa condição. Eu cheguei com muita coisa, muita informação, e isso ajuda ao profissional. Tinha que fazer aquilo mesmo. Ontem  já teve uma carga, hoje vai ter outra, a sexta vai abaixando. Para que no jogo você tenha intensidade.

 

Crescimento e mudanças no time

Eu tentei (mudar), dentro do que eu observei, e conheço o Enderson (Moreira, ex-técnico), o Luís Fernando (Flores, ex-auxiliar) e o Ricardo (Drubscky, diretor de futebol). Na minha observação, eu coloquei algumas coisas que eu acho que seria importante a gente fazer. Eu revi algum posicionamento e trabalhei de uma forma diferente. Simplesmente isso.

 

Evidente que eles (os zagueiros) tiveram uma proteção, uma compactação, um posicionamento mais perto. Eu não vou te falar o 'pulo do gato', mas o que eu vi eu mudei. Por isso peguei e falei 'Vamos fazer o jogo, não vamos ficar esperando'. Vejo os jogos todos os dias. Para acertar, estava vendo os jogos ali. É o que eu gosto, o que eu faço. Passeei, viajei, andei de bicicleta, joguei tênis, fui pescar, fui para o mato. Foi tranquilo, mas a gente vive isso aqui.


Semanas cheias para treinar

Contribui, claro. Você ter a semana 'cheia' é muito melhor. Prefiro ter a semana para fazer o jogo na intensidade que você quer e que apresente bom jogo. No jogo em si, você pode ter uma dificuldade aqui e ali, mas o grau de intensidade. Que campeonato o torcedor assiste hoje? É o Inglês. Se você perguntar os meninos, eles sabem de cor. E é gostoso de ver. Entra o Alemão, um pouco mais tático. O Espanhol, pelo Valencia, o Atlético, o Barça e o Real. Você vai para o Italiano, mais fechado, truncado, mais tático. O Francês você assiste por causa do Neymar. Temos que ter prazer. Coloca num horário decente, num clima decente, com jogos decentes, com arbitragem corretas.

Projeção de intensidade para o América no segundo turno

Eu gostaria (de fazer uma projeção), mas aí você sai perdendo um jogo, sofre uma derrota, perde determinados jogadores, esse contexto tem que se olhar. Evidente que para mim, foi ótimo ter essas três semanas (sem jogos às quartas, quintas). Tem muita coisa para trabalhar. Hoje estávamos revendo algumas para acrescentar e melhorar. Mesmo vencendo, tem correção, tem elogio, cobrança. É assim que a gente trabalha.

Reforços? É cedo para emitir opinião. Não quero cometer injustiça, me apressar. É importante e eu sempre trabalhei assim, se a gente puder minimizar até em função de custo. Hoje, o Giovanni já faz segunda linha, pode fazer por dentro e na lateral. O Juninho faz de primeira, na lateral e de segunda. O Marquinhos faz lá e aqui. O Ruy faz aqui e lá. Temos que ter essa criatividade e ajudar. Não é fácil. Acabo de falar, até conversei com o Andrés (Sanchez, presidente do Corinthians), lá no Paraguai (sorteio da Conmebol), e ele falou que, a partir do ano que vem ele vai colocar só 23 no elenco dele. Eu dei os parabéns para ele. A gente tem que procurar reduzir e ter um número maior qualificado do que quantidade. Aí vamos subindo. Vem um menino aqui, outro ali, e você pode revezar.

 

PARABÉNS Adilson Batista por ter promovido volta de Matheusinho ao time, depois de longa inatividade pela lesão no joelho. Gosto de dizer que não há muita diferença entre o sorteio das peladas e a escalação para o futebol. Sempre vence quem escolhe o melhor e até o goleiro, que só não pode ser escolhido para a linha.


Volta do Matheusinho

 

Não foi para sentir. Ali foi até mais por intuição. Achei que ia precisar dele, e já conheço. Levei meio no peito ali. Conversei com o médico, doutor Celso Azevedo, depois com a fisioterapia, o Gerson, da preparação física, e com o jogador.

Eu falei: 'você vai', e tomei a decisão. O que eu observei nos dois trabalhos, eu falei: você vai'. Temos que respeitar as decisões, mas o médico liberou, o preparador físico liberou, o atleta com vontade, e nós tínhamos a necessidade de usá-lo pouquinho à frente.

 

Ele vai ter mais oportunidades. Ele não é uma aposta. É um jogador que vai 'virar'. É uma característica que eu acho interessante, vai ser importante. Como o Renan (Oliveira), de quem gosto também. Estou observando e vamos fazendo.

 

Jovens na base

Hoje, a gente tem números das peneiras. A cada 3.000, um vinga. A preocupação é com os outros 2.999. Lá no Corinthians, em 2000 e pouco, passaram 21 mil meninos. No Coritiba, 47 mil. O processo de seleção, a calma, o processo de observação, a capacitação, às vezes, o interesse se tem ou não, é muita gente. Temos que melhorar. O país é muito grande. Olha como o Uruguai forma. Um país desse tamanhinho. Três milhões e meio de pessoas.

Base do América

Não dá nem para falar. Meu pai faz aniversário hoje, 80 anos. Eu lembro o dia que fiz um jogo e eles foram me buscar, meu pai e meu irmão. Meu irmão, mais novo que eu, já falou que esse, esse outro e aquele, eram craques. Meu pai falou: 'não vou julgar o atleta por 90 minutos'. É muito cedo para eu emitir uma opinião. Preciso do treino, dos jogos, para emitir uma opinião.

Diz Adilson- "Vejo que o clube está estruturado, preparado para receber e formar. Tem essa intenção e é nesse caminho que tem que ir. Estou aqui para ajudá-los, é minha intenção também. Desde que tenham potencial, capacidade, porque a nossa realidade é Série A. O grau de dificuldade é enorme. Tem que ter qualidade. O grau de exigência é alto"

 

O Barcelona forma, e olha a riqueza do Barcelona. Você tem que copiar aqueles que têm história. Se eles formam, porque não podemos formar. Temos que capacitar, melhorar, dar condição, cobrar, ter confrontos adequados. Temos que ver o grau de exigência para, no dia que ele vier aqui, quando amanhã tiver oportunidade, é contra o Palmeiras, o Flamengo, o São Paulo e ele saberá enfrentar.

 

'Não tenho varinha (mágica). O caminho você dá. A execução é com eles'

 

Treinos secretos

 

Eu fiz aqui e tinha uma (situação). Eu falei 'não fala'. Treinei com o Magrão e não falaram. Se eu começar a falar muito, 'fez isso, pediu isso, quer aquilo', eu escuto. Tem gente me informando, eu vou neutralizar. Evidente que todo mundo hoje se conhece. Mas tem sempre uma jogada, uma bola, um posicionamento, uma situação que você pensou, criou. Eu trabalhei com o Judivan e com o Magrão. É mais em função disso, ninguém está escondendo nada.

Adilson fala mais: "Vamos na Europa. Você não entra (para ver treinos). É divulgado pela TV. Eu fui no Arsenal e nem lá não entra, tem 11 campos fechados. Quando foram lá para dentro eu não fui. Almocei, conversei, visitei, aqueceu e eu saí. É assim que funciona lá. Isso aqui (campo) é sagrado. Não tem que ficar pai, empresário, não sei o quê. Isso aqui é para você trabalhar. É o serviço. Não vou lá na redação e falar 'muda isso aqui no texto'. Lá é teu. Aqui é meu. 'Ah, mas tem que divulgar'. O site pode divulgar. Pode conversar, pode olhar, tem coisa que é para olhar, tem outras que não.

 

Se você me der uma imagem. O Kompany foi lá duas vezes (no jogo contra o Brasil, nas quartas de final da Copa do Mundo da Rússia), deu casquinha e... Tem que acompanhar. Se eu tenho aquela imagem ali eu mudo. Se tenho a imagem do Kompany indo lá, 'Opa, vai dar zebra ali. Olha, vocês viram no treino? Passou lá. Vai lá'.

 

Técnicos

 

(O que gostar no trabalho do Guardiola?) Acho que tudo. O homem é... Nós tivemos aqui 'Seu' Ênio (Andrade), Felipão, Vanderlei, Carpegiani inteligente, peguei uma safra boa, Vadão competente, Oswaldo. Tem tanta gente boa, Carlos Alberto Silva foi meu treinador.

 

O Brasil está bem servido, tem escola boa, boa linha, profissionais bons, com ótimos treinamentos. Volto a repetir:  nosso problema chama-se educação. É o grande problema do Brasil.

O que a gente vê na sociedade é o que a gente vê no futebol. Onde que eu fui aprender 'fair-play'? Lá no Japão. Aqui você tem que jogar a bola lá na bandeirinha de escanteio, vai lá e pressiona. Você nem devolve a bola, falta de educação. O problema nosso é educação.

 

Estilo de jogo

 

Gosto não se discute. Ontem estava vendo Real Madrid e Manchester (United). Eu gostaria que a gente chegasse naquele nível. Os meus atletas, com quem eu trabalhasse. Encurtando, andando junto, compacto, em linha, dando velocidade, fazendo andar e organizado. É isso que a gente quer. Mas, às vezes, temos dificuldade de cultura, educação, distância, excesso, horário, mentalidade, e isso não é da noite para o dia. O que eu quero é o jogo bem jogado. Sou fã de carteirinha do Guardiola. Ele faz andar no Bayern, no City, ele vem aqui no América e vai fazer andar, e é gostoso ver. É aquilo que eu quero. A gente vê em alto nível, mas ainda estamos pecando por uma série de fatores que eu relatei.

 

Conceitos no América

Isso é uma coisa que eu não vou interferir. Está bem lá em cima. É muito relativo isso. Alguns clubes falam em implantar um modelo de jogo do clube. O Guardiola mudou o jeito do Barcelona jogar. O Bayern jogava de um jeito, o City jogava de um jeito. Aí entra eu, o meu gosto, a minha dinâmica, o que eu penso. Na hora de contratar, eu gosto que joga assim. Então tenho que pensar também onde eu estou, momento que eu estou, com quem estou, prioridade que temos, se vamos ter capacidade para fazer. Também tenho que ter esse discernimento. Isso é também um dos erros que eu cometi, às vezes, na carreira. O próprio exemplo é o Corinthians. O Mano jogava de um jeito e eu quis jogar de outro. E fizemos bons jogos. Mas temos que alterar pouco. Só que eu não gostava. E eu tenho um estilo. Se você recorda, o Joinville e Atlético Mineiro que fizemos aqui 11h, eu dei trabalho. Vim com o Joinville caindo, com um time limitadíssimo, tanto que caiu. Tive cinco oportunidades, bola na trave, e o Atlético fez um gol de cabeça. Mas sei onde estou.

Jogadores 'polivalentes'

O Bielsa faz, roda todo mundo, o lateral joga de quarto zagueiro, vem para o meio. No momento do jogo, você de volante, por exemplo, tem um cruzamento e você pode salvar uma bola ali, salvar. Então, você fez um exercício. Claro que tem biótipo. Não vou inventar o Matheus de 9. Perdendo o jogo, no interior. Ele pode estar lá, mas não vou inventar. Você criar algumas situações para o atleta melhorar, não vejo problema nenhum.

 

Calendário

 

Aí o Flamengo faz 83 jogos. Eu cheguei a fazer, no Grêmio, 90 e poucos jogos. Jogamos sete competições. Aí que futebol você vai ter? Lento, preguiçoso, parado, catimbado, enrolando. Esse é o produto que estávamos vendendo. Diminui os estaduais para você ver.

"'Ah, Adilson, você é contra A, B ou C'. Não sou contra, sou a favor que a CBF, que tem muito dinheiro, ajude a B, a C e a D. Faça campeonatos decentes para os meninos do sub-23, sub-20 e a gente qualifica. A CBF tem muito dinheiro e pode fazer. É obrigação dela fazer. Aí fica fazendo conchavo com as federações para você jogar cinco meses no ano.

Esses cinco meses são igual nossos impostos, jogamos no lixo. Trabalhamos para o governo quase seis meses para não ter retorno de nada. É igualzinho o governo. O futebol é o reflexo do que o país vive. O VAR deveria se chamar Sérgio Moro.

 

Poderia ser, por que não (ajustar o calendário ao europeu). Eu não sou contra esse ou aquele clube. Não é isso que eu defendo. Quero que todos tenham competição por mais tempo. Aí jogam A e B esse número de 38 jogos e você tem mais tempo e os outros?

 

Nos Estados Unidos, se você pensar o número de estados, tem conferência Leste, Oeste, Sul. Você pode regionalizar no início. Já tem estudo, só que eles não querem. Meu estado (Paraná) é o quarto a mandar dinheiro para a União, o 23º para voltar esse dinheiro. Já pensou se esse dinheiro ficasse no meu estado? Mas não querem. É o mesmo pensamento. Infelizmente, a linha é boa, estamos com grandes profissionais. O problema não é aqui, é lá em cima.

 

Jogador/treinador

A vida de atleta é muito mais tranquila do que a de treinador. Eu só tenho o que agradecer da minha vida de atleta. Fui muito feliz. Mas agora a dedicação, o foco, o trabalho é aqui. A preocupação em passar um treino de qualidade, em cobrar certo, em gerir. O grau de dificuldade aqui é maior.

 

Críticas na carreira como treinador

 

Ontem, eu falei com um menino de São Paulo, porque às vezes eles tocam no Corinthians, no Santos, no São Paulo, isso ou aquilo, e as pessoas esquecem. 'São só os clássicos', não. Eu fiz um ótimo trabalho no Mogi Mirim, e subimos. Fui para Natal, fui campeão (no América-RN). De lá, fiz excelente trabalho no Avaí. Quase subi, foi detalhe para subir. E tudo sem dinheiro.

-"Em 2003, eu peguei o Paraná do Cuca numa posição e entreguei na mesma posição. Minha estreia na Série A foi 6 a 2 no Flamengo com o Paraná. Vou para o Grêmio e tiramos do rebaixamento. É trabalho. Tiramos o Paysandu, trabalho. Tiramos o Figueirense. Então eu sei o que é tirar time do rebaixamento e o que sofremos. É trabalho.

"Em 2006, eu cheguei no Jubilo (Iwata, do Japão), e era o 11º colocado. Eu fui o segundo no segundo turno, a dois pontos do Urawa, e ganhamos do Urawa num confronto. O Urawa foi para a final e ganhou, e eu terminei o campeonato em quinto.

 E aí, 'ah o teu trabalho é bom', não me deram jogador, eu pedi para vir embora em setembro do outro ano. O Cruzeiro, nos três anos, chegamos no Brasileiro e na Libertadores. Não cheguei à terceira conquista no Mineiro porque não nos deixaram jogar um dia depois.

A gente veio de viagem e, com time misto, perdeu para o Ipatinga. Você comete erros, mas tem que lembrar dos outros trabalhos. Às vezes ficam, 'Rei do clássico, daquilo outro', mas não. Tem muita coisa boa para trás. Chama-se trabalho, não tem outro segredo.

'Prefiro ter a semana para fazer o jogo na intensidade que você quer e que apresente um bom jogo'



Três anos 'parado': Nesses três anos, tenho respeito por quem faz, cada um trabalha de uma forma, mas eu não planto muita coisa. Conversei com o diretor da Ponte, quase fui, do Sport, cheguei a ir lá, falei com o diretor do Bahia, do Vitória duas vezes, e alguns outros clubes da 'B' (segunda divisão), que não preciso falar os nomes, e ninguém sabe.

Tem coisas, às vezes, que você não está sumido ou desprezado. Às vezes foi opção, ou não deu, foi outro treinador, uma escolha. O importante e que eu fico contente é que eu falei com o diretor de futebol do clube, não teve atravessador, sondagem, especulação, internet, isso ou aquilo, e, infelizmente, não acertei.

 

Mas, nesse período, assisti os três anos da Florida Cup. Acompanhei e gosto de ver trabalhos no Leverkusen, no Schalke 04, PSV, tive na Inglaterra, na Argentina, Paraguai, Chile, Uruguai. Troquei ideia com o treinador do Cerro (Porteño), com o Gamarra, que tem um clube. Anos antes falei com o Arce. Também fui na Universidade do futebol. Tive aqui em Viçosa, em um Soccer Experience, o sétimo que aconteceu, pessoal muito capacitado.

 

 

Na CBF, vou acabar neste ano a licença pro. Às vezes, você chega num simpósio, está assistindo aula de um alemão lá e estão lá o Edmilson, o Roque Júnior. Eu estou sugando de todo mundo. Tento descascar o Barcelona, o que fazia, o que faz, o que gosta, como é o Guardiola, o que pensa, como é o treinamento. Acho que o Brasil está bem servido. Tenho absoluta certeza que estamos bem servidos de profissionais.

 O problema nosso é para cima. Organização, excesso de jogos, calendário adequado. Os estaduais que atrapalham. A qualidade, investir na base, ter mais jogos para que tenham sustentação e cheguem no profissional mais bem preparados. Que a gente não fique desperdiçando tempo com situações táticas e técnicas, para corrigir isso. Às vezes é desperdício estarmos já desprezando ou criando dificuldades para meninos de 18, 19, até 20 anos, já falam que é difícil. Tem esse sub-23 e podemos melhorar. Dá uma oportunidade. Vou usar o exemplo do Kaká.

 

O 'estirão' do Kaká foi no Milan. E quase ele não joga no São Paulo. O Vadão é que foi ver um jogo do juniores, tinha machucado dois, o Kaká era reserva, entrou no jogo, o Vadão gostou e chamou para o profissional. Se destacou contra o Botafogo no Rio-São Paulo e foi, enfim. Vamos ver os juniores, eles fazem média de 34, 40 jogos por ano, no máximo. Mas quantos jogos de alto grau de dificuldade? Vamos pensar aqui no América. São os dois contra Cruzeiro e Atlético e um ou outro em fase mais avançada da taça, outro lá em Porto Alegre. Deu 10 jogos.

 

E como você vai cobrar desse menino para que ele se desenvolva e cresça? Eu gosto de jogar tênis. Se for jogar tênis com o meu pai eu vou ganhar do meu pai. Preciso jogar lá com o Prestão, que ganhava do Guga até os 18 anos. Só que eu tomo 6/0, 6/0 e 6/0. Eu não faço um game nele. E eu só cresço jogando com ele, os outros não adianta. Vale para os estaduais que acabei de relatar. A gente precisa ter forte. A Argentina tinha 30 clubes na Série A. Não estou querendo consertar, estou dando minha opinião. Porque o Brasil, com o tamanho de continente não pode ter 30 na 'A', 30 na 'B', 150 na 'C' e 300 na 'D' e todo mundo joga o ano inteiro. Não querem. Nós, profissionais queremos ajudar.

 

 

Restrições e trabalho no Corinthians

Quando eu fui para o Corinthians eu tinha outra proposta, que não vou falar o time. Eu deixei de ir embora e aceitei o convite do Corinthians. Antes, o treinador da Seleção seria o Muricy. Já me ligou o Alexandre, perguntou 'o Muricy tá acertando, você aceita treinar o Fluminense?'. Aceito.

De noite, 'não deu certo'. Foi o Mano para a Seleção. Aí me liga: 'Adilson, você aceita?'. Aceito. Não é uma justificativa, mas se você olhar a história, peguei em primeiro, e errei em carga de trabalho e só. Tive Ralf e Jorge Henrique com lesões e acabou atrapalhando o coletivo. Acabei perdendo alguns jogos que estavam na mão.

Se você prestar atenção, lembra Cruzeiro e Corinthians em Uberlândia, o Cruzeiro jogou do meio de campo para trás. Nós erramos um pênalti. Demos um sufoco no Cruzeiro. Perdi o jogo para o Atlético Mineiro em lances de bola parada, dois erros, estava na mão. Perdi um jogo contra o Inter aos 46, estava na mão. Mas daí eu saio (do Corinthians), perde um jogo para o Tolima, e manda 13 embora. Essas coisas temos que saber o porquê. Lá eu errei em carga de trabalho.

Me excedi em relação ao volume de trabalho. Isso foi aprendizado. Lá na frente alguns tiveram problemas físicos. A carga de trabalho foi alta. Mas, por quê? Você trabalha em um clube que eu queria a mesma intensidade do time. Às vezes esse grupo não me dá aquilo que eu estava querendo. Isso eu errei. É mais ou menos por aí o raciocínio. (fim)

TRINCHEIRA: Sensacional esta entrevista de Adilson Batista feita pelos ótimos Rodrigo e Ivan Drumond. Adilson está leve e solto e espero que fique assim.


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