sexta-feira, 16 de novembro de 2018

CASINHA PEQUENINA, LEMBRA-SE DELA?

ATRÁS DE ONDE MORAR
(Flávio Anselmo - novembro/2018)

Você se lembra da casinha pequenina, baixinha, paredes de barro, chão batido e coberta de sapé?
Na frente, duas enormes janelas, pintadas de azul?
Apelidamos de casinha, mas foi choupana que levantamos no cume do morro, nas fraldas da mata virgem, respiradouro da região do bioma cerrado.
É velho este evento, posso gravá-lo nos tempos de antanho, quando éramos adolescentes cheios de sonhos, 40 anos antes.
A casinha manteve-se de pé, apesar das turbulências pelas quais passou; tornou-se símbolo dos sonhos e planos na fase da sofrência.
Mas o que é sofrência? É mistura de sofrimento e carência, sofrimento por um amor não correspondido, fossa, dor de cotovelo ou de amor.
 Existia amor demais, condições de menos. Pouca idade, zero de Juízo, nenhum emprego, de onde tirar algum dinheiro de sustento.
Na frente da choupana, depois do canteiro de hortaliças que plantamos tinha a cerca de ripas, amarradas com cipós, e pintadas a cal, trocado pelos pés de alface, couve dúzias de chuchu, estes colhidos nas estacas de sustento no terreiro atrás da casinha.
A casa, jamais ocupada, tem ampla sala de visitas, um quarto grande para as visitas, também; banheiro social e a suíte nossa, pouco maior por causa do luxo da banheira.
No final do corredor a cozinha, com fogão à lenha, e serpentina. para banho quente a qualquer hora.
No puxadinho colado à porta de saída da cozinha, de acesso ao terreiro, está o tanque de lavar roupas e o vasilhame maior, coberto para proteção contra as chuvas pesadas.
Era um mundo pequeno, mas feito com muito amor.
Mas o tempo tudo levou: os planos e sonhos. A casinha de sapé ficou lá, em pé. Porém, destelhada pelos ventos fortes do alto da serra.
E agora: o que vamos fazer? Correr atrás de onde morar? Ou passaremos a borracha em tudo e cada qual tomará seu rumo, pela trilha infindável da solidão?
Nesse território de pequeno espaço, estão as galinhas d'Angola, as caipiras, os galos Garnisés, os de cristas altas, bons de briga.
Mais patos, gansos e marrecos; juntos do  vira-lata pulguento, bravo com estranhos, tomam conta do pedaço.
As galinhas d'Angola matam e comem cobras, escorpiões, aranhas caranguejeiras, que entram no terreiro.


Vale dizer que além de confortável morada do amor, a casinha pequenina tornou-se, também, uma fortaleza, de segurança máxima. Exceto contra os lobos Guarás e as onças pintadas que habitam a mata do fundo.
E contra a saudade que nos rouba a paz e habita dentro de nós, há anos. (Fim).  

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Escolha a melhor forma de se identificar em Comentar como: Depois pitaque à vontade.