segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

SOTERRADO NA LAMA DA VALE EM BRUMADINHO


lama E caldo de manga ubá
(FLÁVIO Anselmo - FEVEREIRO 2019)

O local desabitado e tosco,
só tem uma casinha branca
e enorme mangueira ao lado.
A sombra da imensa árvore
cobre uma área saudável,
esconde o sol e o calor.
Os galhos carregados de frutos maduros
são despensa natural da casa.
Basta que alguém estenda o braço
e terá na mão quantas mangas Ubás,
deliciosas e maduras: um regaço.
Vi, não, ao alcance dos meus sonhos
o mundo de sossego, paz e calmaria
que procurava pela sesmaria.
"Vou curtir então - pensei".
Tirei o casaco, joguei os sapatos de lado
e dependurei o chapéu no galho mais perto.
Recostei-me no banco de madeira de cedro,
fechei os olhos e suavemente dormi;
Ouvi o estrondo, e despertei.
-"O que é que isso?" questionei.
Fez-se, então, sepulcral silêncio.
Quebrado pelo bando de guaxos
assustado, já em voo de fuga.
Cresce o barulho de água morro abaixo
Calcei-me de novo, vesti o casaco, pus o chapéu.
Olhei na direção do barulho de alto decibel.
O rio de lama descia arrastando tudo
que tinha à frente, vindo pelo leito
do humilde córrego do Feijão.
Na passagem matava animais doméstico e selvagem.
Derrubava árvores, arrastava casas.
Homens, mulheres e crianças então
 gritavam por socorro enquanto eram engolidos
pela mortal lama amarela.
Algo me cutucou e alertou: "vem na sua direção".
Subi ao primeiro galho forte da mangueira,
pulei para outro mais alto
e como lagartixa galguei até o cimo.
A lama balançou a imensa árvore,
derrubou frutos maduros,
mas ela resistiu em pé, forte.
Surpreso, lá do alto acompanhei a lama
fazendo vítimas, numa forma de água suja
destruindo o verde vale de alta grama.
"É o fim do mundo - especulei - de onde vem
este lamaçal do inferno?"
Então me lembrei da barragem da Vale
cheia de dejetos de minério de ferro.
Tão presente nas conversas de botequim
em Brumadinho, nas quais não faltavam alertas
do funcionário graúdo da Vale entre as cervejas.
-"O pessoal aqui deve tomar cuidado
a barragem do Feijão está condenada"
"Não passou na última revisão ano atrasado,
e corre risco iminente de rompimento".
Nem a Vale se cuidou, tirando seu escritório
do local. Nem o restaurante do pessoal,
ambos bem debaixo da barragem.
Do alto da carregada mangueira sentenciei:
"Acidente? Não assassinato em massa"!
Sem poder descer, cercado pela morte,
deitei no grosso tronco, onde me sentara,
peguei umas mangas maduras e doces.
Chupei-as devagarzinho. Pressa pra quê?
Para saber o número exato de mortos e desaparecidos?
Esta contabilidade ficará a cargo de Deus.
Nem a Vale haverá de querer rapidamente trazer tais
números de mortes e feridos para sua história.
Entre os seus o número já era alto: o prédio da administração
abaixo da barragem estava lotado de funcionários.

Sumiu entre a lama, bem como o restaurante da empresa
na hora do almoço. Ninguém se salvou.
Bombeiros, militares e voluntários ainda procuram corpos
soterrados na lama, porém não olham para as copas das árvores.
Por fim, me acharam todo enlameado e quiseram saber como saí da lama e subi na mangueira.
Respondi: "não saí da lama, nem cheguei perto. Estou brenhado de caldo de manga Ubá doce e madura".
-"Enquanto vocês procuravam corpos na lama, chupei 100 mangas, mas não tive água, nem sabão para lavar as mãos". (fim)


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