quinta-feira, 9 de agosto de 2018

TEXTO PUBLICADO NO JORNAL TREM ITABIRANO

AQUELA MULHER PELADA LÁ NO CENTRO CULTURAL
DE ITABIRA ME LEMBROU UMA HISTORINHA DE 1996
(A rádio Pontal me esfolou por eu publicar um poema erótico de Drummond)

Se o Musée D'Orsay, de Paris, pode exibir "A Origem do Mundo", de Gustave Courbet, por que o Centro Cultural de Itabira não pode ter uma réplica da mulher pelada de Carlos Leão que ilustrou "Amor, Amores", livro de Carlos Drummond de Andrade lançado em 1975? Pode, claro, afinal o mundo já corre em 2018. Fosse outra época, a do padre Zé Lopão em recuo, correríamos o risco de presenciar passeata pela preservação dos bons costumes, pelo respeito à tradição da família, contra a indecência, esses trololós.

Fui conferir no sábado uma mal ajambrada exposição de reproduções de fotos e textos de Drummond em cartaz no aquário do Centro Cultural. Aquário é aquele cercado de vidro feito há uns 10 anos no pilotis – sim, pilotis fechado, Itabira rima com Sucupira. Foi criado para ser aberto à circulação, com a proposta de integrar as pessoas ao edifício da cultura. "Povo de Itabira, essa história de arte ser só para elite é conversa fiada. Venha ao Centro Cultural, a casa é sua, entre, fique à vontade, estamos de pernas abertas para você", gritava o pilotis. "Isso pode dar certo, o povo acabará entendendo que o Centro Cultural é dele. Precisamos dificultar", pensou alguém e então providenciou-se o fechamento do pilotis, truncando a passagem, arredando o povo, ocultando a Biblioteca Municipal e estropiando o projeto original, do arquiteto Zenon Lago. Nome do responsável pelo desserviço: João Izael, prefeito à época.

A arquitetura pode ser um convite à democracia e também propor a expulsão do povo. O que queremos, Itabira?

Ainda está para surgir aquele que livrará o Centro Cultural daquela asfixia no pilotis, como apareceu Marconi Drummond, em 2013, e eliminou do jardim umas pavorosas caixas pretas feitas com antigas placas dos Caminhos Drummondianos, similares a essas de inauguração de obras públicas, que exibem data e nome de prefeito. Foram substituídas por novos e belos suportes patrocinados pela empresa Vale, mas alguém teve a infeliz ideia de pegar a velharia, criar cubos e fixá-los no gramado do Centro Cultural. Assim que assumiu a Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade, Marconi Drummond, acertadamente, capinou aquela feiura. Erros podem ser corrigidos, diria o Conselheiro Acácio.

Voltemos à mulher pelada do Centro Cultural. Ao ver o desenho de Carlos Leão, lembrei-me de uma historinha de 1996. Com a responsabilidade que se pode exigir de que tem 20 e poucos anos, eu editava o jornal oficial A Semana e me esforçava para publicar textos além da maçaroca prefeitural. "Temos de veicular também algo que preste para o povo", pensamento que me rendeu colisões no Paço Municipal Juscelino Kubitschek. Consta que o número em cuja capa imprimi foto de dois alunos do Colégio Nossa Senhora das Dores se beijando – numa reportagem sobre aids, se bem me lembro – levou o então prefeito, Olímpio Pires Guerra (Li), a fazer picadinho de um exemplar no seu gabinete. Esse jornal é para falar bem do governo, principalmente na capa, insinuavam o tempo todo assessores do prefeito, mas eu nem sempre estava disposto a concordar com eles.

Vamos publicar um poema de "O Amor Natural", livro erótico e póstumo do itabirano, avisei numa reunião de pauta e ouvi de um prudente repórter: "Marcos, vai dar confusão". Mandei buscar um exemplar e o entreguei ao motorista do jornal: "Jorge, estas páginas estão cheias de Drummond falando sacanagem. Escolha um poema, bem bonito, para sair na próxima edição do A Semana. Você tem dois dias para resolver". Tarefa cumprida com denodo: ele foi visto lendo o livro e rindo em diferentes lugares, nas esperas de seu ofício, e dentro do prazo me devolveu o volume marcado na página 25: "Escolhi esse aí, ó". Era "A Bunda, que Engraçada", impresso inteirinho no periódico oficial.

Virou escândalo na rádio Pontal, de Marcos Evangelista Alves, o Gabiroba. Doutor Marcos Evangelista Alves, aliás, como ele faz questão de ser chamado, obedecido zelosamente pelos funcionários de sua emissora. Doutor Gabiroba foi ao ar e sentou a borduna: quem esse moleque pensa que é para atentar contra a família itabirana? Logo um jornal da prefeitura, pago pelo povo, publicar essa indecência, absurdo, imoral, o bispo dom Mário precisa saber disso...

Pensei: os homens de decisão do governo virão para cima de mim como pitbulls picados por marimbondos. Nem tanto, deu um rebu grau 4, maquinado por quem me detestava (detesta até hoje, suponho). Tentaram articular para o prefeito me demitir, mas Li não o fez, embora motivos não lhe faltassem, e alguns dias depois o caso estava sob o mármore. Sabíamos todos, na redação do A Semana e no governo, que a rádio Pontal não estava preocupada com família, moral, bons costumes, nada. Aproveitou-se do caso para fazer uma politicalhazinha bem à itabirana.

Hoje, se o Centro Cultural exibir centenas de fotos de mulheres peladas, e até expor mulheres nuas mesmo, acredito que a emissora do doutor Gabiroba não dará um pio de coruja velha. É que a torneira da publicidade oficial jorra com fartura para os lados da equiPontal.

Dizem sempre os filósofos: o animal satisfeito dorme.

O TREM ITABIRANO
Na foto, a mulher pelada exposta no Centro

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