quarta-feira, 26 de setembro de 2018

HISTÓRIA DE MAURO XAMPU E DO GLORIOSO IBIS DO RECIFE

De Mauro para Xampu: ídolo do Íbis revela dura trajetória em carta.

 

Antes de ser Mauro Xampu, Mauro Teixeira pediu esmola, vendeu pastéis e viveu na rua, onde conviveu com violência; sonho de ser jogador e cortes de cabelo o fizeram sobreviver.

 

Por Mauro Xampu, com Camila Alves  Recife

 

- Esta é uma história verdadeira, escrita pelo personagem central, para a Jornalista Camila Alves e por ela transformada numa detalhada biografia do moço que sempre  sonhou de ser jogador de futebol. Ele era bom de bola, acreditem"

"- Destaque na Vila do Ipsep - bairro onde cresci, na zona sul do Recife, e moro até hoje. Mas nunca fui chamado para time bom de verdade.-

 " Quando te criei, Xampu, pensava que, em algum momento da vida, conseguiríamos realizar nosso sonho. Um sonho por mais de uma vez interrompido e que eu, Mauro Teixeira Thorpe, ainda não consigo entender o motivo"

-" Anos se passaram desde quando pensei nisso pela primeira vez, ainda criança. Faz tempo, eu sei... Mas converso contigo hoje pra te lembrar que, na história do futebol, tudo que a gente teve são derrotas. Mas seremos o único jogador que só perdeu e é feliz.

Antes de você existir, Xampu, eu era somente Mauro ou, no máximo, Mauro Teixeira, ainda na "Vila Pacotinho", onde morava com meus pais - Dona e Iracema e seu Adalto - e mais 14 irmãos. O nome do lugar, na verdade, era Vila do Ipsep, mas como não tinha saneamento básico, a gente precisava fazer as necessidades, colocar num pacote e jogar fora. Aí o jeito foi mudar de nome".

 

-"Muito antes de criar você, quando eu tinha ainda nove anos de idade, meu pai sofreu  acidente no trabalho e ficou cego. Se a situação já era difícil, depois disso ficou pior ainda. Foi quando comecei a me virar pra sobreviver. Cheguei a pedir esmola com ele, depois trabalhei como porteiro de ônibus e varri chão para os motoristas. Mas foi na beira da praia que me encontrei, quando deixei o Ipsep pra vender o pastel da minha mãe."

Antigamente, na década de 1970, a praia de Boa Viagem era bem larga, e eu andava com a bandeja entre as barracas da orla. Mas tinha que voltar com dinheiro pra casa porque, se faltasse, apanhava. Lembro que uma vez os pastéis caíram na areia e na hora bateu logo o desespero. Como é que eu ia dizer a ela que caiu? Então peguei tudo do chão, limpei e coloquei de volta pra vender. Tinha que dar meu jeito..."

 

-"Nessa época, parei de voltar pra casa. E dos dez aos 14 anos, virei menino de rua. Pela necessidade, sabe? Não queria perder tempo pegando ônibus, então eu via minha mãe uma vez na semana, quando ia deixar o dinheiro com ela. Ela se preocupava, mas acho que sempre tive uma cabeça boa. Perambulando pela praia, conheci um grupo de "maloqueiros" na praça de Boa Viagem."

-" Dormir? Era em barraca de coco, nas calçadas, comia resto de comida de restaurante e tomava conta de carro na rua. Forrava papelão em hotel, em frente a igreja ou no terraço das casas. E dormiam pelo menos uns oito meninos. A parte ruim é que sempre tinha gente que molhava o chão. Dona de casa, sabe? Pra gente não dormir."

 

Sei que você sempre se fez de festa, Xampu. Mas por muito tempo minha vida foi moldada por medo. Medo que mexessem comigo na rua e, principalmente, de nunca mais voltar de lá. Lembro de quando tomava conta de carro em troca de dinheiro e, certa vez, peguei no sono deitado no muro. O nome do restaurante nunca saiu da minha cabeça: Barril. Eu só queria uma gorjeta pelo trabalho, mas acordei sendo empurrado calçadão abaixo por uns meninos ricos. Eles saíram correndo, gritando, e eu permaneci em silêncio. Naquela hora, com meus 12 anos de idade, pensei que iria morrer. Até porque, saiba, essa sempre foi uma realidade presente na minha vida".

 

-"A verdade é que a vida na rua nunca foi fácil, Xampu, mas nela aprendi o ofício que, um dia, me levaria a você. Quando não jogava bola na beira da praia, engraxava sapato no calçadão de Boa Viagem. Foi quando conheci Maneco, o dono de uma loja que adorava futebol e me inscreveu como funcionário dele para o campeonato dos comerciários. Ao lado da loja dele tinha um salão, onde eu comecei fazendo faxina, até que um dia me chamaram para ser cabeleireiro".

 

Quando fui dizer na favela do Ipsep meu novo trabalho, logo ouvi: "Eita, vai ser bicha" Preconceito que sempre existiu, principalmente porque na época faltava informação e cabeleireiro só existia para mulher, enquanto homem trabalhava como barbeiro. Eu travei. Fiquei com esse trauma, com medo de seguir em frente. Mas graças à minha mãe, que se tornou meu maior incentivo, pude dar vida a você".

 

Com o tempo compramos um pente e uma tesoura, e começamos a cortar cabelo na favela. Fazia caminho de rato, porque nunca fiz curso de cabeleireiro, mas Batista - dono do salão - aos poucos nos ensinou. E pra fazer barba... Comprava bola de festa, enchia, ensaboava e tinha que tirar com a navalha. A cada estouro era um corte. Pow. Pow. Pow.

 

Mas a verdade é que a gente nunca conseguiu deixar aquele antigo sonho pra trás. Largar a vida de jogador nunca foi uma possibilidade na nossa cabeça, até hoje... Mesmo aos 61 anos, ainda batendo pelada nos bairros do Ibura, Jordão e Campina do Barreto. Você nasceu do pente com a tesoura, eu sei, mas com teu nome tentei fazer o nosso no futebol. Tinha tudo pra ser jogador, tenho certeza disso. Só que o destino foi triste com a gente".

 

-"Nos descobriram na beira da praia, quando jogava com os meninos na areia. Seu Jauber Carvalho, treinador da base do Náutico, chamou para fazer treinos - e o que seria um dia terminou se transformando em quatro anos. Chegava a treinar até com os profissionais e tinha o sonho, por mais simples que parecesse, de morar na concentração. Imagine só... Poder comer, dormir e treinar sem precisar se esconder do cobrador de ônibus no trajeto até os Aflitos."

 

-"Precisei tirar forças de dentro de mim pra não deixar você pra trás. O Mauro Teixeira reencontrou teu ânimo na década de 1980, no Santo Amaro de jogadores como Ricardo Rocha, Valtinho e Moacir. E isso foi um orgulho, porque mesmo sendo um time mais ou menos, foi a primeira - e única - vez que ganhamos salário com a bola, numa equipe que até se concentrava antes dos jogos. Chegamos inclusive muito perto de conquistar o único título que teríamos pra contar história, com o vice-campeonato brasileiro da Taça de Bronze, em 1981. Mas você sabe, o time era um saco de pancadas."

 

-"Por outro lado, nessa época já estava numa posição boa quando conheci minha esposa Márcia - Pente Fino, como eu chamo -, companheira há 40 anos. Eu atendia a domicílio, mas o que a gente queria mesmo era jogar bola e, pela distância, perdia muito tempo nos deslocamentos entre uma casa e outra. Até que um dia, um dos clientes me ofereceu a loja que era dono na avenida Conselheiro Aguiar, no bairro de Boa Viagem, zona sul do Recife. Comecei alugando, e há 10 anos terminamos de pagar, para conquistar nosso primeiro patrimônio. Com dificuldade, mas que temos pra chamar de nosso".

Salão de Mauro Xampu, localizado na galeria Praia Sul Shopping, na avenida Conselheiro Aguiar funciona até hoje .

-"Sei que nos prejudicou muito. Meus filhos tinham vergonha, eu tinha vergonha. Sempre que falava no Íbis, as crianças nos olhavam dos pés à cabeça pra dizer: "Oxe, isso é muito ruim". Machucou. Machucou muito, eu sei. Mas hoje me orgulho, porque sei da marca que a gente construiu. Falou do Íbis, Mauro Xampu é destaque. E se a marca deixou o sonho de jogador pra trás, ao menos alavancou nossa profissão de cabeleireiro. Por isso que sempre lhe digo, se temos que ser o pior, que seja o melhor do pior".

 

Eu tinha vergonha da nossa história!. Me escondia debaixo do lençol quando via conhecido passando pela calçada. Mas hoje sou feliz, como você. Porque és parte de mim, do mesmo jeito que sou parte de você. Talvez o estrelato não tenha vindo da forma que a gente imaginava, mas saiba que as pessoas lhe veem como símbolo. O Íbis se tornou nossa família e nos fez estrela. Conhecemos Jô Soares, Ana Maria Braga, Luciano Huck, Faustão, desembarcamos na França pra dar entrevista, ganhamos filme, boneco gigante e às vezes pergunto: "Quem eras tu, Xampu?"

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Escolha a melhor forma de se identificar em Comentar como: Depois pitaque à vontade.